O ACASO VESTE A 5



Por Diogo Tressoldi Camargo*.

Assistindo com atenção a Eurocopa e o jeito de jogar das principais seleções, se consegue notar claramente como estará o futebol em 2014. Naturalmente, Lionel Messi fica de fora desta discussão, pois, além de não jogar a Euro, não há teoria que fique de pé se ele resolver acabar com o jogo.

Nos últimos anos Xavi foi o legítimo representante da escola de futebol que (felizmente) prevaleceu no futebol mundial. É o porta-voz genuíno do “jogo de posição” que consagrou Guardiola e o Barcelona. Como em qualquer segmento esportivo e até mesmo empresarial, o resto dos competidores (leia-se a maior parte da Europa) tratou logo de reproduzir o conceito que funciona e se transforma em resultado. Não entro no mérito se o conceito está funcionando ou não para os outros times, mas ninguém discute que ele está lá. É a espécie do gênero “jogo coletivo”, que todo treinador e comentarista adora mencionar.

O conceito mencionado parte de uma premissa básica: seu volante precisa de técnica e deslocamento. Se tiver dois volantes assim, melhor ainda. Ele não precisa saber (ou querer) dar um drible sequer, mas deve saber passar a bola, carrega-la com eficiência algumas vezes e, principalmente, não ter preguiça de se movimentar o tempo todo. Não custa lembrar: o futebol mudou. Esqueça o jargão “motor do time”, porque correr e desarmar simplesmente não resolve mais, pelo menos não na Europa, e em breve não resolverá também na América do Sul (Corinthians e Univ. do Chile são os melhores exemplos por aqui). 

Temos uma dificuldade enorme de nos livrarmos do volante raçudo, que desarma muito, corre uma barbaridade e que o torcedor adora. E isso continua estimulando a produção deste tipo de jogador no Brasil. Trocá-lo por um jogador técnico, de bom passe mas com menos atributos defensivos parece um crime. Ainda mais se o sujeito não for volante de origem. Não entendo tal resistência. É possível fazer um jogador criativo marcar (a maior prova disso é o alemão citado abaixo). Não é possível fazer com que o seu volante “pegador”, o seu Williams, coloque a bola no chão e saia trocando passes (certos) por aí.

Se Xavi é o melhor representante da escola de jogo coletivo baseado na posse de bola, