COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

MISTURA DE CANAIS

As imagens e os sons da ovação cruzeirense a Neymar fizeram lembrar o dia em que Ronaldinho Gaúcho, de azul-grená, fez o Santiago Bernabéu louvá-lo. Eventos insólitos e improváveis como esses nos conduzem à conclusão de que, lá no fundo de um inconsciente que tem vontade própria, pessoas gostam mais de futebol do que dos times para os quais torcem. É um pensamento puro, nobre, belo. E falso.

A intenção aqui passa longe de diminuir a homenagem de torcedores adversários a um jogador extraordinário como Neymar. Muito menos se pensa em fazer pouco das sensações inéditas que o levaram a dizer que a noite de sábado ficará em sua memória para sempre. O que Neymar produziu e provocou no Independência foi realmente sublime. Mais um recital do menino-craque, que transformou em pechincha até o ingresso mais caro cobrado para entrar no estádio mineiro. A questão é que há mais entre a arquibancada e o campo do que supõe nossa vã psicologia.

Quando torcedores gritam o nome do jogador que acabou de destroçar o time deles, temos a impressão de que uma atuação fenomenal é capaz de converter em admiração todos os sentimentos que habitam um estádio de futebol. Como se a frustração de uma goleada sofrida, ou a angústia que resulta da humilhação, pudessem ser substituídas por qualquer nível de satisfação. Como se a dor de levar 4 x 0, em casa, fosse aliviada pelo privilégio de ver de perto um jogador raro.

Não que alquimias dessa natureza sejam impossíveis ou vivam apenas nas fantasias dos românticos. Elas acontecem, mas só se materializam após um período regulamentar de descompressão. Ali, no campo, com o algoz ainda presente para poder agradecer, as palmas e os elogios não são nada mais do que disfarce para um desgosto insuportável. Cortejar um rival é uma forma dissimulada de dizer ao nosso time o quão miseráveis ele nos fez sentir.

Um dos destinatários das loas a Neymar era Montillo. O argentino deve saber que a cena só foi possível porque o Cruzeiro se ausentou do jogo. No lugar de fãs embevecidos, hipnotizados pelos poderes de Neymar, havia cruzeirenses traídos, dispostos ao extremo de inverter a lógica de torcer. Como o sujeito que chega à festa com outra mulher, apenas para deixar a ex-namorada enciumada. Montillo mostrou classe ao assinar publicamente os elogios ao santista, mas provavelmente está incomodado com o fato de um oponente ter recebido o que a torcida tinha reservado para ele.

Não há maneira mais severa de criticar o próprio time. O passo seguinte é o abandono, que no futebol equivale à deserção. Mais do que comover Neymar, o objetivo dos cruzeirenses era garantir que os jogadores mineiros ouvissem o nome de um adversário ecoar no Independência. Para bons entendedores, é pior – bem pior – do que a ofensa. O recado certamente chegou.

Neymar disse que, a partir de sábado, considera a torcida do Cruzeiro sua “segunda casa”. A essência do futebol não aceita esse fenômeno. Craques como ele merecem toda a admiração do mundo. Mas para torcedores de verdade, a relação com o próprio time vem primeiro. Na alegria e na tristeza.



  • Anna

    Cenas como essa nos fazem ainda ter esperança no futebol. Desculpe estar entrando menos no blog, mas estou muito enrolada com o trabalho. Bela coluna! Neymar merece e muuuito! Grande abraço, Anna

  • Willian Ifanger

    Pronto, disse tudo.

    Tudo bem que vai demorar pra acontecer isso, mas deixa ter o próximo embate entre os times em BH pra gente ver esse “amor” todo.

  • Willian

    Parabéns pelo texto André.Que bom que suas colocações são bem diferentes das do se pai.PARABÉNS!

  • Emerson

    Concordo com o que foi escrito. Acrescentaria, porém, que o fato de Neymar ser uma “grife” também contribuiu para as manifestações dos cruzeirenses serem voltadas a ele especificamente. Isto é, fosse o André autor de uma assistência, mais “hat-trick”, não creio que haveriam todas aquelas manifestações. Ah, e por falar no Palestra mineiro, se não despertar logo, pode repetir, no Brasileirão 2013, o “feito” do outro Palestra em 2012…

  • Jorge

    É isso, André. Exatamente isso que nós (que estávamos no Independência no sábado) queríamos.
    Antes de exaltar o Neymar, os aplausos foram um modo de mostrar à diretoria do Cruzeiro e a seus jogadores a grande insatisfação da torcida.

