COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

OLÍMPICO

A importância dessas eternas conversas sobre “o melhor da História” não é, nem nunca será, convencer quem pensa diferente. Isso é debate, não combate. E se dele resultar o interesse em pesquisar o que aconteceu há muito tempo, conhecer atletas que marcaram outras épocas, o esporte agradecerá. Esse é o ponto.

Estamos aqui para dizer que Michael Phelps é, sim, o maior atleta olímpico de todos os tempos. E o argumento que o credencia não é o número de medalhas (21, com uma chance de aumentar a coleção neste sábado) que sua carreira produziu. Reduzir o tema apenas aos números seria, de fato, uma afronta aos feitos de Phelps.

Nenhum outro esporte no programa olímpico oferece a um atleta a oportunidade de competir em tantos eventos numa mesma edição. O fato de Phelps ser um nadador é algo que o coloca imediatamente em vantagem sobre qualquer outro esportista, se a questão for só a quantidade de medalhas. Para começar, o correto é comparar Phelps com outros mitos das piscinas. É aí que, antes mesmo do início, a conversa termina. Não há discussão.

Não há outro atleta, em nenhuma época da História das olimpíadas, que tenha dominado sua modalidade da maneira indiscutível como Phelps fez na natação. Ele é o que mais provas venceu, o que ganhou mais medalhas em uma única edição, o único tricampeão. E o que Phelps conseguiu em Pequim 2008 foi uma inacreditável exibição de força, velocidade, resistência e múltiplos talentos. Vencer os 100m borboleta, os 200m livre e os 400m medley (numa campanha de 8 ouros, com 7 recordes mundiais e um olímpico) é como pedir a um tenista que ganhe seu torneio e mais os de tênis de mesa e badminton. É virtualmente impossível.

Ampliemos o debate para outros esportes, pois. Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro nos Jogos de 1936, diante de Adolf Hitler no Estádio Olímpico de Berlim (talvez seja a participação olímpica mais importante da História em vários aspectos, mas no esportivo?); Nadia Comaneci foi a primeira mulher a ganhar uma nota 10 na ginástica (feito igualado por dezenas de atletas) Carl Lewis é tetracampeão olímpico do salto em distância (feito igualado por mais dois atletas, em outras modalidades individuais); Sir Steve Redgrave ganhou medalhas de ouro em cinco olimpíadas (sempre com companheiros, no remo); Clara Hughes é a única pessoa que ganhou medalhas nos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno (relevância discutível, dada a pouca representatividade das olimpíadas geladas em várias partes do mundo).

Phelps disputou quatro edições dos Jogos (em Sydney 2000, aos 15 anos, nadou apenas os 200m borboleta), conquistou medalhas em três, assombrou a raça humana em um, dominou seu esporte de forma incontestável e – e só aí – é o atleta com mais medalhas da História olímpica.

Seus feitos durarão décadas, servirão de inspiração para gerações, possivelmente serão superados algum dia, quando seu nome permanecerá na discussão pelo contexto da época em que ele os estabeleceu.



  • anna

    Sinto-me privilrgiada por ter visto Michael Phelps nsdar. Acompanhar um mito em um dos esportes que adoro, apesar da minha natacao aprendida aos 19 nao ser la muito confiavel. Jamais esquecerei Phelps. Eu e o planeta.

  • Willian Ifanger

    Só uma coisa a acrescentar: Brilhante!

  • Marcello

    “A importância dessas eternas conversas sobre “o melhor da História” não é, nem nunca será, convencer quem pensa diferente. Isso é debate, não combate.” – Certíssimo!

    Essa é uma praga da internet, os “comentários para convencimento”. As pessoas comentam, principalmente quando o assunto é política e futebol, como se suas idéias fossem verdades absolutas e inquestionáveis.

    Os comentários muitas vezes eram complementos enriquecedores de blogs e colunas. Isso, com raras exceções, praticamente acabou. Ou se joga para a torcida (como muitos blogs sobre política) ou então temos uma guerra virtual de baixo nível. Acho uma pena.

    AK: Também acho. Um abraço.

