COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FALTA DE ZELO

O filme já tinha acabado, os créditos dominavam a tela escura. A música tocava enquanto as letrinhas subiam, quando os espectadores foram surpreendidos por uma cena final. Um personagem novo na trama apareceu: o médico.

“Imaginei que a situação estivesse um pouquinho mais difícil, mas está razoável, dá para reabilitar legal, não há necessidade de intervenção”, disse o Dr. Rene Abdalla, do São Paulo, após examinar os joelhos de Paulo Henrique Ganso. A escolha do adjetivo “razoável” e a simples menção a uma possibilidade de novos procedimentos nas articulações do meia já são suficientemente intrigantes. O fato de os exames terem sido feitos depois da assinatura do contrato é, sem exagero, uma temeridade.

Estamos falando da maior transação da história do futebol brasileiro. O montante (R$ 23.940.000,00) que mudou de mãos nos primeiros minutos da madrugada de sexta-feira, quando Paulo Henrique grafou seu autógrafo num pedaço de papel, é inédito. As dificuldades e a importância da negociação são absolutamente incompatíveis com o risco de um exame pós-contrato.

É evidente que o São Paulo se informou sobre Ganso. Em mais de um mês de conversas, houve todas as condições de saber como ele se encontra. O clube também consultou o departamento médico da CBF para ter um quadro mais detalhado. Mas não fez nenhum tipo de avaliação médica antes da manhã de ontem, quando Ganso já estava oficialmente contratado. “Eticamente fica chato (fazer) esse tipo de exame antes da efetivação da contratação”, disse Adalberto Batista, diretor de futebol são-paulino, revelando que a praxe no futebol brasileiro é olhar depois de comprar.

O melindre não se justifica. Não deveria haver qualquer problema em examinar clinicamente um atleta sob contrato com outro clube, durante um processo de transferência. Em negociações transparentes e conduzidas com níveis altos de profissionalismo, a parte médica deve preceder a formalização do compromisso. Chega-se a um acordo em princípio, que só será finalizado no momento em que o clube comprador estiver seguro e satisfeito. Qualquer problema, as coisas voltam a ser como eram no dia anterior.

O risco do São Paulo não era descobrir que os ligamentos dos joelhos de Ganso foram reconstruídos com fios de telefone. Mas não há como aceitar a possibilidade de uma surpresa, um problema recente, algo que só se verifica nos exames. Como, por exemplo, a real extensão da lesão muscular na coxa esquerda do meia, que pode demorar mais tempo do que se previa para permitir que ele volte a jogar. Se for o caso, tê-lo ainda em 2012 vale os milhões extras que o São Paulo investiu? Ou seria mais inteligente aguardar até o início do ano que vem, quando a multa que caberia ao Santos cairia para R$16 milhões?

Em certos aspectos, a transferência de um jogador de futebol não é muito diferente de qualquer outra transação comercial. Ao comprar um carro usado, o que você faria se o dono dissesse que seu mecânico só pode vê-lo depois que ele receber o doc?



  • André, me ocorreram duas questões agora…

    1ª: será que o Santos sabia das reais condições do atleta, e resolveu “esconder o jogo” pensando em obter o máximo de dinheiro possível, pois sabia que, para as atuais condições do Ganso, não pagariam o valor da multa agora e o clube “correria o risco” de ter um jogador insatisfeito em seu elenco (e duramente criticado pela torcida) até o início do próximo ano, quando ele valeria menos?

    2ª: será que os departamentos médicos do Santos e da Seleção Brasileira são tão ruins que não conseguiram identificar isso antes?

    Abraços!

    AK: 1) Não houve contato entre os departamentos médicos de São Paulo e Santos. Mas obviamente houve entre o São Paulo e Ganso.

    2) Ganso fez exames na Seleção antes de Londres. A lesão muscular aconteceu depois das Olimpíadas.

    Um abraço.

  • Clayton

    Meias clássicos que trocaram o Santos pelo São Paulo, em toda a história: Jair da Rosa Pinto, Ailton Lira, Pita e agora o PH Ganso. Ótima contratação, digna de entrar para a história.

  • Juliano

    AK, grato pelas linhas e pelo novo (mas constante em se tratando de PHG) elemento na trama.

    Entendo a situação um pouco diferente do Alejjandro. Se a diretoria do SPFC imaginava “uma situação um pouquinho mais difícil”, quer dizer que o DM do Santos não é tão ruim assim, e que o atleta também estava preocupado e fazendo o necessário para se recuperar. O “razoável” na mesma declaração é que contrapõe isso.

