COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VILÕES DA RESISTÊNCIA

Ao contrário do que parece, deu tudo certo em Resistencia. O vexame interplanetário que cancelou um jogo entre duas das principais seleções do mundo foi o resultado de um processo que não poderia ter outro final. Vergonha idealizada, planejada e executada à perfeição. Era impossível salvar esse desperdício chamado Superclássico das Américas. O pobre jogo não teve a mínima chance.

O uso político do futebol (o que houve com a memória de Andrés Sanchez?) não é necessariamente o problema. Prática antiga, acontece diante de nossos olhos a cada vez que a Seleção Brasileira se apresenta no país. A administração anterior da CBF sempre usou o time para agradar aliados. Mas os argentinos, convenhamos, inovaram. Não há explicação para o local escolhido. Sejam quais forem as relações, as amizades, as dívidas e os favores, não se pode imaginar a Argentina jogando num fim de mundo, na casa de um time da quarta divisão. Tal nível de esculacho deveria ser proibido. Mesmo que a desculpa fosse mostrar a seleção para uma região menos favorecida, o que já aconteceu na partida de inauguração, um Argentina x Paraguai em 2011.

O desprestígio é total. Alguém teve a ideia de ganhar um dinheiro com dois jogos entre times que não existem, por um troféu que não vale nada. Nenhum “estrangeiro” chamado, o que, de início, já aplica à proposta um caráter subalterno. Mas desse jeito fica mais fácil encaixar a realização de jogos internacionais em datas não-Fifa, assim como levar camisas tão importantes quanto a amarela e a alviceleste para lugares como o Estádio Centenário de Resistencia. Nem é necessário se preocupar com o fato de a cidade não ter dois hotéis capazes de receber as delegações.

O futebol argentino vive sob o reinado de Julio Grondona, sentado no trono há 33 anos, capaz do que até Deus duvida para manter seu poder. A seleção é dele, que faz com ela o que bem entender. Don Julio quer que você saiba que, a exemplo de um colega brasileiro, ele está c… e andando para o que pensam. Nada é suficientemente ruim para desalinhar seus cabelos, ou fazê-lo perder a crença na inscrição do anel de ouro que leva no dedo mindinho (contribuição inestimável do perfil derruba-Teixeira, por Daniela Pinheiro, na revista Piauí): todo pasa.

Através das lentes de seus óculos escuros, estilo caçador de patos, José Maria Marin deve ver Grondona como um exemplo. Ao compactuar com o engodo do Superclássico, e permitir que a Seleção Brasileira jogue em qualquer pedaço de grama, o atual presidente da CBF mantém as coisas como elas são feitas há 23 anos por aqui. Onde falta noção e seriedade, não surpreende que falte energia. O apagão de Resistencia era inevitável.

A falta de importância do “torneio” ficou escancarada pela solução encontrada para o Argentina x Brasil que não houve. A princípio, detona-se o segundo jogo, pois os jogadores precisavam voltar a seus clubes. Ah, os clubes. Além das lições sobre como não organizar um evento, o papelón mundial foi um gigantesco lembrete de que é preciso respeitar o calendário internacional. As seleções devem jogar nas datas determinadas pela Fifa.

Mas os vilões encontrarão um outro dia. Não duvide deles.



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