COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

MANO E “A IMPRENSA”

O efeito do analgésico ainda não se fazia sentir, a dor de cabeça incomodava. A Seleção Brasileira tinha acabado de vencer uma Suécia genérica em Estocolmo, mas o assunto era o México. Mano Menezes aproveitou sua entrevista coletiva pós-jogo para oficializar um sentimento. “Faço um apelo a vocês (jornalistas) que formem boas opiniões. Às vezes, o que vocês publicam parece até um desrespeito. Uma coisa é criticar o desempenho. A outra é torturar pessoas por conta de uma derrota. Podemos retomar o caminho mais saudável”, disse o técnico.

Mano não disse exatamente a que se referiu como “tortura” por causa da final olímpica perdida dias antes. E se o caminho mais saudável – aquele em que críticas levam em conta apenas o aspecto profissional – deveria ser sempre escolhido, é surpreendente que o treinador da Seleção tenha objeções a respeito da forma como seu time é tratado.

A comparação com o período de Dunga é inevitável. Mais do que isso, ela é a origem da antipatia de quem vê Mano como um “protegido da imprensa”. Cobrança injusta, diga-se, pois é evidente que o técnico atual nada tem a ver com os problemas do anterior. Dunga teve atritos diversos com “a mídia” por razões que vão desde a incompreensão de uma pergunta (e a demonização do perguntador) numa coletiva até o confronto direto com desafetos. Enxergava segundas e terceiras intenções em questionamentos simples e acreditava que “a imprensa” trabalhava para prejudicá-lo porque ele tinha desativado o sistema que privilegiava certos grupos na cobertura da Seleção. Dunga sentia-se incompreendido e não se preocupava em compreender. Claro que, como em toda relação fraturada, a responsabilidade precisa ser dividida. Mas a carga de tensão que Dunga levava para o contato com jornalistas era desnecessária.

O desgaste não impediu que a análise daquela Seleção fosse feita com profissionalismo por quem leva o ofício a sério. Mas o clima pesado, com exageros dos dois lados do balcão, alterou a percepção de boa parte do público. Dunga não resistiu à eliminação na Copa da África do Sul, o que reforçou a convicção de que foi vítima. Esquece-se de que a substituição da comissão técnica após um Mundial, e especialmente após um fracasso, é algo corriqueiro.

Com Mano, a conversa se dá em outro tom. O fluxo de comentários é menos ruidoso, o técnico não costuma se irritar ao microfone, tem mais habilidade para lidar com perguntas. O que não significa que seu trabalho deixe de ser criticado, ou que não se leve em conta que seus resultados – na comparação dos dois primeiros anos – são piores do que os de Dunga. Mas a parte da opinião pública que defende a demissão de Mano quer que “a imprensa” trabalhe por ela. E a julgar pela declaração após os 3 x 0 sobre a Suécia, Mano parece acreditar que o trabalho está em curso.

A imprensa não se reúne para assumir uma posição institucional sobre determinado assunto. Cada jornalista é responsável pelo que diz e escreve. A maior ameaça ao trabalho de Mano é quem decide sobre sua continuidade.



MaisRecentes

Vitória com bônus



Continue Lendo

Anormal



Continue Lendo

Saída



Continue Lendo