COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ASTRO REI

O que assusta não é o Usain Bolt ganhar. Não é Bolt ganhar sempre. Não é ser o primeiro a ganhar os 100 e os 200 metros rasos em duas Olimpíadas seguidas. É como ele ganha. É a distância que existe entre Bolt e o resto da humanidade quando ele cruza a linha de chegada, geralmente pensando em outros assuntos. É difícil de acreditar, mas não devemos esperar que Bolt finalize suas provas com intensidade. Porque a competição termina no começo. No fim, começa a comemoração.

É interessante o debate sobre o estilo de corrida de Bolt e como sua atitude na pista impede que seu verdadeiro potencial seja conhecido. Os especialistas dizem que não sabemos do que ele realmente é capaz, porque não há mais disputa a partir do segundo terço das provas. Quando Yohan Blake – compatriota e provável sucessor – o venceu nas seletivas jamaicanas para os Jogos, o mundo ganhou esperanças. Não de que Bolt fosse superado em Londres, mas de que fosse estimulado. O que descobrimos foi que Blake é mais um João.

Estamos diante de um velocista tão espetacular que nem os fundamentos de seu esporte se aplicam a ele. Além de não concluir as provas com máximo esforço, Bolt também não as inicia da maneira “correta”. Seu tempo de reação ao tiro de largada é considerado ruim. Sua demora para se colocar em posição de aceleração também já mereceu críticas. Bolt comete “falhas técnicas” em dois momentos de uma corrida que dura menos de 10 segundos, e vence como se estivesse sozinho na pista.

Em tese, é preciso fazer a prova perfeita para ganhar os 100 metros rasos. Um atleta deve dominar muitos conceitos em pouco tempo. Largada, aceleração, manutenção da velocidade, chegada. E ainda precisa ter exata noção da própria posição e de onde estão aqueles que o ameaçam. Nada disso se aplica a Bolt. Nada resiste a Bolt.

Enquanto os adversários tentam executar os movimentos mais eficientes, evitando o desperdício de energia e possíveis erros que signifiquem centésimos de segundos perdidos, Bolt joga os braços para os lados, mexe a cabeça, corre como um menino tentando impressionar os pais. Suas pernas geram potência de maneira tão natural que raramente se nota esforço em sua expressão. Tampouco se nota concentração, exceto durante a aceleração.

Quando a linha se aproxima, a vitória já é um fato. É hora de literalmente desistir de competir e pensar na foto que estará nos jornais no dia seguinte. Eventualmente, como nas últimas passadas dos 200 metros em Londres, Bolt precisa se certificar de que a corrida acabou. Uma pontada nas costas o incomodou, por isso olhou para a esquerda para localizar Blake. O indicador encostado na boca, sinal de silêncio, foi para encerrar a conversa sobre o maior velocista que já se viu.

Antes de Usain Bolt, acompanhávamos as provas mais curtas para ver atletas em velocidade máxima, e conhecer o vencedor. Hoje assistimos por causa dele, para ver o que fará no metro final. Bolt transcende o gosto pelo atletismo, as preferências por bandeiras e atletas. É garantia de audiência no horário nobre. Não há ninguém como ele.



  • Bruno

    realmente André,ele nem estica o pescoço para melhorar o tempo…rsrs otimo texto como sempre

  • Marcos Vinícius

    Parece que Bolt está brincando na pista. Acho,até,que ele está mesmo. Se Bolt se comprometesse a correr de forma tão técnica como seus adversários estabeleceria recordes que durariam décadas. Ele é mais alto que seus adversários,tem as pernas mais compridas,tem passadas gigantescas,e sempre tenho a impressão que no fim da prova,por mais curta que ela seja,Bolt diminui o ritmo,preocupando-se mais com a imagem da capa do dia seguinte. Temos Bolt nas pistas e Phelps nas piscinas como fenômenos inigualáveis,incomparáveis e insuperáveis. Mas Bolt é uma figuraça.

  • Andre

    Andre, fico me perguntando que tempo ele faria nos 100 e nos 200 se mantivesse o ritmo até a linha de chegada. Pois nitidamente ele “diminui”.
    Porque não baixar o tempo ? Porque não tentar o impossível ?
    Eu li que o Bolt disse que o limite do corpo humano seria 9,3 nos 100m, porque não tentar ?
    Ele é o maior de todos os tempos mas fico me perguntando onde chegaria se não brincasse antes da chegada.

  • Anna

    Seus textos são ótimos, todas as crônicas do Sportscenter, inclusive. Esses do Bolt estão entre os melhores. Espero, de verdade, que todo esse feito extraordinário seja apenas dele, de seu potencial. Feliz Dia dos Pais, André!

  • Fábio

    Minha frustação é que daqui a pouco ele “pendura a sapatilha” e nós ficaremos sem saber quão baixa pode ser a marca dos 100 metros….. 9,4s?? 9,3s?? 9,2?!?!?

  • Rita

    Puxa! não custava nada (e não custa mesmo) ele fazer de conta que tem algum adversário e chegar no limite dele. Mas, faz parte do show… Deus tomara que ele esteja no Rio em 2016. rs.

