SANTO DILEMA, ROBIN



Não vou discutir com quem acha que o Arsenal jamais, sob hipótese alguma, deveria ter negociado Robin Van Persie com o Manchester United.

Vender seu melhor jogador, seu capitão, para um rival não é coisa que se faça.

Parte de mim – a parte que apenas gosta de futebol – pensa exatamente assim. Reforçar a concorrência com sua alma deveria ser proibido. Não importam o preço e as exigências do jogador em questão.

Van Persie para o United é pior do que tudo. Henry para o Barcelona, Fàbregas para o Barcelona… até Nasri para o City. Nada se compara.

É isso que sente o torcedor, alguém que não tem nenhum motivo para compreender ou dar importância à fria realidade de quem tem de administrar um clube.

É aí que outra parte de mim entra na conversa. A que tenta entender os motivos que levaram Arsene Wenger e os executivos do Arsenal a autorizar essa barbaridade impensável.

A decisão de vender RVP para o United foi exclusivamente econômica. É resultado de um modelo de gestão do qual as pessoas que comandam o Arsenal não cogitam se distanciar.

Mas antes de qualquer coisa, é produto da vontade de Van Persie de ir embora.

Antes de recusar uma extensão de contrato, RVP apresentou ao clube suas condições para permanecer. Elas eram, em síntese, tudo o que o clube decidiu há anos que não faria. Gastar o que não tem, contratar estrelas, montar um supertime.

A resposta dos dirigentes foi a mesma que outros jogadores que desejavam “disputar títulos” ouviram. O Arsenal pretende se manter equilibrado financeiramente.

Essa é a beleza por trás do horror.

O Arsenal não é um clube financiado por dinheiro infinito. Seus donos escolheram o caminho de investimento consciente, formação de jogadores, descoberta de jovens valores fora da Inglaterra. A operação foi entregue a Wenger, que pode ser criticado por tudo, mas não por incoerência.

Seu trabalho é ser competitivo com orçamento menor. É o que ele tem feito, e bem.

O problema é que essa não é a realidade na qual certos jogadores preferem viver. Especialmente aqueles assediados por clubes “que disputam títulos” ou que estão determinados a montar times para tanto. São os jogadores que pedem para ser negociados e obrigam o Arsenal a tomar decisões puramente contábeis.

No caso de Van Persie, deixando de lado o sentimentalismo, a decisão foi facilitada. Um jogador de 29 anos, entrando no último ano de seu contrato, resolvido a deixar o clube. Uma proposta de 24 milhões de libras feita por um rival e algumas outras, de times ingleses e estrangeiros, porém bem menores.

Wenger e os executivos do clube se acostumaram a lidar com problemas assim. Analisam ofertas, procuram reposições, não guardam ressentimentos. Essa é a parte difícil para quem torce e, por mais que se repita, não gera aprendizado.

Gera apenas revolta nas redes sociais e algumas camisas queimadas.

Van Persie é o traidor da vez, o mercenário que virou as costas para a idolatria e partiu atrás de dinheiro e troféus. Se fosse para outro país, talvez encontrasse perdão. No Manchester United, será Judas para toda a eternidade.

O amor se transforma em ódio e respinga em quem assinou os papéis. Há quem defenda que RVP deveria ser negociado por qualquer valor com um clube de fora da Inglaterra, para que a torcida não se sentisse duplamente punida. Mas seria um duplo erro: o Arsenal ficaria sem o jogador e sem o valor que considera justo para perdê-lo.

Não há como fugir. Ou se convence o atleta a ficar ou se busca a melhor oferta. Se ela vier de um rival local, o jeito é agir como fazemos quando o carrinho da montanha russa chega ao final da subida.

Como já escrevi aqui algumas vezes, acredito que grandes clubes de futebol existem para ganhar títulos, mantendo-se no limite entre o azul e o vermelho. Mas sou capaz de respeitar um clube que acredita que chegará lá mantendo um modelo administrativo responsável.

Não tenho certeza, reconheço, que pensaria assim se o Arsenal fosse o meu time.



