COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

A ARBITRAGEM FALIU

Há uma certeza quanto ao desastre do apito no lance do gol(pe) de Barcos, no sábado: encontrarão uma maneira de negar, oficialmente, a interferência externa na decisão final. Não precisa ser uma história convincente. Basta que um “culpado” se apresente, e que ele seja um dos árbitros em campo. Uma curta declaração oficial, do tipo “esta assinatura não é minha”, e fim da história.

Será absolutamente inverossímil, uma tese que abusará de nossa boa vontade. Afinal, o árbitro – em posição privilegiada – não viu. O assistente que fica atrás do gol – especificamente para dirimir esse tipo de lance – não viu. E o assistente de linha correu para o meio de campo, confirmando o segundo gol do Palmeiras. Mas nada mais resta aos envolvidos senão oferecer uma explicação que seja aceita pelas regras do futebol. É a única opção. Assumir o que provavelmente aconteceu, ou seja, que uma informação baseada nas imagens da televisão chegou ao gramado e mudou o placar do jogo, trará o caos.

A utilização clandestina da tecnologia para corrigir equívocos da arbitragem transporta o jogo para um lamaçal filosófico. Divide as opiniões entre os defendem que um erro grave prevaleça, de forma jurássica, pois não se pode concordar com um remédio proibido; e os que entendem que a justiça deve ser feita, com meios que justifiquem os fins.

É ridículo, vergonhoso, quase insuportável, que um gol de vôlei como o de Hernán Barcos (cuja tentativa de ganhar sem mérito, diga-se, fez nascer a polêmica), detectado com absoluta clareza pela televisão no primeiro replay, altere o resultado de um jogo de futebol no ano de 2012. Em que pese a incapacidade de um árbitro que não vê o que se passa diante de seu nariz, nem ele merece ser o único que não sabe o que aconteceu. O jogo precisa ser protegido de seus próprios defeitos.

Mas o argumento de que “se foi gol de mão, deve ser anulado” perde de vista, em seu imediatismo, que a solução não pode ser aplicada apenas em um momento, de um jogo, de uma rodada, de um campeonato. Tal precedente abre as portas para as mais variadas formas de interferência no trabalho dos árbitros de futebol, esses dinossauros que ainda usam lápis, passam mensagens por telégrafos e se locomovem em carroças. Heróis abandonados a quem se pede o impossível.

O que houve no Gigante da Beira-Rio não é inédito. Já vimos episódios semelhantes dentro e fora do Brasil, como a expulsão de Zinedine Zidane na final da Copa de 2006 e o recente pênalti que virou falta em um jogo (Atlético Paranaense x Joinville) da Série B. Apenas dois exemplos, entre tantos. O contraponto a eles é a barbaridade que tirou a Irlanda do Mundial de 2010, um toque de mão de Thierry Henry que a arbitragem não percebeu.

Em todos, a sensação é ruim. Para todos, só há uma solução. O recurso às imagens da televisão deve ser autorizado, de forma a auxiliar o trabalho da arbitragem e aumentar a precisão de decisões que tenham impacto no resultado. Nem que seja apenas para lances como o de Internacional x Palmeiras.

RELÓGIO

O argumento de que o uso do replay transforma a dinâmica do jogo não se sustenta após situações como a de sábado. Não se comentou sobre o tempo gasto para uma decisão a respeito do gol de mão, apenas sobre o motivo da decisão. Se o replay estivesse autorizado, o tempo seria muito menor. E ninguém questionaria o motivo.

FILOSOFIA

Há quem entenda que o futebol, como a vida, não precisa ser justo. Que é exatamente na metáfora do cotidiano que nasce a paixão que temos pelo jogo. Ocorre que, na vida, não deixamos de fazer o que está a nosso alcance para que as coisas sigam bem. No futebol, optamos pelo atraso, praticamente nos obrigamos às injustiças.

LAPSO

O jogo entre Internacional e Palmeiras será lembrado pelo gol de mão misteriosamente anulado. Catástrofe da arbitragem, que errou até quando acertou. Pouca gente se lembrará que o apito, envergonhado, esqueceu de mostrar cartão amarelo para Barcos.



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