CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

CAMINHANDO

A única diferença entre a conquista perfeita e a tragédia perfeita é o final. O que constrói a singularidade de um momento sublime são exatamente as mesmas características que o transformam em lamento, no último instante.

Pensando na angustiante dualidade do futebol, razão pela qual essa maravilhosa invenção humana sabe ser mágica e trágica, o corintiano iniciou o caminho de sua casa até o Pacaembu. A pé. Os poucos quilômetros que separam um ponto do outro já serviram para outras reflexões, em dias especiais como esta quarta-feira. O passeio tem efeito calmante. Eleva a frequência do coração, produz uma sensação de bem estar.

Lembrou-se da última caminhada. Quatro de dezembro de 2011, exatos sete meses antes. O dia em que Sócrates morreu, e que o Corinthians encontrou seu quinto título do Campeonato Brasileiro ao final de um 0 x 0 com o Palmeiras. Um dia estranho do início ao fim. Graças àquele dia ele estava ali, na calçada, com destino ao mesmo lugar, à procura de sensações semelhantes.

Lembrou-se que, ao longo da campanha de seu time nesta Copa Libertadores, ele preferiu chegar ao estádio de outras formas. Foi a todos os jogos, mas nunca a pé. Aos que não eram decisivos, não fazia sentido. Quando eram, fingiu que não eram. Vã tentativa de enganar a própria mente, de não dar a mais uma possível eliminação a importância merecida. A tristeza que o corroeu na noite em que uma vitória por 2 x 1 sobre o Flamengo foi insuficiente ainda estava viva.

Lembrou-se de como os jogos contra Vasco e Santos renderam pouco sofrimento, para os padrões a que ele estava acostumado. Bom sinal. Ou péssimo? Lembrou-se de como se sentiu quando Romarinho marcou na Bombonera. Incredulidade é a melhor palavra. Lembrou-se até do que não gostaria: a noite, doze anos atrás, em que voltou a pé do Morumbi, depois de uma decisão por pênaltis que ainda dói. Então ele fez um pedido. Pênaltis, não.

Ele não pôde se lembrar de Basílio, não era nascido. Mas lembrou-se das histórias que ouviu sobre 74. Quase o fim do mundo, no auge do jejum. Terrível. Mas o clube se libertou três anos depois, portanto nada poderia ser tão ruim. Nada?

Quando viu o Pacaembu, ainda ao longe, parou de pensar. Era hora de sentir.

ESTRELAS

Inútil tentar descobrir qual time foi melhor, entre o Brasil de 1970 e a Espanha atual. Melhor ficar com o que não se discute: ambas estão entre as maiores de todos os tempos. Assim como o Brasil de 1982, que era tão encantador que ficou na memória de quem viu, mesmo sem ter vencido. O grande legado desses times é ter um jeito próprio de pensar e jogar futebol. Ditaram regras, em vez de obedecê-las. Isso independe de opinião.

TAREFA

A equilibradíssima decisão da Copa do Brasil pode pender para um lado logo mais, na Arena Barueri. A escolha do estádio teve a participação dos jogadores, levou em conta o ambiente pró-mandante que pode interferir no andamento e no resultado do primeiro jogo. Pois o Palmeiras sabe o que encontrará no Couto Pereira. Em qualquer mata-mata, os mandamentos são os mesmos: vencer sem levar gol. Para o Palmeiras, eles valem ainda mais.



  • Brasil de 70 ou Espanha atual? Difícil. Na dúvida, vou escalar o melhor time que eu, que tenho apenas 30 anos, vi alguma vez: Cássio; Alessando, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Emerson e Jorge Henrique. Técnico: Tite.

  • BASILIO77

    Show de bola, cara.
    Abraço.

  • Caio

    Muito bom!
    Um abraço!!!

  • Sei que o corintiano da caminhada não é uma pessoa real, mas foi inspirado em alguém próximo?
    Cheguei a pensar que fosse seu “eu verdadeiro” mas você já era nascido em 77.

    Brincadeira André

    Abraço

  • yassin

    Nelson, posso estar enganado, mas o corintiano da caminhada é o próprio André.

    O futebol é maravilhoso mesmo exatamente por momentos como esse. O futebol já me deu grandes alegrias e tristezas profundas. Tenho lembranças futebolísticas que até hoje me pesam no coração.