  • Marcel de Souza

    Perfeito André, é exatamente o que eu penso.

  • Rafael

    , como você é, tende a diminuir o fato. Triste

    AK: Triste é não poder diminuir sua ignorância. Tente ler. Um abraço.

  • Edouard

    Você tirou esse fim de ano para escrever textos “polêmicos”.
    Qualquer coisa que não faça coro com as histerias idólatras será vista como uma tentativa de desconstruir “mitos”, “gênios” etc.
    Aos bons entendedores, é claro, percebe-se que não se trata disso, nem remotamente.
    Janeiro vem aí. Aproveite as férias…
    Um abraço.

  • leonardoatleticano

    André, que o Neymar é ótimo todos nós sabemos, mas o ato foi de revolta, assim como vão gritar Ronaldinho no último jogo, após o 10 x 0 do Galãããão da massa. Não ganhamos título nenhum, mas a realidade mudou bastante aqui em Minas.
    O presidente do Cruzeiro disse após isso tudo que o técnico anda em alta com ele, sem motivos para ser mandado embora e o Roth disse que a torcida é mala, pois o Cruzeiro devia estar é rebaixado. Como eles estão se apequenando.
    O Galo, não fez sua parte no segundo turno, entrou na pilha da arbitragem e se perdeu. Os erros a favor do Fluminense ocorreram sim, aquele lance no jogo do Náutico foi um dos maiores descaramentos que já vi, contra a Ponte, Vasco e muitos outros. Mas o Galo jogou muito mal fora e ficou pelo caminho. Mas ficou o recado que não somos cegos e mudos. Enxergamos o errado e temos todo direito de reclamar.

  • Roberto Junior

    Grande André, tudo bem?

    Rapaz, é raro acontecer, mas nesse caso discordo de você.

    Digo isso porque acho que a cena se repetiria qualquer fosse o estádio. Naquela partida o moleque jogou demais. Até eu levantei do colchonete da sala pra aplaudir atuação. Que, aliás, recebeu do Lance! uma nota 9,5, um absurdo rsrsrsrs.

    Claro, pode ter até ocorrido uma certa dose de ironia por parte dos cruzeirenses. Normal. Porém, insisto, acho que o principal foi mesmo a jornada inspiradíssima do garoto. Ou talvez eu seja um dos últimos românticos rsrsrsrs.

    Abraço e parabéns pelo trabalho!

  • Carlos

    Para o próximo ano o Neymar precisa de jogadores de nivel para ele continuar a evoluir ainda mais, que tal o Wesley que está no Palmeiras de camisa 10.

  • Denis

    Perfeito seu comentário André.

    Concordo que Neymar merecia os aplausos depois do show que deu no Independência, mas também acredito que a torcida do Cruzeiro só o fez para protestar contra o próprio time. Tanto é que antes de ovacionar o craque, os torcedores já gritavam Olé quando o time do SANTOS tocava a bola.

    Abraço.

  • Luiz Bastos

    André, boa tarde.
    Alguns brasileiros não admitem que jogador de outro time (genial como o Neymar) sejam admirados. Você viu a enquete que elegeu o Neymar como o jogador mais admirado do Brasil? Pode ser que alguns estivessem manifestando um desagrado, mas generalizar não acho correto.
    É por pensamentos como esse que temos uma verdadeira guerra entre torcidas. Antigamente as torcidas adversárias assistiam juntas aos jogos.
    Além disso, na contestação ao seu time você pode vaiar, não precisa enaltecer o craque de outro time, a menos que você veja naquele craque um jogador espetacular em uma noite inspiradíssima. Pelé era assim, você lembra que as torcidas adversárias o aplaudiam em jogadas geniais? Lembra do famoso gol de placa contra o Fluminense no Maracanã, aplaudido por todo o “estádio”? Porque Neymar, outro jogador brilhante, praticamente gênio, não pode receber essa manifestação?
    Vamos deixar o estudo filosófico de lado e aplaudi-lo também. Ele rejeitou ofertas altíssimas do exterior e continua nos brindando com seu futebol. Vamos curtir isso.

