COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

TROCA DE VALORES

Vimos recentemente um clube cometer o ato futebolístico mais próximo do suicídio: vender seu melhor jogador para um rival. Aconteceu na Inglaterra, com a transferência de Robin Van Persie do Arsenal para o Manchester United.

A história teve alguns requintes de crueldade. RVP não era apenas o melhor do time, mas o capitão e uma figura que se transformou em ídolo ao longo dos últimos oito anos. E apesar de a torcida do Arsenal não cometer envenenamento em massa (isso aconteceria no caso de um negócio com o Tottenham ou Chelsea, rivais londrinos) por vê-lo com a camisa do United, o desgosto é grande por fortalecer o maior vencedor de títulos do país.

Algo semelhante pode acontecer aqui no Brasil, com a eventual ida de Paulo Henrique Ganso para o São Paulo. Ok, Ganso não é o capitão e nem o melhor jogador do Santos. Também não está em seu último ano de contrato. O time da Vila Belmiro e o do Morumbi não cultivam uma rivalidade exagerada, ainda que compitam pelos mesmos objetivos a cada temporada. Fatos. O que aproxima os dois casos é o ânimo dos jogadores envolvidos, descontentes.

Um clube tem três opções ao se deparar com um atleta infeliz com seu contrato. Ignorá-lo, atendê-lo ou ficar no meio do caminho entre uma coisa e outra. O Arsenal tentou a terceira opção, oferecendo a Van Persie um novo compromisso que não era exatamente como o holandês desejava. RVP (que queria que o clube, conhecido por não ser um gastador extravagante, montasse um supertime) recusou e deixou claro que não se via mais em Londres.

O Santos também apresentou a Ganso uma versão melhorada de seu contrato. Não houve acerto, talvez porque o pacote de marketing e o sistema de vencimentos de Neymar sejam o modelo que os representantes do meia queriam ver, mas que nunca esteve sobre a mesa. O fato de o clube ter desistido de tentar acomodar Ganso significa uma de duas coisas: ou se conforma e fica, ou sai. Ganso prefere sair.

A partir desse ponto, tanto para o Arsenal quanto para o Santos, o problema passou a ser essencialmente financeiro. Encontrar a melhor proposta para servir como recompensa pela perda do jogador. Para os ingleses, seria obviamente mais confortável vender Van Persie para um clube estrangeiro. O torcedor não gostaria da notícia, mas isentaria quem deu o ok. Só que nenhuma oferta de fora da Inglaterra sequer se aproximou do que o Manchester United propôs. Nesse caso, deixar dinheiro na mesa para suavizar a repercussão é mau negócio.

O Santos também preferiria não ver Ganso jogando no Brasil. Na ausência dessa possibilidade, faz pouca diferença se o clube comprador é de São Paulo (desde que não seja o Corinthians) ou de outro estado. O Internacional, por exemplo, planeja suas temporadas com as mesmas metas que o Santos e o São Paulo.

A maior diferença entre as histórias de Van Persie e Ganso é que o holandês foi vendido antes da temporada começar. Enquanto negocia com o São Paulo, o Santos tem de administrar um jogador dividido entre a realização de sua vontade e sua obrigação profissional. O último recurso é recusar-se a jogar. Tomara que não chegue a esse ponto.



MaisRecentes

Porte



Continue Lendo

Segunda vez



Continue Lendo

Paralelos



Continue Lendo