    Independente de torcida, realmente não dá pra entender porque o SPFC não esperou QUATRO meses para fazer uma economia de quase 8 milhões de reais. Já se foram 2 terços do campeonato, some a isso o tempo de recuperação clínica de PHG, a recuperação do tal “ritmo de jogo” e o tempo para o entrosamento com o time e já se foi o campeonato. Posso estar completamente enganado, mas não via essa sangria desatada no elenco do SPFC (a esta altura do campeonato) para esse investimento gigante nessas condições citadas.

    No fim das contas a mensagem que fica é a última frase do texto. Excelente!

    Também imaginei que a atual lesão de PHG tivesse a ver com a lesão durante as Olimpíadas. Mas fato é que esteve em campo contra o Bahia após as Olimpíadas. Talvez as moedas tenham o machucado.

    AK, é possível que o DM do Santos faça seguidos erros de avaliação e coloque atletas antes do tempo em campo (como o notório caso das semi da Liberta ante o Corinthians), e isso se reflete nas seguidas lesões, não só de PHG, como de Léo, Adriano, Henrique, Fucile…?

    Fechando, alguém acredita mesmo que PHG vai ficar – caso volte a jogar em alto nível e volte a ser cobiçado por grandes clubes europeus – no mínimo 3, e talvez 5, anos no SPFC? Saindo apenas com 27 ou 28 anos? Não que eu deseje, mas não me parece que isso vai acabar bem… até porque a nova multa é altíssima! Vai terminar do mesmo jeito…

    Abraço!

  • Anna

    Muito bom, André. Como sempre! É isso aí!

  • Rodrigo Ortega

    Imagine a situação usando a sua metáfora: vou comprar um carro semi-novo que estou com muita vontade de ter, já me informei com seu mecânico e ele disse que não tem nada de grave com o carro apenas fazer uma revisão e ele estará pronto, eu sei que no ano que vem ele irá se desvalorizar e ficar mais barato porém eu não tenho a certeza que ele estará disponível até lá, podem aparecer outros interessados sei lá, em um negócio como esse acho que não dá para esperar, como apareceu o Grêmio em apenas alguns dia de negociação imaginem qtos clubes entrariam na concorrência até janeiro!

    AK: “já me informei com seu mecânico e ele disse que não tem nada de grave”. Isso é o equivalente a falar com o DM do Santos, o que não aconteceu. E você deve ter visto que, neste domingo, Ganso não confirmou o prazo de 15 dias para voltar a jogar. Prazo que foi anunciado por um dirigente do São Paulo, sem conhecer os resultados dos exames. Essa é a diferença entre fazer o exame antes e depois da contratação. Um abraço.

  • RENATO

    Estranho…
    Tao estranho quanto pagar 100 milhoes de reais no Lucas e deixa-lo correndo pelos nossos gramados “maravilhosos” sob risco de lesao…pra nao falar da outra competicao, que Lucas terá o prazer de disputar, a Sulamericana! Quanto glamour.

    Com o Ganso, a DIS já deve ter gasto uns 20 milhoes de reais, ao longo de todas das seguidas aquisicoes de fatias dos direitos economicos do jogador, sendo esta ultima de 8 milhoes, conforme a imprensa.
    Agora, o jogador provavelmente fica no tricolor até a copa, torcendo por uma possivel valorizacao, para quem sabe depois da copa, seja negociado por uns 35 milhoes de reais, só assim SPFC e DIS terao seus investimentos de volta…

    Ou será que Lucas e Ganso se encontrarao, num futuro proximo, no PSG e as duas negociacoes teriam sido “casadas”?

    De qualquer forma, parece até que todo esse dinheiro envolvido nas duas negociacoes, é dinheiro ganho “fácil”, e nao através de muito trabalho.
    Lavagem de dinheiro?
    Nao…nao se tratando de duas agremiacoes acima de qualquer suspeita, como SPFC e PSG.
    Isso seria coisa de clube lá da zona leste.
    Aí sim, já teria sido objeto de profunda e imediata acusacao/difamacao/investigacao/condenacao.
    Abraco.

  • Parizi

    AK,

    Será que no contrato assinado não existe uma clausula que exigia a aprovação nos exames que ele realizou na sexta-feira? Nos contratos que realizo no meu trabalho temos clausulas assim para riscos ambientais, que detectados em estudos realizados em até 90 dias podem cancelar o negócio.
    Ninguém cometeria uma loucura dessas.

    Abraço

    AK: Sim, é possível. Mas seria uma questão aberta a diferentes interpretações e até questionamentos na Justiça. O que significa ser “aprovado” nos exames? Se é estar apto a jogar no dia seguinte, Ganso não foi aprovado. O fato é que o São Paulo não tinha amplo conhecimento da situação de Ganso até os exames serem feitos, na manhã de sexta-feira. Um dirigente declarou que ele voltaria em 15 dias, lembra? Um abraço.