  • Luciano Dias

    André….seu comentário mostra toda a realidade hoje no FUTEBOL…movido a DINHEIRO. Não espantem quando MESSI for para o REAL MADRI daqui a algum tempo. Penso que seu ciclo no time catalão esteja no fim. ABRAÇO

  • Marcella

    Achei perfeita a análise. Dadas as devidas diferenças, foi a mesma coisa que aconteceu ao Fernando Torres no Liverpool. O espanhol se tornou ídolo da torcida, símbolo da equipe e, ao lado do Gerrard, a última boia de esperança dos reds que esperavam ver a equipe voltando a jogar em alto nível. A diferença de circunstância é que o Liverpool tinha acabado de QUASE ir à falência, foi vendido, os novos donos tinham acabado de chegar e ainda havia um clima de incertezas quanto ao futuro e as novas ideologias que seriam adotadas. Não é, claro, o caso do Arsenal. O Torres também não vivia o mesmo momento mágico da carreira que vive o Van Persie, mas era o cara de quem se podia esperar alguma coisa. Fez força para sair, ganhou uma cidade inteira de ódio, ficou um ano encostado, falou um monte de besteiras, como ‘Finalmente agora vou jogar por um grande clube’, e aí sim viu seus esforços valerem a pena quase que por acidente… Eu, que sou torcedora do Liverpool, fiquei extremamente revoltada com a postura do Torres à época, mas entendi o lado do clube. Ele era o grande craque (junto com o Gerrard) do time, era ídolo, era adorado, e estava indo para um clube que não é um United, mas é talvez o clube que representa absolutamente o oposto de tudo que o Liverpool é e tenta continuar sendo, que bateu de frente com a gente em Ligas dos Campeões recentes, etc. Falou um monte de barbaridades, com gosto cuspiu no prato em que comeu. Mas era um jogador de 27 anos que não parecia ser nenhuma Brastemp há pelo menos um ano e meio, não demonstrava vontade ou alegria de jogar pelo clube, queria sair e recebeu uma proposta de 50 MILHÕES DE LIBRAS. Quando que o Torres iria valer isso de novo na vida dele? Não tinha o que pensar ali, era aceitar e seguir em frente. O RVP passou a vida inteira dele, praticamente, no Arsenal, oito anos de clube, virou o último símbolo de uma geração depois que o Fàbregas meteu o pé, e aí foi-se para o grande demônio do futebol inglês… Por mais que faça sentido, torcedor nenhum vai olhar pra isso e pensar ‘É, que seja’. Só resta agora aos amigos gunners torcerem pra que ele viva no United o mesmo inferno astral que o Torres viveu no Chelsea. Não compensa, mas que dá uma sensação de vingancinha, ah, dá!

  • Rafael

    André, boa noite.

    Creio que esse método que o Arsenal adota é o ideal, até por causa do financial fair play (caso realmente entre em ação), ajudará o clube a manter-se estável e quem sabe lutará por títulos, já que os clubes que não se enquadrarem serão punidos pela UEFA.

    Claro que os torcedores não entendem, e acredito que reaalmente o Arsenal deveria vender van Persie a um clube fora da Inglaterra (Juventus, talvez?), mas se foi para um rival local, que fosse pelo dinheiro que achavam melhor.

  • Emerson

    Entendo as razões dos dirigentes do Arsenal,igualmente não defendo clubes que costumam dar o passo maior que sua pernas, mas antes do lucro o futebol vive de paixão e clubes tradicionais devem sempre brigar por títulos, por este motivo creio que estaria desesperado se meu time abrisse mão de alguém como RVP e preferisse contratar jogadores de segundo escalão como Cazorla, ou de nível ainda mais baixo, como Podolski…

    AK: O Arsenal não “abriu mão” de Van Persie. Um abraço.

  • gunner

    mando demais marcella, que da uma vontade de vingança, ah da, e torceremos pra que nao de certo

  • Anna

    Adorei a sua análise a começar pelo título. Até gostava do Van Persie, mas ele indo pro Manchester United que eu odeio não tem como torcer para que faça muitos gols. Perfeito, André!

