A CONQUISTA PERFEITA



Texto publicado na revista-pôster do Lance! sobre o título do Corinthians, nas bancas desde a madrugada desta quinta-feira.

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CORINTHIANS LIBERTADOR

Você sabia, não sabia?

Desde fevereiro, quando a caminhada começou, você percebeu os sinais. Eles foram corintianamente claros. Talvez, ainda no início, em fevereiro, as coisas ainda estivessem muito distantes. Talvez você não tenha notado que o gol de cabeça de Ralf, aos 48 minutos do segundo tempo do jogo contra o Deportivo Táchira, foi o primeiro indício de que tudo já estava escrito. Estreia fora de casa, gol nos acréscimos, para aliviar a pressão.

Talvez até mesmo o que aconteceu contra o Cruz Azul, no México, tenha escapado à sua atenção. Sufoco mexicano no final do jogo, e Chicão tirou uma bola que estava em cima da linha do gol. Foi aos 45 minutos do segundo tempo e garantiu o empate em 0 x 0. Mais um ponto, mais um sinal.

Lembra do jogo das oitavas, como visitante? Emelec. Estreia de Cássio. Se ele não fosse bem, quem poderia culpá-lo? Foi quando você teve o primeiro contato com a inabalável tranquilidade e a discreta eficiência do goleiro. Cássio passou no teste como se jogasse no Corinthians e disputasse partidas de Libertadores por toda a vida. Fez algumas defesas difíceis naquela noite e ainda deu sorte numa cobrança de falta que subiu um pouco e bateu no travessão.

Gol marcado além do tempo, defesa milagrosa embaixo da trave, um goleiro com gelo nas veias… é claro que você identificou os sinais.

Vieram as quartas de final contra o Vasco, e até os menos atentos foram obrigados a registrar os contornos transformadores desta campanha. O jogo no Pacaembu estava algemado a um 0 x 0 angustiante, quando Diego Souza cruzou o campo com a bola dominada. Os corintianos mais próximos corriam atrás dele, enquanto Cássio, adiantado, o esperava para um duelo fatal. O chute buscou o canto, Cássio se esticou e acariciou a bola com os dedos da mão esquerda. Escanteio, e o Pacaembu recuperou o pulso. Pouco depois, o gol de Paulinho fez o estádio tremer e produziu o encontro com a Fiel no alambrado. Até quem não é corintiano sabe que, quando time e torcida se confundem, o Corinthians é uma força invencível.

Émerson Sheik marcou aquele golaço na Vila Belmiro, de curva, no ângulo, para somar classe e técnica ao time de lutadores incansáveis. E quando o Santos visitou o Pacaembu, outro teste de resiliência foi vencido com tranquilidade e a aparição de um jogador fundamental. Danilo, nascido para vencer, acomodou na coxa a bola cruzada por Alex e empatou o jogo. Ele já sorria antes de tocar para a rede, tomado pela enorme felicidade que levou a milhões de corintianos.

Para quem, mesmo depois de tantas provas, ainda não acreditava no destino traçado, o jogo em La Bombonera foi definitivo. Romarinho, contratado um mês antes, venceu todas as improbabilidades e apareceu na área do Boca Juniors, aos quarenta minutos do segundo tempo. Com uma cavadinha por cima do goleiro, deu a pincelada final na monstruosa jogada de Émerson. Foi seu primeiro toque na bola, dois minutos depois de entrar em campo. O empate sobreviveu a uma cabeçada argentina no travessão de Cássio, aos 46 minutos. Depois do gol de anjo de Romarinho, você sabia que aquela bola não entraria nunca.

Você sabia. Sabia que a noite da libertação chegaria. Com o Pacaembu lotado de tensão, de emoção, de paixão. E que o sentimento duraria para sempre. A primeira Libertadores a gente nunca esquece. Ainda mais quando é a conquista perfeita, invicta, derrubando o campeão do ano anterior e um fantasma de clubes brasileiros no torneio. A espera foi sofrida, parecia não ter fim. Mas foi recompensada com um título irretocável.

Corinthians libertador, livre da dor, dono da América.



  • Mursilha

    André, alguma chance de publicar em algum lugar o texto alternativo, se o Boca fosse campeão? Sou corinthiano, mas masoquista, claro.

    AK: Não há texto alternativo. A revista-pôster só chegaria às bancas em caso de título do Corinthians. Um abraço.

  • Guilherme

    Caraca emocionante !!! Parabéns

  • sandro gomes

    Muito bacana o texto, mas ele só contradiz o que o técnico Tite disse depois do jogo, de que nada havia sido obra do acaso. A verdade é que a sorte sorriu pro Corínthians desde o início, do sorteio das chaves ao péssimo dia do Boca na final. Só não sei se estamos falando de um esporte, pois mais parece obra de um grande acaso como tudo aconteceu. Claro que uma equipe campeã também tem seus méritos, mas acho que, numa competição normal (essa não foi), os méritos do Corínthians não seriam suficientes para levar ao título de uma competição com tantos clubes técnicos, competitivos e ofensivos, como o Fluminense, o Santos, o Vellez, o Inter e a La U. Pobre futebol atual que aqui na América e lá na Europa acaba chamando de grandes campeãs equipes no máximo esforçadas. Belos tempos em que os deuses do futebol puniam quem não jogasse visando os gols e a beleza do esporte. Abraços.

