COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

VALOR HUMANO

A repercussão da contratação de Clarence Seedorf pelo Botafogo tem ignorado um aspecto fundamental. Fala-se muito, não sem motivos, sobre o nome, o jogador, o currículo. E é possível que o holandês seja a principal atração internacional do futebol brasileiro em todos os tempos. Esquece-se, porém, que a pessoa recebida com festa no aeroporto Tom Jobim é ainda mais valiosa.

Na sexta-feira, após subir numa espécie de púlpito e, enrolado na bandeira alvinegra, agradecer a presença da multidão, Seedorf foi levado para um hotel em Ipanema. Ali, fez um pedido ao presidente do Botafogo, Maurício Assumpção. Digamos que o meia de 36 anos e múltiplos títulos seria atendido em qualquer hipótese, independentemente da ousadia da demanda. O Botafogo faria qualquer esforço para satisfazer a estrela que chegou da Europa para, depois de uma década no Milan, concluir sua trajetória competitiva no Brasil. Nenhuma mordomia seria excessiva. Seedorf foi surpreendentemente mundano: “quero treinar”.

A longevidade de Seedorf já é sinal indiscutível de uma postura exemplar. Ninguém se sustenta por 20 anos (tinha 16 quando debutou profissionalmente) no meio de campo, em clubes como Ajax, Internazionale, Real Madrid e Milan, sem ética de trabalho acima de qualquer suspeita. E ainda que, a esta altura, não seja o todocampista que impressionava pela onipresença, Seedorf honrará a camisa 10 do Botafogo. Honrará também a instituição e a torcida, que haverão de fazer o mesmo por ele.

Horas depois de desembarcar no Rio de Janeiro, já na madrugada de sábado, Seedorf deu mais uma mostra de conduta. Parado numa blitz da Lei Seca (notável como esse tipo de fiscalização é eficiente nas vias cariocas), ele não se furtou a soprar o bafômetro. O episódio resultou numa autuação por falta de habilitação, falta que não se compara em gravidade à irresponsabilidade de dirigir sob efeito de álcool. Seedorf pode ser um agente transformador da leitura que se faz da frase “há coisas que só acontecem com o Botafogo”.

No Engenhão, já no início da noite, foi apresentado a um público menor do que a ocasião merecia. Esbanjou simpatia, gratidão, prometeu o que sem dúvida entregará. Desceu ao vestiário, onde respeitou o momento dos novos companheiros que se preparavam para enfrentar o Bahia. Durante o jogo, sorriu, acenou, torceu, aplaudiu. E como se fosse necessário, concederá nesta segunda-feira sua primeira entrevista como jogador do Botafogo, sem a necessidade de um intérprete.

Houve quem estranhasse a escolha de Seedorf pelo futebol brasileiro, quando os Estados Unidos, a Europa periférica e a Ásia também se apresentavam como opções. Prova de que, hoje, o dinheiro por aqui é competitivo, assim como os campeonatos. Indício de que Seedorf pretende jogar futebol, não apenas ser pago para aparecer. Os destinos do Botafogo, claro, não dependerão apenas dele.

O Botafogo importou um futebolista do mais alto nível, e uma pessoa ainda melhor. A bola está com os dirigentes e com o torcedor. Clarence Seedorf certamente fará a parte dele.

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A apresentação “oficial” de Seedorf, no Palácio da Cidade e com merchan do prefeito Eduardo Paes (colega de partido de Maurício Assumpção, recém filiado), mostra como funciona a cabeça de certos dirigentes.

Seedorf e o Botafogo foram usados, sem constrangimentos.

Que o craque holandês saiba com quem se meteu.



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