COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PURIFICAÇÃO

O caminho de volta começou pela Praça Charles Miller, mas seus pés não sentiam o chão. Não era a única sensação estranha que sua mente tentava processar. A comemoração não tinha sido a apoteose que povoou seus sonhos.

O primeiro Brasileirão, em 1990, foi uma explosão de felicidade na arquibancada do Morumbi. O bi em 98/99, tremendo orgulho por torcer por um timaço. A noite da libertação que ele acabara de viver no Pacaembu? Catarse. Choro coletivo, como uma ação de graças. O grito de campeão, contido até depois dos 40 minutos do segundo tempo. Quando saiu, foi gutural, raivoso. Um descarrego.

Lembrou-se do que viu na chegada ao estádio. A Polícia Militar tinha isolado a região do portão do estacionamento, à espera do ônibus que trazia os jogadores. Uma barragem separando dois mares de corintianos. Enquanto o ônibus manobrava para entrar, a impressionante manifestação popular não era de estímulo ou inspiração. Era de súplica.

Pedido atendido, ele estava indubitavelmente feliz. Mas lidava com uma avalanche de contradições. Seus olhos resistiam a registrar um capitão do Corinthians com a Copa Libertadores nas mãos. Seus ouvidos estavam habituados a captar os protestos, os ruídos da violência, não da celebração. Seu cérebro havia se preparado para decifrar a derrota, quando a vitória parecia tão próxima. Seu coração, programado para encolher, pulsava como se quisesse atravessar o peito. Respirou fundo.

Ainda perto do Pacaembu, parou um ambulante e comprou uma latinha de cerveja. Ofereceu um gole a cada herói. Nomes eleitos sentimentalmente, nem sempre por serviços prestados em campo. Depois, um gole para cada frustração que a maldita taça lhe proporcionou. Queria falar com o pai, que lhe ensinou a paixão pelo Corinthians, para agradecê-lo. Mas tinha ido ao estádio apenas com os documentos, o ingresso, algum dinheiro e o enorme desejo de ser campeão. O abraço, certamente emocionado, ficaria para depois.

Quase duas horas após o apito final, momentos se reproduziam na memória. Estavam acompanhados de análises apressadas, influenciadas por crenças, medos, experiências. O início nervoso, mau sinal. O primeiro gol, muito cedo. Riquelme rondando a área, perigo. O segundo gol, ainda cedo. Trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove… vamos ganhar? Vamos. E será do jeito que ninguém jamais ganhou.

Quando se persegue algo por tanto tempo, e só se encontra ilusão, não há nenhuma dificuldade em acreditar que, finalmente, aconteceu. A questão é a dimensão, o significado. Andando pelas ruas, na madrugada corintiana, os fogos e os gritos aumentavam as medidas da conquista. Ele já caminhava por mais de meia hora, mas ainda não sentia a calçada sob os pés.

A dois quarteirões de casa, encontrou dois homens, pai e filho. A camisa e uma história os uniam. O pai esteve no Morumbi, em 77, levado por seu pai. Fez o mesmo com o filho, no Pacaembu. Sorriram, parabenizaram-se, estavam se despedindo quando ele quis lhes mostrar uma coisa. Tirou a camisa e exibiu uma tatuagem nas costas, feita na semana anterior: SOMOS, SEREMOS, SEMPRE SEREMOS.



  • Anna

    Linda coluna.É sempre bom ver um título do nosso time de perto!

  • Gabriel

    Sensacional. VAI CORINTHIANS!! SOMOS E SEREMOS!!

  • Carlitos

    Lindo Texto! Digno de um Corinthiano!!! Como vc e o Seu Pai! Parabéns!
    Aqui vai o meu…

    Prazer Boca … Eu sou a Fiel… Eu sou Corinthians… Eu sou Campeão!!!

    Quis o Destino… que fosse depois do Centenário… Quis o destino… que fosse um time unido e de trabalhadores… Quis o destino que fosse um time de saco roxo… sem medo, sem estrelas… tinha que ser um time com a cara da Fiel!!! Quis o destino que fosse invícto em cima do bicho papão… em cima de Riquelme ” O Temido”…!? Quis o Destino que o “Doutor” baixasse em Danilo…!!! Quis o destino… que à partir deste 4 de Julho a Independência dos Americanos agora é apenas um fato sem importância, pois esta data é da Fiel!!! Como disse na postagem anterior o Sheik já morava no coração da Fiel… e Hoje ele é o retrato dela, maloqueiro e sem medo de nada!!! Hoje talvez as postagens não terão mais graça neste espaço… Os “antis” ficarão calados ou então arrumarão desculpas… mas não têm como contestarem este elenco…este Clube… que ressurgiu das cinzas em 2008! E hoje escreveu mais uma página linda em sua História!!! Parabéns Tite… Parabéns Guerreiros!!! Parabéns Timão!!! Parabéns Fiel… Vocês Merecem!!!! Ou melhor nós merecemos!