  • Fabio

    Grande texto Andre, como sempre aliás. Também acho Phelps o maior de todos os tempos, mas na comparação dos grandes feitos passados incluiria Emil Zatopek, que ganhou os 5000, 10000 e maratona na MESMA Olimpíada, provas quase tão dispares quanto as citadas acima na natação.
    Abraço

    AK: Michael Johnson ganhou os 200m e 400m rasos em Atlanta. Há muitos outros nomes que merecem ser citados na conversa. Um abraço.

  • Tem mais um ponto: que outro atleta pode se dar ao luxo de se aposentar aos 27 anos com todas essas conquistas?

  • Fabio

    Michael Johnson também é uma grande lembrança. Como falei antes, concordo que Phelps é o maior, só queria lembrar outros nomes que merecem “menção honrosa”.

    Ainda com respeito a grandeza de Phelps, tive mais uma prova esses dias, como se ainda fosse necessário. Numa entrevista do Thiago Pereira ele contou o quanto ficou feliz com os parabéns que recebeu de Phelps no final da prova do 400 medley, que elogiou a estratégia de prova.

    Para mim essa é uma prova de grandeza até maior que a que ele teve no pódio dos 200 medley, tão bem descrita a alguns posts atrás. Depois de ficar fora do pódio olimpico pela primeira vez em muito tempo, longe do público e da mídia ele podia virar um poço de mau humor, mas entre atletas, o cara de 20 medalhas se preocupou em elogiar o adversário que conquistou sua primeira.

    Grande campeão, em todos os sentidos.

  • Fabio

    Corrigindo, onde está escrito 200 medley leia-se 200 borboleta

  • Alexandre

    Acho que faz parte da natureza humana essa necessidade de ranquear, classificar, comparar, ainda mais no esporte, onde, afinal, buscamos o mais forte, o mais rápido, o mais habilidoso, e tal.
    Porém, o que preocupa é que sempre que se elege “o maior” de qualquer coisa, o efeito colateral de eclipsar os feitos do demais acaba preponderando sobre o objetivo de enaltecer o eleito.
    Não acho que faça muito sentido comparar atletas da mesma modalidade de épocas distantes(Pelé ou Messi…) e menos ainda comparar atletas de modalidades diferentes.
    O que não dá é para ignorar o fato de que ninguém foi tão vencedor em Olimpíadas quanto o Phelps.
    De resto, meu “herói” preferido ainda é o Bolt, pois para mim a vitória mais acachapante de um atleta individual em uma Olimpíada foi naqueles 100m em Pequim. De repente parecia que havia um homem participando da prova feminina, ou um alien debochado participando da masculina. Na metade da prova mais tradicional entre todos os esportes, ele lá, fazendo caretas para a torcida…
    Isso sem falar da quebra do recorde inquebrável do Michael Johnson (de 96) nos 200m, também em Pequim, e do recorde do revezamento 4x100m.
    E acho que vem muito mais por aí em 2012 (nos 100m jás veio, né) e 2016.

  • Fábio, Emil Zatopek foi uma lembrança excelente! Realmente, o feito dele foi absurdo, assim com o de Phelps.

    Porém, gostaria de introduzir outro ponto na conversa. A questão do carisma também deveria contar? O que diremos se Bolt ganhar novamente no Rio-2016 a prova dos 100 e 200m?

  • Alexandre

    Pedro,
    E o Bolt não é só carisma não.
    Ele consegue ser muito mais rápido que os homens mais rápidos da história do atletismo: Tyson Gay, Asafa Powell e Yohan Blake.
    As 20 melhores marcas de todos os tempos, todas abaixo de 9s78, pertencem a estes 4 caras.
    Só que a melhor do Bolt é 9s58, e a melhor dos outros 3 é 9s69 (Tyson Gay).
    Pô, 11 centésimos é muita coisa, o cara é um fenômeno.

  • Teobaldo

    Qualquer adjetivo, por mais superlativo que seja, direcionado ao Phelps, é apenas a constatação do óbvio.

    Pegando um gancho no que escreveu o Marcello, o que observo nos blogs em geral é que as pessoas leem os posts (e os respectivos cometários) para responder em detrimento do “ler para entender”.

    Um abraço a todos.

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