COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

ACIMA DA LEI

Juninho Pernambucano fez o alerta na semana passada: a síndrome de protagonismo de certos árbitros brasileiros atingiu níveis insuportáveis. A frase sobre o “momento de cinema” dos apitadores pareceu premonitória, uma antecipação do show de Leandro Pedro Vuaden nos Aflitos.

Uma faixa aberta pela torcida do Náutico despertou o transtorno de personalidade histriônica de nossa arbitragem. Vuaden foi o intérprete. “Não irão nos derrubar no apito” era a mensagem dos torcedores pernambucanos. Insolência que o árbitro gaúcho não pôde aceitar. Resolveu mostrar quem fala mais alto, quem decide, quem manda. E o jogo contra o Atlético Goianiense teve seu início atrasado em quase 20 minutos.

Período no qual a autoridade máxima em campo observou seu poder em ação. Aguardou impassível a execução de suas ordens. A polícia e os jogadores do Náutico foram ao encontro dos atrevidos que ousaram se manifestar. A imagem da faixa sendo retirada deve ter causado uma sensação indescritível. Ordem restabelecida, houve futebol. Que aprendam a não mexer com quem é mais forte.

O futebol vive sob o olhar inclemente dos códigos disciplinares, dos delitos tipificados, dos tribunais de Justiça. Clubes vão a julgamento por ofensas de torcedores a atletas adversários. Jogadores são advertidos por escalar o alambrado, ou suspensos por um beijo no distintivo. Os mecanismos que permitem essas aberrações são semelhantes aos que conferem ao árbitro a faculdade de proibir uma simples manifestação. Basta que a julgue ofensiva ou violenta. O homem de preto está acima da Lei.

A faixa da torcida do Náutico obviamente não se enquadra em nenhum dos casos. Mas pode ter sido interpretada por Vuaden, o soberano, como uma tentativa de condicionar a arbitragem. Ou talvez ele apenas não tenha gostado da cor das letras. Não importa o motivo. Se o árbitro mandou tirar, cumpra-se. Nessa toada, não estará longe o dia em que um juiz mais (?) vaidoso se recusará a iniciar um jogo enquanto não for aplaudido por todos os presentes.

É assustador como aceitamos antigas e novas proibições sem questionamentos. A lista do que não se pode fazer é tão longa que conseguiu coibir a indignação. Teria sido exemplar se os torcedores que levaram a faixa para os Aflitos mantivessem o protesto. A prova de que não havia sentido em retirá-la foi seu reaparecimento durante o jogo, sem qualquer reação por parte de Vuaden ou da polícia. Que a faixa volte ao estádio do Náutico nas próximas partidas, mesmo que se tenha de buscar amparo legal para tanto. Sim, é um absurdo que isso seja necessário. Mais absurdo é ver um direito negado por um capricho.

Em todos os aspectos, Vuaden teria feito melhor se ignorasse a mensagem. Se a questão era a pressão sobre sua atuação, a cena protagonizada por ele teve o efeito contrário. O pênalti marcado em Rhayner, logo aos 16 minutos do primeiro tempo, merece ser chamado de caseiro. O que começou errado terminou pior.



  • André,

    uma questão, digamos, filosófica:

    Será que isso é uma reflexão da sociedade altamente “politicamente correta” que vivemos hoje?

    Abraço!

  • alexandre – floripa

    Estamos voltando a ditadura, só o fato de ter o nevasto Teixeira a frente do nosso futebol já mostra o quão podre ele está….
    obs: Apenas os ingenuos acham que ele saiu da CBF….

  • Gustavo

    André,

    No “Bem, Amigos” Alberto Helena indignou-se com o motivo do protesto, sustentando que o brasileiro deveria se preocupar com coisas mais importantes como corrupção, etc. Pergunto eu: num estádio há algo mais adequado do que discutir um aspecto do jogo??? Seguindo a lógica Helenista, a televisão fechada deveria diminuir a quantidade de espaço que dedica à bobagem do esporte.
    Pior foi o ex-jogador Caio, que viu a faixa como uma ameaça e disse que o público que frequenta estádios é mal educado. Quase senti falta da censura para retirar do ar tanta bobagem. Mas acho que o direito de falar asneiras é sagrado e fiz o que me restava: voltei para a ESPN.
    Cartazes pra puxar saco de narrador é que são legais? Estádio é lugar de expressão popular não violenta, incomode a quem incomodar. Se o árbitro não aguenta pressão de torcida, melhor ser comentarista de programa chapa branca.

    “Ei, juiz, vai plantar batata…”

    Parabéns por ter dado ao tema o tratamento que ele merece.

    Um abraço,

    Gustavo

  • Daniel

    Oi André

    Vc criticou o fato de que “Clubes vão a julgamento por ofensas de torcedores a atletas adversários”. Pergunto (provoco!): não foi com um raciocínio semelhante a esse que se conseguiu acabar com [ou pelo menos reduzir de forma muito significativa] o péssimo hábito dos torcedores de jogarem objetos no gramado?

    ][s

    AK: Não sei. Se foi, são duas coisas que não podem ser equiparadas. Um abraço.