    Na Bombonera calamos o Boca!!! No Pacaembú calamos A Boca… de todos!!!

    Aqui é Corinthians…

  • Willian Ifanger

    Eu queria fazer aqui (e acho que somente aqui que posso fazer isso) um agradecimento ao Corinthians pela conquista do título da Libertadores.

    Primeiro pelo lado “clubístico”. Eu sou são paulino e no período de 2004/2008 vi uma diretoria fazer um belo planejamento que culminou em uma Libertadores, um Mundial e um Tri-Campeonato Brasileiro. Quase um Tetra, se levarmos em conta que perdeu o título, em 2009, nas últimas rodadas por detalhes. Detalhes também que fizeram perder uma semifinal de Libertadores meses antes. Detalhes que nuca faltaram nas conquistas anteriores e acabam passando porque os rivais, nesse período, não conquistaram nada. E por não conquistarem nada a diretoria acaba se acomodando, perdendo o foco do trabalho e acumulando insucessos e perda de tempo com apostas estranhas.

    Com esse título do rival eu espero (na verdade eu torço pra) que a diretoria volte a focar seu trabalho no futebol. Ver um time evoluindo, ao invés de recomeçar a cada troca de técnicos. Um elenco sendo montado e talhado, com muito trabalho. Os títulos podem demorar? Quem sabe, mas é importante ver algo sendo construído. E, ao que parece, essa semana a diretoria se mexeu (apesar do Departamento de Boatos também estar trabalhando a mil). Portanto, essa é a primeira parte do agradecimento.

    A segunda parte é pessoal. Veja bem, era uma quarta-feira de futebol e lá estava eu nervoso pra ver um jogo que não tinha nada a ver com minha paixão. Lógico, não estava no mesmo nível de apreensão, mas era desconfortável. Era, na verdade, estranho. À medida que o título foi sendo definido e, finalmente, quando o jogo terminou, houve uma sensação esquisita de alívio. Lógico que desliguei a TV e fugi de qualquer coisa relacionada ao esporte na quinta (não sou masoquista). Mas aquele fim de mundo que eu imaginava no dia que essa conquista chegasse, não aconteceu.

    Torcedor de futebol é uma entidade estranha. Às vezes usamos de vários “cobertores” pra nos confortar, principalmente as derrotas dos rivais. Só que não há nada de conforto nisso. Esses cobertores nos sufocam, sem percebemos. Era assim sempre que o Corinthians participava de uma Libertadores.

    O André falou muito em “Libertação” esses dias e é assim que me sinto hoje: Libertado. Libertado desse cobertor. Lógico que vou continuar secando, torcendo contra, etc; é meu direito e dever de torcedor. Mas não me sinto mais sufocado.

    Obrigado.

  • Luiz Marfetan

    Comentariosinho piegas esse seu heim!!!!!

  • Sergio

    Não sou corinthiano. Talvez seja até anti-corinthiano. Mas, independentemente das minhas preferências futebolísitcas, não me passa pela cabeça não gostar de textos como este, André.
    É sempre um prazer poder ler as suas colunas.
    Parabéns ao Corinthians e um abraço.

    AK: Obrigado pela mensagem. Um abraço.

  • BASILIO77

    “Mas lidava com uma avalanche de contradições. Seus olhos resistiam a registrar um capitão do Corinthians com a Copa Libertadores nas mãos. Seus ouvidos estavam habituados a captar os protestos, os ruídos da violência, não da celebração. Seu cérebro havia se preparado para decifrar a derrota, quando a vitória parecia tão próxima. Seu coração, programado para encolher, pulsava como se quisesse atravessar o peito. Respirou fundo.”

    Esse era eu.
    Abração.