  • Mateus Henrique

    Sou torcedor do Arsenal acompanho o time a 2 temporadas já, e essa do Van Persie foi demais, primeiro chega o cara e fala duas coisas, que ama o time e que nao jogaria em outro clube inglês, ou seja nao tem desculpa nenhuma, e é como o Eboue falou “Sem respeito, sem lealdade para um burro holandês. Me desculpem, mas não tenho respeito por um capitão que abandona um navio”.

    AK: Eboue não disse isso. Twitter falso. Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Você não acha que a saída de Van Persie para o M.United se compara a saída de Figo do Real para o Barcelona e depois do Barcelona para o Real?No momento que decidiu mudar para a Catalunha Figo era o principal jogador merengue.

  • Douglas

    Andre,

    Importante salientar que ha uma rivalidade de todos os clubes ingleses com o United pq eh o maior vencedor,mas se ele tivesse se transferio para um clube de Londres como o Spurs ou o Chelsea seria mil vezes pior.
    O Arsenal mesmo com esta politica de nao comprar estrelas gastou para esta tempora 44 M de Libras e na temporada passada 53 M de Euros.
    Entao gastam bem,porem jogadores identificados acabam saindo e todos com o mesmo papo de buscar titulos.
    A politica do Arsenal tem que ser revista na questao que o titulo invicto de 2003/2004 faz muito tempo e jogadores novos nao se interessam mais pelos metodos de Wenger e pq nao jogam mais com grandes estrelas ao lado como Henry,Pires,Bergkamp,Adams,Campbell e toda aquela geracao gunner que jogava demais(Um dos grandes times da decada passada facilmente).
    O primeiro comentario diz algo de Messi no Real Madrid,diferentemente de muitos outros o Messi somente sairia do Barcelona para o New`s Old Boys e olhe lah,ele esta enraizado com os catalaes etc.

  • alex

    é verdade seu comentário final…quando arde no “nosso” é que sabemos exatamente como sentimos.

    abraço,

  • Teobaldo

    Tentei fazer uma analogia da situação relatada neste post com a ida de DH-12 do Orlando para o Lakers, mas concluí que são situações com pouca semelhança.

    No primeiro caso, o Arsenal colocou a sua filosofia administrativa acima das outras questões e “ganhou” com o negócio, tudo que o atleta poderia dar de retorno, tendo em vista a idade e o fim do contrato dele. Pelo valor do negócio, talvez, apenas o MU desembolsasse tanto, com o intuito de “dar um tranco” no rival.

    No negócio envolvendo o Howard, não consegui entender o que se passou na cabeça (ou o que passou pelo bolso) dos GM do Orlando. Na transação não “pegaram ninguém” de fato representativo; vão aguentar Aflalo com um contrato extenso e caro e, talvez, também não conseguirão montar um time a médio prazo (à conferir) com aquele rolo de opções nos drafts futuros. E ainda reforçou o Lakers, alías, como já fizeram no passado com Shack. Já pensou? Meta; Kobe; Howard; Gasol e Nash!!!! E a LIGA achou tudo lindo e maravilhoso…. que piada!! Bem, pelo menos as vendas de souvenirs e de transmissões devem explodir.

    Um abraço.

  • junior

    Lógico que o Van Persie quer ir embora. Ficar num time que só contrata muleque.. e mal ainda pra que?

    Sinceramente apoio a continuidade e aoportunidade de se deixar o treinador algum tempo no clube pra tentar firmar um trabalho, mas no caso do Wenger…realmente eu não entendo o que ele ainda faz no Arsenal.

    Há muito tempo seu trabalho não dá frutos e aquela historinha furada de que o Arsenal era o Brasil da Inglaterra.. que jogava o futebol mais vistoso é tudo balela!

    A gota da água foi deixar ele ir pro rival.

    Nessas horas que eu fico me perguntando se vale realmente a pena profissionalizar tanto o clube a ponto de vendê-lo como um objeto pra um dono que nunca viu uma bola na vida!! Pior… na primeira dívida que mexer no bolso dele quem vai pagar é o torcedor , como já está pagando, por outros motivos, no caso dos do Arsenal.

