COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

ENTREGA TOTAL

Lucas impressionou a comissão técnica da Seleção Brasileira nos quatro amistosos realizados em maio e junho. Pelos motivos errados. Tinha pouco em comum com o jogador que foi convocado para a Copa América de 2011, que dava trabalho nos treinos usando a perigosa combinação de velocidade e atrevimento. Durante o torneio na Argentina, o atacante do São Paulo mostrou a atitude e o desempenho de quem quer seu espaço, de quem chegou para ficar. No recente giro da Seleção pela Europa e Estados Unidos, implorava por uma bússola.

À época, não por coincidência, as atuações de Lucas no São Paulo foram assunto de intenso debate, especialmente por causa das divergências entre o técnico Émerson Leão e o agente do jogador, Wagner Ribeiro. Leão via um jogador confuso, incapaz de escolher a hora certa para ser individualista. Ribeiro acusava o treinador de não saber dirigir. De cabeça baixa, tanto dentro do campo quanto fora, Lucas exibia a imagem da desorientação.

Quando se apresentou à Seleção para os amistosos, tinha perdido a noção de quem era e de quem pretendia ser. Parecia desacostumado a situações corriqueiras, como ser perguntado de que lado do ataque preferia jogar. Respondia dizendo que, no clube, não usufruia desse tipo de consideração. Em campo, não identificava objetivos. Era como se não estivesse ali. Um vestibulando que desconhecia a própria vocação.

As ofertas milionárias pelo futebol de Lucas poderiam tê-lo desestabilizado de uma vez. As descabidas comparações com Neymar já tinham ampliado as dificuldades naturais de um jovem talentoso, mas com o currículo a ser preenchido. Só faltava o tilintar dos euros para atrapalhar-lhe a cabeça. E quando o São Paulo decidiu negociar Lucas com o Paris St. Germain, mas entregá-lo somente ao final do ano, a solução pareceu ainda mais complicada. Como se dedicar integralmente ao presente, sabendo que um contrato valioso e uma nova vida o aguardam na França, em 2013?

Lucas tem respondido as perguntas desde que voltou a jogar pelo São Paulo, após os Jogos Olímpicos. Não se poupa no que diz respeito ao esforço, único aspecto do jogo que está inteiramente sob o controle do atleta. Não se esconde atrás do status, pois sabe que faz diferença. Dá a impressão de atuar para mostrar que merece a proposta que recebeu. E de que reencontrou seu caminho.

No São Paulo atual, quando estão juntos em campo, Lucas e Luis Fabiano representam a possibilidade de vitória. Seja qual for o adversário ou a situação, deles se pode esperar a faísca, o lance que muda o rumo de um jogo. Por suas características e áreas de atuação, Lucas é o agente transformador. Sem ele, o time é conservador, previsível.

Num ambiente que cobra maturidade e excelência de um jovem de 20 anos, Lucas tem dado um exemplo de profissionalismo. Redescobriu como disponibilizar suas qualidades. O terceiro gol do São Paulo contra a Portuguesa é um desenho significativo. O avanço pela direita, a noção da posição de Luis Fabiano, a gentileza do passe. Senso individual e coletivo, na mesma jogada.



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