    AK: Se você acompanha o que escrevo, sabe o que penso sobre Neymar. Não preciso repetir aqui todos os elogios que já fiz. Agora, acho extremamente exagerado relacionar o que escrevi ao problema de violência no futebol. Estou falando sobre a relação entre torcedor e seu time, nada mais. E a prova sobre a origem da manifestação veio logo depois, quando a torcida do Cruzeiro parou de gritar o nome de Neymar e passou a gritar timinho. Um abraço.

  • Juliano

    Exatamente, AK.
    Inclusive, é muito mais fácil pra torcida do Cruzeiro criticar seu time desta forma, contra um time que não é rival, do que se tivesse tomando de 4 do seu rival Galo com atuação semelhante de Ronaldo Assis.
    Duvido que em situação idêntica a torcida do Corinthians, este sim rival do Santos, fizesse o mesmo para protestar contra seu time – mesmo que, repito, em situação idêntica.

    O ocorrido com Ronaldo Assis no Bernabéu pode parecer igual para o torcedor médio. Mas é diferente… a postura dos torcedores é diferente, sua relação com o time é diferente e, claro, a cultura toda é diferente. AK explicou muito bem no texto. Não entende quem não quer.

    Abraço!

  • Marcelo David Macedo

    Você foi muito feliz na sua reflexão, André. Parabéns e um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Discordo. Brasil x Argentina pelas eliminatórias para a Copa de 2010. Jogo no Brasil,não lembro o estado nem o estádio. Final,Brasil 0x0 Argentina. Messi foi substituído. E aplaudido. Tenho certeza que quem o aplaudiu não queria espetar ninguém,estava apenas reverenciando o melhor jogador em atividade no mundo.

    Vasco 3×0 América de Cáli,jogo na Colômbia. Juninho Paulista foi substituído e aplaudido pela torcida adversária.

    Claro que quem paga ingresso para ver seu time espera vê-lo vencer,mas,mais que isso,espera uma boa partida de futebol. Se,infelizmente,seu time perder,valeu o ingresso só por podermos ver a fina arte do futebol exibida em nossos gramados.

    Às vezes é bem mais simples do que parece,não tem mensagem subliminar ou entrelinhas. É simples assim

    • Concordo com você, Marcos Vinícius.
      Penso que a reverência ao Neymar foi espontânea, pura.
      Como você bem falou, as vezes é bem mais simples do que parece.
      O Neymar genial foi mais capaz de despertar emoções do que o cruzeiro jogando mal, mesmo para os cruzeirenses.

  • Rafael Wüthrich

    Olha André, não um eventual comentarista que discorda de você, hehe. Mas desta vez apenas em parte. Realmente os aplausos de ontem foram o reflexo do que o Cruzeiro não produziu em seu próprio campo – um quê de protesto velado, enfim. Mas, da mesma forma, os torcedores poderiam simplesmente vaiar, como fizeram os do Vasco contra o Sport. Não – a presença do craque, que brinda os espectadores com jogadas, faz 3 gols e tritura seu time dá outra dimensão à partida e faz com que os próprios torcedores mostrem ao seu próprio time que sim, é aquilo que desejam, e que sabem reconhecer uma grande atuação. Aliás, merecida a ovação, e diria que, se não foi puramente por reconhecimento, pode-se dizer que foi em grande parte devido a ele. Se fosse 4×0 com gols de zagueiros ou de erros bobos do goleiro, não creio que eles simplesmente aplaudiriam qualquer jogador a esmo. E para Neymar, foi um marco – ele merecer, é o nosso craque, que falta apenas se encontrar na seleção.

  • Massara

    André, você sintetizou exatamente o que aconteceu no estádio. Palavra de quem estava lá, sem aplaudir o Neymar, mas absolutamente consternado com o que se passou em campo.

    Aliás, não me admira o fato de você ter, mais uma vez, batido no ponto exato do que ocorreu. Li muita bobagem a respeito nos últimos dias.

    Parabéns pelas colunas. Abraço.