  • BASILIO77

    No tempo que levei pa ler esse texto, Bolt teria ganho umas 7 provas…
    A situação foi muito bem descrita.
    Um só país ter as 3 primeiras colocações nos 100 m…isso já havia acontecido?
    Abraço.

  • Junior

    Bolt realmente falha em alguns aspectos técnicos, como o tempo de reação ao tiro e evolução para a posição de acelereção. Porém Bolt tem uma vantagem enorme sobre seus adversários, utiliza 41 passadas para completar os 100m contra 45 do segundo colocado. É como se Blake disputasse os 100m contra um adversário que corre uma prova de 91m.

  • Haroldo

    André, Carl Lewis é uma lenda viva e o que ele fala tem peso. O que vc acha do que ele disse sobre a possibilidade (ou certeza…) de doping na Jamaica e na resposta dura de Bolt?

    AK: Suspeita de doping é algo que pesa sobre todos os atletas que fazem resultados expressivos. Isso vale para Lewis, em sua época, também. Um abraço.

  • Nilton

    Acredito que o Bolt, diminui o ritmo para que os outros atletas possam sair na foto da chegada, já imaginaram como seria contangedor o segundo e terceiro colocados terem que explica na conferencia de impressa pq não apareceu na foto da chegada???? ainda bem que na maioria do mundo o tamanho das telas de TV mudou de 4:3 para 16:9. rrrrsssssssssss

  • Alexandre

    Pouquíssimos foram os atletas, em toda a história olímpica, sobre os quais havia certeza que, no seu auge e dando o máximo, não tinham como ser batidos por nenhum de seus contemporâneos, eram imbatíveis.
    Provavelmente os Jogos de Pequim (2008) foi a unica ocasião em que dois destes “semideuses” estiveram em ação ao mesmo tempo: Phelps e Bolt.
    Em 2012 já vimos o efeito do tempo sobre o Phelps. Em 2016, o Bolt talvez nem nos dê essa oportunidade.

  • André, uma época especulou-se a possibilidade do Bolt correr os 400m. Você acredita que ele poderia ser competitivo nessa distância?

    AK: Ele corria os 400m quando era jovem e se imaginava que não teria sucesso nas provas mals curtas, por causa do tamanho. Seria interessante, não? Um abraço.

  • ramflabr

    Um corpo mais avantajado, e bastante arrogancia. Receita para sucesso no atletismo, e sucesso fora dele… Eu sou muito mais o Michael Phelps. Um nadador super tecnico, que dominou 8 competicoes praticamente por 12 anos, e manteve um perfil tranquilo e simples. Um rapaz normal. Depois reclamam do neymar, gaucho, e outros na farra, igualzinho ao Bolt… Precisamos de atletas que nao so sejam campeoes mas que tenham a educacao e humildade de um campeao. E que quando erram ou exageram, admitam o que fazem… Isso, e 18 medalhas de ouro impressionam.

  • BASILIO77

    Falha minha…o pódio TODO jamaicano aconteceu nos 200m e não nos 100m…

  • ‘Conspiracionista’ que sou, tenho certeza que Bolt já chegou aos 9,3/9,2 e estabeleceu um recorde que jamais será batido.

    Deve estar tudo datado e trancafiado a 7 chaves… só será revelado CASO Usain não consiga repetir tal feito até o fim da Olimpíada 2016, no Rio.

    DUVIDO que esse cara já não tentou dar seu máximo em uma corrida, mesmo sendo um treino.

  • Teobaldo

    Prezado felldesign, discordo da conspiração, mas concordo que ele já tenha atingido índices abaixo do recorde mundial, pois conforme post original é nítida a “tirada de pé” nas chegadas.

    Anteriormente os atletas recebiam um prêmio (acho que U$ 50.000,00) cada vez que batiam um recorde mundial. Isso levou o Bubka a aumentar o sarrafo do salto em altura 1 cm por vez, quando ele pretendia melhorar a marca. Não sei se isso valia para todos os atletas ou se era um acordo dele com o patrocinador.

    Quem sabe com incentivo desses o Bolt não soltaria todas as feras?

    Um abraço a todos.

  • Teobaldo

    Salto com vara, naturalmente!

  • Danny

    AK, o blog é seu e, por motivos óbvios, deve pertencer a vc a decisão final de sobre quais assuntos vc vai postar. O que não me parece óbvio é o porquê vc não publicou no blog até o momento sua postagem sobre o resultado final do futebol mas olimpíadas. Tenho interesse também de saber sua opinião sobre o momento do PH Ganso. Parece até que vc quer evitar o assunto…

    AK: Parabéns pela imaginação fértil. Tenho três colunas semanais para escrever para o jornal, de modo que preciso reservar certos assuntos (sob pena de aparecer alguém aqui reclamando da repetição de temas). A coluna desta quinta é sobre a Seleção. Um abraço.

  • Mas já rola esse incentivo no caso do Bolt, não?

  • Danny

    Muito obrigado pelos esclarecimentos. Espero que não tenha me levado a mal! Sou seu fã e acredito que vc é um dos melhores jornalistas do Brasil… Abraço

  • Pingback: efemérides do éfemello | Usain Bolt leva bi e recorde olímpico nos 100m()

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