COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

HACKERS

A delinquência eletrônica do Comitê Olímpico Brasileiro nos leva de volta ao dia 12 de agosto. Foi quando o COB reuniu jornalistas em Londres, horas antes da cerimônia de encerramento dos Jogos, para uma entrevista coletiva de avaliação do desempenho dos atletas brasileiros. Não fosse uma altercação entre Carlos Arthur Nuzman e uma funcionária do comitê, o ponto alto do evento teria sido a pérola proferida pelo superintendente executivo Marcus Vinícius Freire, que declarou, sem o mínimo sinal de constrangimento, que “não tem ninguém no Brasil que entenda mais de esporte do que o Comitê Olímpico e as confederações filiadas”.

O diálogo entre o presidente e a funcionária não deveria ter sido público. É o tipo de episódio que estimula a curiosidade e levanta suspeitas. Mas se deu de frente para as câmeras e com o microfone ligado, algo impossível de se ignorar. Nuzman se preparava para o início da coletiva, demonstrando dificuldades com a tampa de uma garrafa de água e com o controle dos próprios nervos. A moça ajeitava alguns papeis à frente do dirigente, quando foi repreendida diante dos presentes. “Não dá mais para fazer reunião e fazer merda. Tô de saco cheio. Tô cansado… tô cansado de fazer merda. Me encheu.”, esbravejou Nuzman.

O motivo da irritação do presidente do COB não foi esclarecido até hoje. De modo que a interpretação é livre. À luz da divulgação do flagrante delito de espionagem – e estupidez – envolvendo funcionários do comitê durante a Olimpíada, é razoável questionar se os fatos estão relacionados. A cronologia embasa essa hipótese. A cópia ilegal de arquivos confidenciais do comitê organizador dos Jogos de Londres foi descoberta antes do final do evento. A coletiva do COB aconteceu no último dia. Faz sentido imaginar que Nuzman foi informado, momentos antes de sentar-se para falar, de que a Scotland Yard queria conversar com ele.

Antes de qualquer outra coisa, o COB é culpado de falta de caráter. Convidado a participar de um programa de transferência de conhecimento, decidiu se aproveitar da confiança dos ingleses e se apropriar de alguns documentos. É como ir a uma festa na casa de alguém e roubar a toalha de mãos do lavabo. Coisa de cleptomaníacos. É possível que o material afanado fosse liberado após os jogos, bastaria aguardar e perguntar. Mas os incorrigíveis não resistem a certas tentações.

Dez pessoas foram demitidas até agora. O COB quer convencer a opinião pública de que o assalto não passou de um caso isolado. Quer que você acredite que a operação foi idealizada e executada apenas pelos demitidos. Que ninguém mais sabia. E que nenhum carregador de malas de Nuzman autorizou. Conversa mole amparada pelo silêncio preguiçoso do Ministério do Esporte, inerte diante de um escândalo oficial.

Naquele 12 de agosto em Londres, depois da bronca na funcionária, a assessoria de imprensa do Comitê Olímpico informou que Nuzman teria de se ausentar da coletiva. Tinha sido chamado, assim, sem aviso, para uma reunião do COI. Fique à vontade para acreditar.



MaisRecentes

Vencedores



Continue Lendo

Etiquetas



Continue Lendo

Chefia



Continue Lendo