  • pablo

    Concordo contigo
    Há que se ver o lado do jogador também…
    Eles está com 29 anos, atingiu o auge na última temporada mas não vê seu time deslanchar e disputar títulos, quiçá conquistá-los…
    Natural que queira, como atleta, vencê-los, em detrimento apenas do dinheiro, como muitos jogadores daqui fazem ao aceitar escolhas, ainda no auge da carreira para jogar no Oriente Médio, Ucrânia, Rússia, Turquia e outras ligas menores

  • Leandro Azevedo

    A braçadeira de capitão do Arsenal deveria ter os dizeres “for sale” – os últimos capitães foram todos vendidos.

  • Marcel de Souza

    Situação complicada… Se eu fosse torcedor eu acho que ficaria chateado. Por outro lado a questão economica pesa muito. A situação fria é como você bem enfatizou, o jogador quer “disputar títulos”. Mas aí eu me pergunto, o RVP já não tem dinheiro suficiente? Não seria mais legal e conssagrador encerrar a carreira no Arsenal tentando conseguir os títulos no “seu” time? Não sei que atitude eu tomaria como jogador, muito complicado mesmo.

  • Bruno – SP

    De fato é uma situação atípica no futebol. No entanto, penso que a negociação foi ótima para ambos os lados. Do lado do Arsenal, vai receber uma fortuna e não vai ter um jogador desmotivado no elenco, até mesmo porque ele cobrava a contratação de jogadores para formar uma equipe competitiva, para lutar por títulos, em total conflito com a atual gestão administrativa do Arsenal. Do lado do RVP, ele vai para uma excelente equipe e que briga por títulos em todas as temporadas. Vai ser muito útil ao United. Jogador gosta é de ser campeão. O Arsenal parece que não liga muito pra isso.

  • Joao CWB

    Guardadas as devidas prorporções (gigantescas), é mais ou menos o que faz o meu Furacão. Só pensa em superávit e deixa de lado o que mais importa para um clube de FUTEBOL: títulos.

    Também não condeno essa atitude pois o Atlético tem hoje um patrimônio respeitável, porém há anos não ganhamos um mísero campeonato paranaense e muito menos fazemos boas campanhas ou montamos um time no mínimo competitivo.

    Abraço

  • Julio

    “Marcos Vinícius disse:
    16 de agosto de 2012 às 22:16

    Você não acha que a saída de Van Persie para o M.United se compara a saída de Figo do Real para o Barcelona e depois do Barcelona para o Real?No momento que decidiu mudar para a Catalunha Figo era o principal jogador merengue.”

    Marcos, o Figo nunca saiu do Real para o Barça e depois fez o caminho de volta. Ele foi do Sporting para o Barça, e de lá para Madrid, virando um Judas para os catalães.

  • Marcos Vinícius

    Júlio:

    “Figo não se arrepende por trocar Barcelona pelo Real Madrid

    Ex-atacante revelou o quão difícil foi trocar o Nou Camp pelo Santiago Bernabéu, mas acredita que a decisão valeu a pena

    Por Salvatore Landolina
    12/10/2011 22:17:00

    Figo, Carles Puyol, Barcelona, Real Madrid, 2000 (Getty Images)
    Quase onze anos após deixar o Barcelona para se transferir para o maior rival, o Real Madrid, o português Luis Figo deu uma entrevista ao site Montecarlonews.it, na qual falou, dentre outras coisas, sobre essa mudança em sua carreira.

    “Havia muita pressão sobre mim, mas ao olhar para trás eu acho que tomei a decisão certa. Ir para o Real Madrid me deu a oportunidade de ganhar muitos títulos.”

    Ainda assim, ele não descarta a influência positiva do clube catalão, em especial seu ex-treinador, Johan Cruyff.

    “Quando eu cheguei no Nou Camp, Cruyff fez com que me tornasse um grande jogador. Ele me fez um jogador de nível mundial”, encerrou o ex-jogador, hoje com 38 anos.”

    Um de nós está enganado.

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