CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

DESCENDO A LADEIRA

Uma das revelações mais interessantes da investigação da Agência Antidoping dos Estados Unidos sobre Lance Armstrong é uma conversa que aconteceu em 1996, num quarto de hospital de Indianapolis.

Armstrong tinha sido diagnosticado com câncer nos testículos. Frankie Andreu – que viria a ser companheiro do texano na equipe US Postal Service de 1998 a 2000 – e sua então noiva, Betsy, foram ao hospital prestar-lhe solidariedade. Durante a visita, eles ouviram Armstrong dizer a um médico que tinha usado substâncias ilegais, entre elas EPO, testosterona e hormônio do crescimento.

Importante notar que a conversa se deu num período anterior aos títulos de Armstrong na Volta da França, cassados nesta semana pela União Ciclística Internacional. Não apenas é um indício antigo de doping, mas também algo que pode ter relação com o desenvolvimento da gravíssima doença da qual Armstrong se curou.

Frankie e Betsy Andreu contaram o que sabiam quando foram ouvidos como testemunhas de um processo contra Armstrong, movido por uma empresa que foi à Justiça, em 2006, para recuperar US$ 5 milhões pagos como bônus ao ex-ciclista. O argumento era de que Armstrong quebrou o contrato por usar substâncias proibidas.

Por causa do testemunho, o casal Andreu entrou para a lista de pessoas perseguidas por terem se colocado no caminho da maior estrela do ciclismo. O relatório da USADA revelou gravações telefônicas, mensagens de texto ameaçadoras e iniciativas de Armstrong ou de seus associados com o objetivo de prejudicar quem ousava furar a bolha que protegia seus métodos secretos.

Ciclistas e seus familiares, ex-atletas, funcionários de equipes e jornalistas que sofreram com as práticas gangsterianas de Lance Armstrong foram contemplados quando a verdade emergiu. Mas a conversão do astro em pária do esporte não reparará os danos cometidos em nome do silêncio.

Os títulos já se foram. Os prêmios em dinheiro podem seguir o mesmo caminho. E a fila de reclamações judiciais promete ser tão numerosa quanto o pelotão que Armstrong se acostumou a deixar para trás nas estradas francesas.

ENGANO

É um enorme equívoco imaginar que onde o doping é disseminado, atletas competem em igualdade de condições. 1) Sempre há quem não se dopa e não consegue competir, 2) Há diferenças de orçamento que têm impacto nos resultados, e 3) Mesmo entre os que usam as mesmas drogas, o ganho de desempenho é diferente. Substâncias operam de forma distinta em cada organismo. Doping não nivela a balança de forças, age de forma contrária.

PORÃO

Seria explosivo se Lance Armstrong decidisse revelar como foi protegido por dirigentes esportivos durante todo esse tempo. A investigação da USADA tem os detalhes de uma estranha doação de US$ 100 mil à UCI, em 2002. Ele também poderia dizer se os patrocinadores que o abandonaram nos últimos dias estavam interessados em saber se ele se dopava, enquanto ganhava títulos. É uma indústria corrompida. Armstrong era apenas o rosto.



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