    Tem um amigo meu que tem uma história interessante a respeito do nefasto ano de 74. Decisões contra o Palmeiras não costumam ser uma boa idéia. Outro dia, conversando com ele sobre futebol, o cara ficou emotivo ao falar dessa decisão. Nós não sabemos da missa nem um terço, essa é que é a verdade. A geração de corintianos que pegou o jejum comeu o pão que o diabo amassou, literalmente.

    A decisão de 74 foi dessas de deixar terra arrasada. Perdemos para o nosso maior rival, continuamos em um jejum interminável e vimos o maior ídolo da história do clube sair pelas portas dos fundos, escurraçado como se fosse um qualquer. Por isso que temos de desfrutar de momentos como o que estamos vivendo hoje. Os mais velhos entre nós, por conta de 74 e dos anos sem vitórias contra o San7os, o pessoal do Faz-me rir, eles merecem. Merecem tudo e mais um pouco. São os grandes heróis da história do Corinthians, porque não abandonbaram o time enquanto ele tateava na escuridão do inferno.

    O velho dele não está mais entre nós. Era corintiano doente. Desses que, se você começasse a falar muita besteira, ficava sem olhar pra tua cara uns dois meses. Tinha pelo Palmeiras uma rivalidade profunda, mas que não transbordava para a aversão, como parece ser o que vem acontecendo entre Corinthians e São Paulo.

    Mas eu falava do pai desse meu amigo e do que se passou na casa dele nessa final de 74. Naquele dia ,seu pai acordou ficou silencioso e assim ficou a maior parte do tempo, até a hora do jogo. Leu o seu jornal pela manhã, foi cuidar de suas plantas, depois almoçou, em silêncio total. Parecia em uma meditação aflita. Aparentava sentir que algo não iria acabar bem.

    Depois do jogo, meu amigo conta que viu o pai se levantar, com os olhos vermelhos ( o velho não era de chorar, diga-se de passagem), com a cabeça baixa, e caminhar até a sacado do apartamento, em direção às suas queridas plantas. Meu amigo, que ainda era só um pivete, conta que viu ainda sua mãe, aflita diante daquele quadro, tentar falar alguma coisa com ele. E conta que tudo o que lembra é o gesto com a mão espalmada, o olhar de um amargor que nunca tinha visto , dizendo através de um gesto o que não era possível expressar com palavras.

    Hoje em dia , todo Palmeiras e Corinthians, final ou não, lhe remete àquele dia .

    São histórias assim que nos ajudam a ter uma dimensão mais realista do que significa o futebol.

  • BASILIO77

    Yassim, realmente foram tempos difíceis.
    Em 74, tinha 9 anos.
    Como sou de Santos, passei boa parte da minha infânciao como torcedor, ouvindo um mantra. “Voce NUNCA verá seu time ser campeão.” Isso tudo na terra do Pelé, ainda ecoava o sucesso dele e de sua geração. Mas O SFC já dava sinais de fraqueza, e eles também ouviam um mantra: “Pelé parou, o Santos acabou.” Todo esse clima só ajudava para que aos rivais canalizassem todos seus “recalques” na nossa direção.
    Naquela final contra a SEP, o garotinho de 9 anos quase teve acreditou que eles estavam certos. QUASE.
    Lembro que ouvi o jogo pelo rádio. Não quis aparecer chorando na frente de ninguém da minha casa, sou o único Corinthiano na família, os sampaulinos prevalecem. Fiquei debruçado na janela olhando para o nada, os olhos cheios de lágrimas. Será que o que eles dizem será verdade?
    Ainda tive que ver meu MAIOR ÍDOLO, Rivellino, sair do clube diante daquele desastre. Acho que nesse episódio, da saída dele, que começou minha “marcação” sobre a imprensa. Ela foi fator preponderante para que Rivellino fosse embora. Precisava haver um culpado. Elegeram a fera.
    Talvez um caso único de craque da mais elevada estirpe que tenha passado tantos anos no clube que foi revelado, sem um título sequer. Coisas que foram moldando nossa torcida…

    Em 76 ainda fomos até o beira rio, enfrentar o fortíssimo colorado. Mais um revés. Será que eles estavam certos? Não, não é possível. Uma hora essa maré tem que virar.