  • Marcelo

    Torço pro time que começa com a letra C.
    C de Condição, esta financeira que os rivais fazem questão de lembrar que nossa grande Massa é pobre, mas C também de Capacidade, que fez com que este time fosse o escolhido por mim.
    Torço pro time que a segunda letra é O.
    O de Ódio de nossos rivais, mas que transforma em campo este ódio em Obstinação, para vencer a qualquer custo.
    Torço pro time que a terceira letra é R.
    R de Raiva de nossos rivais que tendem a dizer que tudo o que conquistamos não é merecido, mas R de Raça que sempre justifica o nosso merecimento.
    Torço pro time que a quarta letra é I.
    I de Irritabilidade que nossos rivais tem quando vencemos e chegam até a nos ofender, mas I também de Inspiração que nossa torcida passa ao time para que ele se supere em campo.
    Torço pro time que a quinta letra é N.
    N de Nada, que sempre dizem que não temos estádio, nem passaporte, mas na verdade N de Nunca Te abandonar nem preciso dizer o porque.
    Torço pro time que a sexta letra T.
    T de Tripudiar, isso mesmo que nossos rivais sempre fizeram até hoje e que depois de lembrarem do T de Título que ganhamos, vão se esquecer dos motivos que o levavam a fazê-lo.
    Torço pro time que a sétima letra é H.
    H de Hostilidade que sempre é peculiar aos nossos rivais, que para nós é um H de Humildade assim como nosso time em campo.
    Torço pro time que a oitava letra é I.
    I de ignorância daqueles que julgam-nos como ladrões, favelados e não sabem que nós usamos o I de Insuperáveis para buscar em nosso dia a dia nossos objetivos.
    Torço pro time que a nona letra é A.
    A de Azar que é o que mais desejam para nós, mas que sempre será um A de Amor, de nossa imensa torcida para estes guerreiros em campo.
    Torço pro time que a décima letra é N.
    N de Nunca serão. Frase agora que terão que engolir enquanto pediremos mais e gritaremos com N, Não para, Não para, Não para…
    Torço pro time que décima primeira letra é S.
    S de Segundona e de Sonho de padaria, sim este sonho que tanto nos disseram ser impossível e que era apenas de padaria. Usamos o S em Superação desde a queda para a Segunda Divisão e transformamos em SUCESSO!
    Torço pro Sport Clube CORINTHIANS PAULISTA, BRASILEIRO, SUL AMERICANO E MUNDIAL.
    E agora você vai dizer que falta o que pro CORINTHIANS?

  • Marcão

    Passei a semana anterior ao titulo, angustiado pois sou acostumado a sofrer a quatro decadas, esperava prorrogação, penaltis, porem foi melhor que o melhor dos sonhos, invicto em cima do Boca…..sensação indescritivel ainda custo a acreditar só sei que é bom demais, e que apos este obstaculo vencido estamos livres, ganhamos grandes e fortes asas!!

  • Paulo Carvalho

    Há cinco anos André Kfouri convocava todos os corintianos a levantarem a cabeça e apoiar o time no pior momento da história do clube, pois tal como vimos em Rocky Balboa “os vencedores são aqueles que apanham da vida mas não desistem do seu sonho, se levantam e seguem lutando firme.” Passado todo esse tempo, o mesmo jornalista nos brinda com esse belíssimo texto, agora retratando o sentimento de toda essa nação que sempre esteve ao lado do time e que teve sua devoção recompensada. Parabéns ao André Kfouri, sempre feliz em suas observações e a todos nós, corintianos, por darmos vida a esse colosso do futebol brasileiro chamado CORINTHIANS!

  • Rodrigo – CPQ

    Cara, espetacular. De arrepiar, muito bom mesmo! Será que um dia teremos um livro com suas melhores crônicas?

    Pra finalizar, a frase que eu acho que resume tudo que foi falado, pensado, jogado, sentido, vibrado e afins nessa última semana:

    “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”
    (Humberto Gessinger)

  • Sérgio

    Como corinthiano, só posso agradecer pelo texto, que fica marcado na minha mente como todos os lances do jogo que de fato nos libertou!!!

    Parabéns André!

  • BASILIO77
  • Silvia Valeria Martins

    Puxa que belo texto! Filho de Peixe mesmo hein!
    Parabéns, a partir de hoje sempre que puder darei uma olhadinha no seu blog, costumo te ver na ESPN.
    Abraço.

    A propósito especialmente em olimpiadas, tenho o sentimento que você tem na apresentação do seu blog, quem me derá ser jornalista para poder ir ao um envento desses, você tem essa sorte,desfrute muito……..

  • Anna Barros

    Lindo!

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