COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

TERAPIA

O efeito da anestesia das declarações protocolares é poderoso. Leva à perda da capacidade de identificar valor nas palavras de um esportista. O fluxo de frases padronizadas – responsabilidade que deve ser dividida pelos dois lados – termina por ocultar o que deveria dominar o debate. Quando um jogador que tem o que dizer não se furta a dizê-lo, sua mensagem não pode ser descartada como se ficasse presa na caixa de spam.

Thiago Silva é um desses jogadores. Postura, currículo e trajetória de quem sempre soube que seria grande. Como tal, zagueiro e capitão da Seleção Brasileira a caminho de um Mundial em seu país, ele não ignora o dever de se posicionar. Na véspera do amistoso contra o Iraque, Thiago foi questionado sobre a relação do torcedor brasileiro com a Seleção. Respondeu com coerência e coragem: “Eu, particularmente, gostaria de jogar no Brasil para tentar mudar o pensamento do nosso torcedor. Mas sempre tem um que puxa a vaia. De qualquer forma, se perguntassem para mim onde eu gostaria de jogar, eu falaria Brasil. Temos de mudar essa postura do torcedor”.

A distância entre o Brasil e os brasileiros é um dos maiores desafios que a Copa do Mundo imporá. De vedete do nosso futebol, a Seleção passou ao papel da mulher misteriosa que some por meses, mas exige atenção total quando resolve aparecer. A maior responsabilidade é da ganância da CBF, que negociou o direito de organizar os jogos do time e permitiu que anomalias como um Brasil x Iraque, em Malmo, se transformem em lucrativa realidade.

É preciso reconhecer as questões geográficas que facilitam as apresentações da Seleção na Europa, assim como o fato de o Brasil não disputar as Eliminatórias. Mas a perda de contato entre o time e as pessoas é, acima de tudo, uma questão de interesses. Na verdade, de falta de interesse por parte de quem trata a famosa camisa como caixa registradora.

O tema é sensível e a declaração de Thiago, importante. Mesmo que tenha sido comentada com frieza por Mano Menezes, ou, talvez, produzido um recado “da gerência” para evitar assuntos comerciais. Sempre haverá quem pense que jogador só deve falar de campo e bola. A melhor interpretação do depoimento é perceber que o assunto faz parte do ambiente da Seleção.

O Brasil fez onze amistosos em 2012. Só três aconteceram no país (África do Sul, em São Paulo; China, em Recife e Argentina, em Goiânia). A partida da próxima terça-feira (Japão, na Polônia) ampliará a tendência e ainda usará jogadores dos clubes brasileiros durante a reta final do BR-12.

É possível que Thiago Silva esteja com saudades. Uma lesão na coxa direita o impediu de jogar recentemente no Morumbi e no Arruda. As regras do Superclássico das Américas não permitem a participação de “estrangeiros”. Seu último jogo pela Seleção, no Brasil, foi em junho do ano passado. Um 0 x 0 com a Holanda, no Serra Dourada.

Melhor levar sua palavra pelo que ela vale. Acreditar que Thiago está preocupado. E parabenizá-lo pela manifestação.



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