    Veio 77.
    Foi como uma nova fundação do clube. Desde então, a vida tem sido “fácil”.
    Acredito que esse título da libertadores, seguido da construção do estádio, levará o clube à uma espiral positiva que fará com que os que torcem contra o SCCP, comecem a procurar outro alvo para canalizar suas frustrações.

    A administração do clube deve continuar no caminho da evolução e do crescimento. FORA dos campos, sou favorável à uma administração agressiva e sem tréguas para a concorrência. Nos negócios, é guerra!
    Afinal, foram anos e anos “subsidiando” a vida de boa parte das demais agremiações.
    Ganhamos o que? O ódio alheio.
    Em 2015, já com estádio, será negociado o novo contrato com a TV. Será a hora de meter a faca na garganta da concorrência, exigindo e FAZENDO VALER o nosso poder de atrair a atenção da sociedade. O futebol virou um grande negócio, NENHUMA empresa joga dinheiro pela janela. Muito menos dá mole pra concorrência.
    Fora de campo, é guerra! Que não foi iniciada pelo SCCP, muito pelo contrário. Entramos “no clima” só em 2008. Clubes como o SPFC e Inter já praticavam essa administração “bélicosa”.
    Se cada clube for administrado APENAS com seus recursos próprios, ou seja, SEM as tais “parcerias”, a coisa ficará feia pra clubes como o Inter e Flunimed.
    Infelizmente, ou felizmente, como diria Andrés Sanchez, nesse país tem coisas que certos clubes PODEM praticar, e coisas que outros clubes NÃO PODEM praticar. Parcerias “duvidosas” do ponto de vista fiscal é do que estou falando. Se as autoridades apertarem o cerco, a vida dessas agremiações fica MUITO difícil. Há os que acreditam que um clube como o Inter, “ganhe a concorrência” com o SPFC em casos como o de Dagoberto, Guinazú e agora Forlán.
    Eu não acredito que isso seja fruto APENAS de uma boa administração e do tal programa sócio-torcedor de 100 mil torcedores. A conta NÃO fecha. Tem o SONDAS no pedaço lavando dinheiro, pode crer. Mas não dá IBOPE investigar certos clubes…
    Enfim, por todo esse contexto, dá pra entender a toda torcida contra o SCCP….porque se deixar esse clube ser bem administrado, o bicho pega pra concorrência.
    Abraço.

  • yassin

    Caro Basílio77,

    Se tem algo que nunca entendi e nunca vou entender é a saída do Riva em 74. Não faz sentido nenhum. Exatamente porque as coisas estavam muito complicadas é que o maior craque, um verdadeiro GÊNIO do futebol mundial, deveria ser preservado. O risco maior seria, aliás, o próprio Rivellino tomar a iniciativa de puxar o carro, de ir jogar em um time em que fosse campeão, para variar um pouco. Mas não foi, nunca foi esse o caso. Ele queria ficar. Mas, naquela circunstância, era impossível.

    Hoje, esquece.

    Sou um pessimista nesse sentido. Nunca mais teremos um cara desses defendendo o Corinthians. Mesmo que apareça um, será vendido em seis meses. É a dinâmica atual do futebol, dizem. Aí está o San7os , provando que isso é , basicamente, mentira. Quando o craque, o diferente, o acima da média e o clube querem, não tem negócio. E é isso o que está acontecendo com o Neymar. Não vejo, infelizmente, um cara como o Laor entre os que administram o clube. Vejo o caso do Castán, por exemplo. A proposta da Roma é ridícula. O jogador, no entanto, quer ir embora. Não há o que fazer.

    Lendo os jornais, começo a achar difícil a permanência do Paulinho também; esse é o fruto que você colhe quando você mesmo transforma o seu clube em um clube de aluguel. É uma excrescência total permitir que Paulinho vista a nossa camisa e que sejamos donos de meros 10% de seus direitos econômicos. Por melhor que seja o atleta, é absolutamente imoral permitir que o Corinthians seja usado como uma vitrine barata para empresários faturarem em cima do clube. E sem contrapartida nenhuma. Dá um desgosto enorme ver esse tipo de coisa. Com o Romarinho, ao que parece, foram mais precavidos. O caso do Paulinho vai ser uma lição dura. Será vendido por quase 10 milhões de euros, uma ninharia, e , ainda assim, ficaremos com 10% dessa quantia pornográfica. Não adianta agora criticar o empresário, como fez o nosso diretor. Ele não pode se queixar a ninguém, a não ser a si mesmo e a sua própria torpeza e incompetência.

