COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

GOL DE ANJO

De tempos em tempos, o futebol nos apresenta imagens que não estamos preparados para processar. Não importa o que já vimos ou nossa relação com o que vemos. Há cenas que acontecem e desafiam nossa compreensão. Que precisam da repetição para que fiquem registradas devidamente como fatos.

Pense no que Romarinho fez na noite da última quarta-feira. Não é “apenas” o gol, logo depois de sair do banco. Um jogador entrar em campo e mexer no placar três minutos depois é coisa relativamente corriqueira. Não é o gol num jogo decisivo. A história do futebol é escrita pelos nomes que surgem em momentos importantes. Não é o gol em La Bombonera. Vários forasteiros já marcaram lá. É tudo isso junto, e mais a sequência de improbabilidades que conspiraram para que o menino estivesse ali, dentro da área do Boca Juniors, destinatário de um passe assombroso de Émerson. É a noção de que Romarinho não deveria estar lá.

Romarinho foi contratado pelo Corinthians há um mês. Se no dia em que se tornou jogador do clube, alguém lhe dissesse o que aconteceria na noite de 27 de junho, ele certamente duvidaria. Tudo está ligado à estreia como corintiano, no clássico de domingo passado contra o Palmeiras. O dia em que se apresentou para a torcida. Não são “apenas” os gols. Ele não foi o primeiro a marcar duas vezes no maior rival, no mesmo jogo. A diferença é como. De letra, para empatar. E com um chute no ângulo para virar a partida. A chance de jogar no time reserva foi um teste, um ensaio para desafios maiores. Na hora de mostrar o que sabe, quando um desempenho regular basta na maioria dos casos, Romarinho brilhou.

É provável que, com ou sem os gols, ele já estivesse nos planos para o jogo em Buenos Aires. O fato é que Romarinho tomou a decisão por Tite. Garantiu seu lugar no avião. Mas, num grupo de 23 jogadores, seu envolvimento com a partida contra o Boca ainda dependia de que algumas portas se abrissem. Primeiro, passar pelo corte e ir para o banco, junto com outros seis companheiros. Depois, jogar.

Tite optou por Romarinho entre os reservas, no lugar de Willian. Evidente que os gols no clássico pesaram. Com o Corinthians perdendo por 1 x 0, já nos últimos minutos, o técnico decidiu substituir Danilo. Normal seria a entrada de Liedson, mas o atacante já estava em campo por causa da lesão de Jorge Henrique, ainda no primeiro tempo. E mais uma porta se abriu.

Romarinho pisou no gramado aos 37 minutos. Se nada fizesse, ninguém o culparia. O que poderiam querer? Que ele marcasse um gol no primeiro toque na bola? O inacreditável desfecho teve a colaboração de Paulinho e Émerson, e só foi possível porque Romarinho escolheu a ambição em vez da cautela. Poderia ter acompanhado o lance pela lateral, se oferecido para uma jogada de linha de fundo. Pensou no gol, correu para gol. E fez o gol, com uma vaselina por cima do goleiro.

Final da Copa Libertadores. La Bombonera. Quarenta minutos do segundo tempo. Romarinho não deveria estar lá. Mas estava.



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