  • Robert

    Andre
    o flu ainda vai subir muito de produção
    meu raciocinio é o seguinte:
    as melhores apresentações do time no ano foram contra os rivais locais
    2 chocolates humilhantes e inapelaveis
    flu 3 x 1 vasco com direito até a balao do deco no juninho
    http://www.youtube.com/watch?v=8yR8nDQKUJM
    o q dizer de flu 4 x 1 botafogo na final do campeonato??
    com direito a gol de bicicleta do fred
    Então peguemos a tabela e vejamos os proximos 2 jogos do flu:
    dois jogos contra rivais locais
    acho q vao ser mais dois chocolates hein
    olha lá o retrospecto contra demais equipes do rj em 2012 é muito bom
    O fla X flu do 1o turno o flu venceu tb…
    deco e rafael sobis com uma semana p/ se condicionarem fisicamente
    fred ja disse q vai pegar leve na caipirinha durante a semana
    como disse:
    o flu ainda vai subir muito de produção!!
    ST

  • Edouard

    Eu não sabia desse “detalhe” da negociação. O risco é ainda mais acentuado se considerarmos que o Ganso não é exatamente um modelo de condicionamento físico. Jovem, já experimentou diversas lesões.
    Não me entenda mal, o Ganso é ótimo jogador e tem tudo para dar certo. Mas não se pode empenhar essa montanha de dinheiro no escuro. É disso que se trata, certo?
    Mas, afinal, qual a estimativa para retorno?
    Um abraço.

    AK: Final de outubro, começo de novembro. Um abraço.

  • Lucas Costa

    André, a diferença é que o dinheiro não é de quem ta fechando o negócio, e que ninguém vai responder pelo acontecimento….. então tanto faz!

  • Edouard

    Obrigado.
    Isso dará a ele chance de participar de 5 a 7 jogos pelo Brasileirão deste ano. Parece pouco, diante do valor investido, se tivermos em mente a redução da multa já a partir do início do ano que vem.
    O ponto é saber se o jogador toparia esperar.
    Um abraço.

  • Teobaldo

    Tenho algumas dúvidas:

    1 – Supondo que Ganso cumprisse seu contrato integralmente até o final, sem nenhuma alteração de valores/prazos/multas, etc, ele seria “dono de 100% seus direitos” e poderia ir para onde quizesse amealhando todos os valores de uma negociação?

    2 – Nesse caso, o que seria dos direitos da DIS e do Santos em relação aos investimentos feitos no jogador?

    3 – Se um jogador tem um contrato e recusa todas as ofertas para se tranferir, ao final deste tal contrato ele passa “a ser o dono” do próprio passe ou há algum mecanismo que permita ao clube ganhar algum dinheiro numa possível negociação do atleta com outro clube?

    AK: 1 – Depende. Os direitos econômicos eram “fatiados”. Para que haja apenas um “dono”, é preciso haver uma negociação entre eles. Isso independe de tempo de contrato.

    2 – Esses direitos seriam respeitados na negociação.

    3 – “Passe” é algo que não existe. O que existe são direitos federativos (que só podem pertencer a uma instituição esportiva e não podem ser fracionados) e direitos econômicos (valores calculados de acordo com a multa contratual, que podem ser ligados a pessoas físicas ou empresas). Quando um contrato termina, a multa obviamente não pode ser cobrada, dessa forma o clube não lucra. A não ser que ele seja proprietário dos direitos econômicos, ou de uma parte deles.

    Um abraço.

  • Nilton

    tenho algumas duvidas com relação as respostas dadas ao Teovaldo.

    Qual a definição de Direitos Econômicos?
    Qual o periodo de vigencia do mesmo, igual ao Direitos Federativos ou pode ter um prazo maior ou não tem prazo?

    AK: É um percentual do “valor” dos direitos federativos. Não tem vigência. Um abraço.

  • Leonardo Pires

    André, mesmo sabendo que não é exatamente essa a sua visão sobre o assunto, o texto pareceu mercantilizar o trabalhador. E, já que o post meio que se encaminhou para a seara jurídica, temo que em breve estejamos a tratar dos vícios redibitórios de atletas!

    AK: O trabalhador foi “mercantilizado” há um bom tempo. Um abraço.

  • Leonardo Pires

    Então, André, prepare-se, porque em breve estaremos observando a aplicação do Código de Defesa do Consumidor às negociações dos atletas entre os clubes…

    AK: Você sabe que não é o caso. Um abraço.

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