    Bem, mas falávamos de craques das antigas, como é caso do Rivellino e desse Neymar, do San7os. Não há mais condição de se criar esse vínculo mágico entre craque e torcida. O mercado prevalece, sempre. Mesmo quando o clube não quer, o jogador acaba indo, pois deseja jogar na Europa. Esse é o sonho de 11 entre 10 moleques desta geração. Mais do que a Libertadores, eles querem ganhar a Champions League. Não dá pra competir com isso.

    Sobre o passado do Corinthians e os anos de jejum, não posso falar nada a não ser do que li e ouvi falar dos corintianos mais velhos. É por isso que tenho muito respeito por quem viveu isso. Não gosto nem de imaginar o que tal situação representaria para mim. As minhas memórias futebolísticas mais antigas remontam ao Sócrates, ao Zenon, Zé Maria, Wladimir, Biro Biro e Casagrande ,aquele moleque com jeito de roqueiro barbarizando com a 9. Falam tanto do Corinthians de 2000, mas , sincera e honestamente, não dá pra comparar. O time da Democracia Corintiana só perde para o de 54, que ganhou do Palestra o título máximo de campeão do centenário, era um time que só tinha craque.

    O time de 2000 era excelente, mas , convenhamos, estamos falando de lendas da história do clube. Temos que respeitar o currículo de um Marcelinho Carioca, mas, elegê-lo como ídolo máximo da história do clube beira a insanidade. Os mais novos têm esse defeito: eles pensam que o futebol têm a idade deles.

    Gamarra era um gigante, mas o Zé Maria, o grande nome daquela defesa, era o Super Zé. Quando acabou sua carreira, ao ver os torcedores disputarem sua camisa, ele disse: “Estão arrancando um pedaço de mim”. Rincón era consistente e confiante. Mas eu não troco o Biro Biro por ele. Eu me identifico é com o Biro Biro. Se o vir amanhã pela rua, vou pedir um autógrafo, vou tirar uma foto, vou dizer obrigado do fundo do meu coração por tudo o que ele representou dentro e fora do campo. Se encontrar com o Rincón, não vou ter nada pra falar pra ele. A forma como ele saiu do Corinthians para o San7os diz tudo o que se precisa saber sobre o que o Corinthians representava pra ele. O mesmo e muito , mas muito mais, pode ser dito para o Ricardinho.

    De qualquer forma, novos tempos acenam para a Fiel. A perspectiva é, no mínimo, instigante. A única pulga que fica atrás da orelha é que o Corinthians não tem uma tradição muito boa em relação a seus gestores. Se são novos tempos também em relação a isso, eu ” vejo a vida melhor no futuro”, parafraseando o Lulu San7os.

    Também sou adepto a que cada um cuide de seus assuntos. Não vejo lógica nenhuma em negociar absolutamente nada ao lado de dirigentes que querem nos ver na sarjeta. Eles que se virem , nós faremos o mesmo por nossa parte. Cada um cuide do seu. Desde que se respeite o que Lei observar.

  • BASILIO77

    Yassim, uma das “místicas” do nosso clube é a relação que existe entre ídolo, ex-jogador e o clube/torcida. Algo pra ser estudado. É como se NINGUÉM, NENHUM jogador, seja qual for, possa chegar perto de ser tão grande quanto a instituição e sua torcida.
    Quanto às saídas dos jogadores, é preciso levar em conta onde o clube estava há 3 anos atrás.
    SÉRIE B. SEGUNDONA!
    Os jogadores “fatiados” são uma realidade em TODOS os clubes, o que podemos exigir, em tão pouco tempo, do SCCP vindo de uma reestruturação total, desde a medula?
    Por isso que digo que a ADM. deve seguir evoluindo e na direção do saneamento TOTAL das finanças.
    Como voce disse, não temos boa “tradição” no que diz respeito à administração do clube. Sorte da concorrência.
    Mas acredito que as coisas boas vieram pra ficar. As eleições diretas devem ajudar, e espero que em breve, socio torcedor entre nesse processo.
    Um grande abraço.

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