    AK: Desculpe. Nada no texto diz que foi obra do acaso. E acho um pouco complicado criticar uma campanha como a do Corinthians, principalmente pelo nível dos adversários que ficaram pelo caminho. Um abraço.

  • Fernando

    André, parabéns. Vai Corinthians

  • Rodrigo CPQ

    Eu tive (quase) certeza do título quando da expulsão do Tite (foi contra o Vasco?), quando ele comandou o time das arquibancadas. Me lembro de pensar exatamente assim, quando ele estava no alambrado, passando instruções: “essas coisas só acontecem quando o final é feliz, é impossível esse time não ser campeão”. Claro que tive umas 37 dúvidas e meia nesse tempo, mas naquele momento eu senti que poderíamos chegar. E chegamos!

  • BASILIO77

    Sim André, eu reconheci os “sinais” durante a competição.
    Mas se tratando de libertadores, onde nosso histórico é de “sinais negativos”, até o último jogo, TUDO poderia acontecer…ainda mais com o “senhor libertadores” do outro lado, o BOCA.
    Eu tava cabrero, mesmo lendo os sinais. POR ISSO O FUTEBOL É FANTÁSTICO. Sempre haverá a dúvida. Era TODA a tradição do Boca contra esses “sinais”. Tensão total.

    Depois de ver meu time dando tantos “presentes” aos adversários, em outras edições da CLA, falhas grotescas, gol contra e expulsões infantis….ontem, NÓS é que recebemos um presente do adversário, Schiavi…MAIS UM SINAL.
    O último, definitivo.
    MERECIDO. INCONTESTÁVEL.
    Os “caras” podiam ficar calados…só dessa vez…ver e aceitar a vitoria Corinthiana. Mas não vão, já teve um “bolha” comentando. Fazer o que…

    Parabéns à Copa Libertadores da América, à Conmebol e aos patrocinadores, depois de 52 edições conseguiram finalmente conquistar o Sport Club Corinthians Paulista.
    Abraço.

  • BASILIO77

    Ah, acho que o Schiavi deve ter recebido uma grana do PT da China…

  • Julio

    Sandro Gomes, relaxa cara, vai tomar alguma coisa e para de se preocupar com o “futebol feio” do Timão.

  • Rodrigo CPQ

    Boooooooooooooooooooooooa Basílio… heheheh

    Agora, na boa: 14 jogos, nenhuma derrota… vice campeão brasileiro, o então campeão da libertadores e o Boca ficaram pelo caminho… e vem falar de sorte?? Sinto muito cara, mas se o Fluminense, o Santos, o Velez e La U não chegaram, foi por incompetência deles e mérito dos adversários.

  • Alexandre

    O Corinthians começou a ser campeão quando o Tite não foi demitido após o Desastre de Ibagué e botou a mão na Taça quando o Diego Souza perdeu o duelo com o Cássio.

  • Alexandre

    Sheik12,
    Esse time do Tite é insecável. E o legítimo campeão.

  • jose carlos

    e isso Andre e Basilio ,os sinais estavam ali,mas como vc (basilio) tambem estava cabreiro………..

    abracos

    ps:2 Andre,parabens pela renovacao,e a nova coluna.

    quando teremos novo post,no mais gelo?

  • Inacreditável, André. Não… O título é crível, é factível e é mais que merecido. Agora (desculpa SPFC, minha vida), seu texto é arrepiante, mesmo quando fala do nosso maior rival. Repito: inacreditável, André!
    Um abraço.

  • Rodrigo CPQ

    Alguém mais viu semelhança entre o lance do segundo gol do Emerson e o lance perdido pelo Diego Souza? A distância a percorrer era menor, isso é fato, mas o resto do desenho do lance é parecidíssimo. Se o goleiro do time do Boca tivesse as raquetes do Cássio, teríamos um lance mais parecido ainda…

  • Gustavo Xavier Almeida

    Sou SPFC e pela primeira vez na vida não consegui torcer contra o Corinthians.
    parabéns TITE (HUMILDE, CORRETO, TRABALHADOR), ANDRÉS (pela manutenção do tecnico mesmo pós-TOLIMA), JOGADORES (raça, união e comprometimento)
    Especialmente TORCIDA, foi um festa linda…minha cidade (FRANCA,SP) parecia final de COPA-DO-MUNDO;

    inesquecivel e MUITO, MAS MUITO MERECIDO

    SEJA BEM VINDO AO CLUBE SCCP

  • Elidio

    AK, chega a ser irritante seu poder de bricar com as palavras. Excelente! Ao nosso colega Sandro Gomes, Nosso singelo pedido de desculpas: nunca pensamos em magoar vc. Lutamos para nos mesmos. Abc.