  • Teobaldo

    Estava aguardando a manifestação do STJD para comentar este post, mas já está lá, num grande portal do país: “Schmit aprova a atitude de Vuaden”. Agora a ditadura está oficializada. Em tempo, concordo plenamente com o comentário do Gustavo. Causou-me asco (desculpe-me a graosseria, pois não encontrei termo melhor) os posicionamentos do Helena e do Caio, típicos de comentaristas chapas-brancas. Um abraço!

  • Edouard

    Em princípio, tenho por manifestamente incorreta a conduta de Vuaden. É importante, como sociedade, nos habituarmos com a ideia iluminista de Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las”.
    Dito isto, eu gostaria de saber o que o Vuaden disse sobre o assunto, saber por que ele agiu dessa forma. Talvez ele tenha uma explicação do tipo “eu não me importo, mas há uma determinação da CBF….”
    Um abraço.

    AK: Publicamente, não disse nada. Um abraço.

  • Edward Fernandes

    André,

    Iniciar o jogo só após ser aplaudido por todo o estádio me fez lembrar de algo: no final da década de sessenta eu estudava no Ateneu Dom Bosco, em Goiânia, e havia um professor que só iniciava a aula após todos ficarem em pé.rsrsrsrsrsrsr

    AK: Será que o Vuaden conhece esse professor? Um abraço.

  • alfredo

    AK, o Vuaden se manifestou sim. Deu entrevista a Zero Hora. E eu, particularmente, concordo com os argumentos dele. E discordo de quem, so por pensar diferente, fica chamando os outros de chapa-branca, como em alguns comentarios. Acho gozado isso ate: apoiam a liberdade de opiniao, e qualificam os que discordam da maneira que alguns o fazem de chapa-branca. RIDICULO. abraco.

    AK: Eu me referi a declarações dele no estádio. Sobre o que ele disse depois, perdoe-me, não pode ser sério. Chegou ao cúmulo de reclamar do tamanho da faixa, alegando que “não era normal” e que, se fosse menor, não haveria problema. E não explicou por que nada fez quando a faixa foi reaberta. Enfim, como escrevi, um abuso. Um abraço.

  • Nilton

    Estava aqui pensando com o meus botões, e tive uma ideia que seria altamente interessante os arbitros tivesse que dar entrevista coletiva após os jogos, teria seu 10 minutos de fama e com certeza seria um bom incentivador para diminuir os erros, já imaginou o bandeira explicando pq aquele atacante que se encontrava a 2 metros de segundo jogador adversario.

  • Joao Daniel

    André, como sugestao de post, gostaria de algumas palavras suas a respeito do que aconteceu no Couto Pereira. E mais, oq dizer sobre quem diz que “faltou bom senso” a menina? E de pensar q o próprio presidente do Coxa deu uma declaração dizendo que os errados da história são a menina, o pai e o Lucas. Abcs!

    AK: Um absurdo. Covardes. Um abraço.

  • Rita

    Perfeito André!

    Gustavo, concordo plenamente com suas colocações.
    Eu tenho uma preguiça danada com esses comentaristas da toda-poderosa e cia.
    Como é nobre ver a indignação de um Mauro César num Bate-bola, das denúncias de um JK no blog, enfim… são poucos… pouquíssimos.
    Em tempo, adorei a faixa da torcida alvi-rubra.

  • Paulo Pinheiro

    Eu gosto de contextualizar as coisas.

    Bem… a faixa era, por assim dizer, oportunista. Veio depois de um erro que prejudicou o Náutico no Rio de Janeiro, e depois do presidente do clube visitar o Aristeu pra “pedir mais atenção” para os árbitros. Ela tinha, realmente, um tamanho ostensivo e vejo que ela CUMPRIU SEU PAPEL aos 16 minutos de jogo, como o André bem lembrou. Era aquilo que a faixa queria.
    Jogar no Nordeste está cada vez mais difícil. Os árbitros quando apitam lá estão cada vez mais caseiros. Principalmente (mas não somente) na série B. E não vi o presidente do Náutico pedir mais atenção para os árbitros depois daquela “caseirada” do Vuaden.

    Porém (e sempre tem um porém) nem mesmo isso justifica a atitude do sr. árbitro. Aliás, era o momento de mostrar personalidade. IGNORAR a pressão da torcida e dizer: “vim aqui pra trabalhar, não pra escutar chororô”.

    Se o que eles querem é aparecer, essa seria uma maneira fantástica.

    André, você passou de raspão pelo tema, e eu adoraria ver um post seu a respeito: a Procuradoria do STJD. Esse Paulo Schmitt é ainda mais “estrela” do que qualquer árbitro. Espero que esse post aconteça!

  • Marcus

    Enquanto os Europeus falam de Falcão, Oscar, Messi, Iniesta, CR7 … nós falamos de vuadem, meira ricci e etc.
    Cada vez mais o chororô em cima de erros pontuais aumenta, tomando espaço na midia de nossa arte, o futebol. Se esta é uma tendência futebolística brasileira, sugiro que usemos da tecnologia para mitigar os erros.

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