  • Marcelo

    Uma pergunta IMPORTANTE:

    Caso haja uma final entre São Paulo e Grêmio na Sulamericana, como fica a última vaga para a libertadores no Brasileiro. Vai para o 5º colocado?

    AK: Essa hipótese é impossível. Um abraço.

  • Não há dúvida que no aplauso a Neymar havia um quê de ironia e insatisfação do cruzeirense com o próprio time. Mas o fato, que não pode ser menosprezado, é que em muitos anos é a primeira vez que se testemunha algo do tipo em estádios brasileiros, mesmo considerando que vexames como o do Cruzeiro são frequentes, pois praticamente em toda rodada do campeonato um ou mais times mandantes são inapelavelmente derrotados na frente de seus torcedores. Se o Neymar não é um jogador excepcional, que goza de um certo nível de reconhecimento nacional, então o torcedor do Cruzeiro é de uma criatividade incomparável na hora de cobrar os jogadores do seu time. Nem uma coisa nem outra; a torcida do Cruzeiro, ao manifestar sua indignação com o que via em campo, foi generosa ao reconhecer o talento de um adversário que, sim, está alcançando um status de ídolo nacional, apesar da teimosia daqueles que insistem em criticá-lo. Sem menosprezar o feito do atleta, cumpre apenas colocá-lo em seu devido contexto. Abs.

  • Thiago Mariz

    André,

    fazendo uma comparação, você acha que a manifestação histórica dos madrilistas aplaudindo Ronaldinho tinha também essa intenção por trás? Embora eu acredite que possa ter acontecido isso no jogo do Santos, não me lembro de ter visto análises acerca da “pureza” do ato dos torcedores madrilistas. Corrija-me se estiver errado, claro.

    AK: Mesma coisa. Na verdade, até mais ácido, por causa da rivalidade. Um abraço.

    • Thiago Mariz

      Interessante ponto de vista. Acredito que ainda sou muito inocente e olhei pelo lado positivo ambas manifestações. De qualquer forma, creio que elas serão lembradas por muito tempo.

      Obrigado pela resposta.

      AK: Não há lado positivo ou negativo. É uma mistura de intenções. Um abraço.

  • joão paulo tricolor

    Bom, eu sou sãopaulino antes de gostar pra valer mesmo de futebol. Gosto mais, portanto, do meu time do que do jogo em si. Oras, não deixaria de ver meu time no paulistinha pra acompanhar barça x real.
    Acho que o nome de neymar foi gritado para homenagea-lo, sim, pq de fato não havia ali um perna de pau. O SPFC este ano foi trucidado por Atletico GO e Coritiba, no entanto ninguem se levantou pra homenagear um jogador adversário. Mas é fato, homenageiar aquele que merece, e ao mesmo tempo cutucar oa atletas do seu time. Concorda que é uma mistura? As pessoas adimiram o neymar, por isso gritaram. Mas foram pra casa chingando seu time, não maravilhados com o neymar.
    Então é 2 em 1: homenagear um raro talento e cobrar meu próprio time.
    Abraço

    AK: É o que está escrito, não? Um abraço.

  • Nivaldo Dias

    André , admiro tanto você como seu pai, por isso fico lum pouco decepcionado quando vejo esta insistência em remar contra a maré quando o assunto não é Corinthians. Andrés, o óbvio não pode ser negado: o moleque está acima da média do nosso pobre futebol. Você acha que não admiramos o Sócrates, o Zico, Tostão, Ademir e outros que minha geraçãp ( 59) viu com enorme prazer? Amigo, vamos deixar de lado o bairrismo e assumir com respeito e humildade a realidade, o menino é craque e fim de papo. Parece a Folha , que dia seguinte veio com uma comparação estapafúrdia entre Neymar e Messi, demonstrando uma pequenez que não se coaduna com um jornal sério que tem um caderno de esporte tão fraca. Vamos partir para outro assunto. O Corinthians está super treinado pelo Tite. Abraços santistas.

    AK: Obrigado pelo comentário. Deixarei de lado seu deslize ao tentar conferir clubismo à minha opinião. Se você me acompanha aqui, deve ter lido o que penso sobre Neymar. Quanto ao que houve no Independência, há alguns comentários aqui postados por quem estava no jogo. Dê uma olhada. Um abraço.

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