  • Juliano

    Nas oitavas indaguei, “será que isso não é a tal ‘sorte de campeão’?”.
    “É cedo para afirmar”, me disseram. Já detectava os sinais. Todos tinham cautela em alertar, pois, o Corinthians sempre deu razão ao “nunca serão”. Contra o Vasco ficou ainda mais claro. Contra o Santos (com elenco medonho e a imprensa ainda citando o “futebol arte” como se fosse o time de 2010 – pois em 2011 o time já não era arte, mesmo vencendo a Liberta, este ano então…) ainda tentavam dar ao alvi-negro praiano o favoritismo, mesmo “pequeno”. Nunca entendi pq. Estariam cegos? O favoritismo/superioridade do Corinthians era evidente. A final foi mero cumprimento de protocolo. Daria Corinthians, de qualquer forma, mesmo que nos penaltis. Nunca foi tão fácil, esse time só não fez mais no Santos e no Boca porque respeitou demais a camisa. Talvez por isso mesmo tenha conseguido, finalmente, sagrar-se campeão.

  • yassin

    Boas, leitores do blog e ao AK.
    Futebol é mesmo engraçado. Torci como um demônio, estou com a alma lavada.
    Mas é estranho: ao mesmo tempo, ainda tenho em relação ao Tite muitas reservas. Aprendi a respeitá-lo, a bem da verdade. Diante de fatos consumados, a crítica do torcedor se torna pueril.
    Tite venceu um Brasileiro e uma Libertadores. Serei eternamente grato a ele por isso.
    No entanto, me parece que Tite não adota este estilo de jogo por conta das características de seu grupo. É uma questão ideológica mesmo.
    Ontém, no segundo tempo, ganhávamos de 2X0 e o Boca estava entregue, com o meio totalmente aberto pela saída de Ledesma e com Riquelme se arrastando pelo gramado.
    Ainda assim, Tite não abriu mão de seu esquema tático e deixou Romarinho no banco.
    Fico me perguntando até agora o que teria acontecido se ele tivesse substituído Romarinho pelo Danilo ou Alex.
    Pela forma como o Boca jogava, completamente aberto, seria um convite e tanto para que Emerson pudesse infernizar anda mais a cansada zaga xeneize, desta vez em companhia mais qualificada em termos de velocidade , que era o que o jogo pedia.
    Ganhamos o jogo e a Copa, mas perdemos uma boa chance de espancar um time argentino de forma histórica.

  • Eu ainda só consigo chorar de emoção lendo esse magnífico texto… =´)

    Mas hei de voltar para comentar, quando meu emocional permitir!!!!

    É, CAMPEÃO! (Libertadores)
    É, CAMPEÃO! (Libertadores)

  • Matheus Brito

    A conquista foi perfeita, pois teve uma defesa quase perfeita, uma estrela (a do Tite) perfeita, teve Sheik e teve algo de sobrenatural, algum fantasma (talvez o Sócrates) que tirou aquela bola do Diego Souza e a cabeçada aos 40 e todos do segundo tempo na Bombonera. Campanha irrepreensível, incontestável, principalmente por quem ficou no caminho.
    Lógico que contou com a sorte, qual time campeão não conta com ela?

    AK, por que vencer Libertadores jogando bonito é muito mais difícil do que vencer a Champions dando show?
    A conquista foi, como você disse e eu corroboro, incontestável. Já o futebol nem tanto. Mas não só do campeão. Jogos emocionantes mas feios demais. Quem ainda jogou uma bolinha foi a LAU. Ainda assim ficou pelo caminho. Dos demais como Vasco, Santos, Inter e Fluminense eu esperava mais bola, mais jogo. Do Corinthians, fora o título, sabia-se que o futebol seria esse, pois é um estilo que independe das peças. Muita força nas jogadas aéreas, muita marcação (e põe muita nisso) e muita objetividade (chegar uma vez e marcar parece ser o lema).
    Parabéns ao Corinthians. E que o desmanche pré-anunciado não se concretize, tal qual está ocorrendo com o Vasco.

  • Edouard

    Ouvi dizer que o Tite ofereceu aos jogadores uma escolha antes do jogo, no vestiário.
    Eles podiam optar por tomar uma pílula azul ou uma vermelha. Perguntou a eles: “Do you want to know what it is?”
    Não é difícil imaginar o que aconteceu.
    Um abraço.

  • Bruno – SP

    André, parabéns pelo lindo texto. Parece que um peso, embora abstrato, saiu das costas do corintiano com o inédito título. É assim que sinto, mais leve, solto. Penso que o Tite preparou muito bem a equipe para disputar a Libertadores. Desde o início dizia que “A libertadores tem que ser uma ambição, e não uma obsessão”. Conduziu isso muito bem.

  • Lucas

    Demais, André! Parabéns pelo belo texto que retrata fielmente (sem trocadilho…rsrs) nosso caminho rumo à essa glória inédita e que desde os anos 1990 esteve entalada na nossa garganta. E sim, eu percebi TODOS os sinais que vc bem lembrou, inclusive os dos jogos da fase de grupos, contra Táchira e Cruz Azul.
    Valeu, abs!

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