CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

VOCAÇÃO

Duas questões são importantes em relação à decisão do São Paulo de negociar, ou não, o atacante Lucas. Se o jovem jogador vale mais ou menos do que os 38 milhões de euros que teriam sido oferecidos pelo Manchester United não é uma delas.

A primeira questão é se o São Paulo precisa do dinheiro. Não se trata de descobrir o que fazer com cerca de R$ 90 milhões, montante que obviamente faz diferença no orçamento de qualquer pessoa física ou jurídica. O ponto é se o São Paulo depende dessa negociação para honrar suas obrigações. Em português simples: manter Lucas implicará em atraso de salários? Pelo que se sabe, não.

Fazer dinheiro com negociação de jogadores é coisa para três tipos de clubes. Os que têm as operações financeiras como objetivo principal, verdadeiras fazendas do futebol administradas por investidores que tão somente apostam na valorização dos direitos econômicos de seus “produtos”. Os pequenos, que têm aspirações esportivas mas precisam vender atletas para se manter a cada temporada. E os grandes que gastam mais do que arrecadam e dependem de transações para equilibrar seus balanços. O São Paulo não se enquadra em nenhuma das descrições.

A segunda questão é a utilidade de Lucas. Não é uma avaliação de seus talentos ou uma projeção de sua evolução como jogador. É o cálculo do aumento das chances de sucesso do São Paulo, hoje, com o atacante em campo. É a pergunta se, com Lucas, o time tem mais chances de alcançar seus objetivos no Campeonato Brasileiro e na Copa Sulamericana. Não é difícil responder.

Lucas tende a se beneficiar da chegada de Ney Franco ao São Paulo. Com Leão, teve problemas e pareceu perdido em campo, em dúvida sobre o que pretende ser. O novo técnico deve ajudá-lo a se reencontrar. A dificuldade de usar os milhões ingleses para contratar peças que possam ajudar o São Paulo agora, por falta de opções e de tempo, contribui para manter o atacante no Morumbi.

Acima de tudo, é um caso de vocação. Clubes de futebol que querem ser, ou permanecer, grandes, devem perseguir títulos, mantendo-se no limite entre o azul e o vermelho. Recursos devem ser investidos de forma ampliar as chances de conquistas. Se vender Lucas, o São Paulo fará o contrário.

OUTRO LADO

É evidente que, para quem gerencia a carreira de um jogador, há um lado da história que não necessariamente acompanha o pensamento do clube. São interesses e valores – em todos os sentidos – diferentes. É compreensível que o estafe, a família de Lucas, e até mesmo o próprio, sejam favoráveis à negociação. Legítimo que se pense que não haverá outra oportunidade tão boa quanto essa para que ele seja valorizado.

OUTRO NÍVEL

A situação de Lucas não tem deve ser comparada com a de Neymar. Aliás, qualquer tipo de comparação entre eles, dentro ou fora do campo, é prejudicial ao atacante do São Paulo. Ambos nunca estiveram no mesmo nível. O que os casos têm em comum é o benefício aos campeonatos no Brasil pela permanência de jogadores que, em outras épocas, já teriam saído. Mas é decepcionante ver que o futebol brasileiro, como instituição, tem feito pouco para progredir.



  • Joao

    Foi bem de mais Kfuri!!!!

  • Willian Ifanger

    Coluna/post sensacional!

    Concordo 100%.

  • leonardo atleticano

    André, é muito complicado julgar.
    Será quanto o Santos deve lamentar não ter vendido o Ganso na primeira mega proposta?
    O São Paulo tem vencido campeonatos com o Lucas?

  • André, off topic.

    Você viu a história do corte da Iziane? Poxa, se ela foi cortada por ter levado o namorado para concentração, é só mais uma mostra de como esse expediente está ultrapassado. Confinar atletas mesmo em momentos livres me parece algo um tanto autoritário!

    E mais, o corte não teria sido algo muito drástico? Sei que a Iziane não é um exemplo de disciplina, mas me parece que a CBB jogou pra galera nessa.

    O que acha?

  • Marcel de Souza

    Muito bom texto, como sempre. Exprime bem o que penso. Mas concordo que é muito dificil equacionar todas as variáveis envolvidas… Veja o caso das Olimpíadas mesmo, o Lucas desfalcará o time por 7 rodadas. De qualquer forma eu acho que também não abriria mão dele neste momento.

    1 abraço e bom final de semana!

  • Joao CWB

    Há os clubes que vendem os jogadores para investir praticamente só em estrutura e manter o superávit, deixando os títulos de lado. Caso do meu Furacão.

    Não sei até que ponto é vantajoso contrair dívidas enormes para montar um timaço e ficar na esperança que o projeto dê certo. Mas também ter as contas em dia e ficar anos sem um título decente ou pelo menos boas campanhas é de fazer qualquer torcedor desanimar.

    Abraço

  • Dyl Blanco

    Tudo no futebol passa pelos jogadores. Suas atuações, quando empolgam, aumentam receitas (diretas e indiretas), aumentam o interesse e o faturamento das mídias, melhoram o negócio como um todo. Por isso o progresso do futebol brasileiro tem que passar pelos jogadores. Se conseguimos perceber benefícios diretamente ligados aos jogadores, significa que as coisas tem tudo para progredir mais. Esses novos ares nas negociações sugerem tempos melhores, confirmados pelas declarações de Seedorf, que ao explicar sua escolha pelo país declarou que o “negócio futebol” foi o diferencial que o fez decidir. A situação está favorável, mas requer responsabilidade nas decisões, uma novidade para todos nós.

  • Rita

    É isso André…
    Fiquei até surpresa com a negativa do clube, especialmente pelos feitos da atual perpétua administração.

  • Clayton

    Boa coluna. PVC também escreveu algo a respeito no blog.

  • leonardo

    Noventa milhões pelo Lucas?
    Se o São Paulo não vender vai se arrepender.
    Se vender quem se arrepende é o comprador.
    Podem anotar.

  • Edouard

    Lucas é grande jogador. Eu não discuto isso.
    Mas penso que uma oferta como essa não pode ser recusada simplesmente porque pretenderam pagar muito mais do que ele vale enquanto jogar no SPFC. E o ponto é que eu incluiria, no raciocínio que você propõe, dois outros elementos.
    1. O Clube deve se perguntar se, para o elenco, não é mais interessante abrir mão de um jogador como o Lucas por R$90mi, e contratar outros 4 de R$20mi, que tenham potencial para negociação futura, e usar os R$10mi restantes para aliviar a folha de pagamento que, estando em dia ou não, é a maior fonte de custo do time. Ele não vale mais do que o Oscar, por exemplo.
    2. Como vai render um jogador que queria ir para a Europa, mas não foi, apesar da excelente proposta?
    Acho que o SPFC vai se arrepender de não tê-lo negociado.
    Um abraço.

  • Alexandre

    Concordo plenamente, André.
    E digo mais. Nunca vi um clube melhorar o seu desempenho esportivo nos campeonatos imediatamente posteriores à venda de seu melhor jogador.

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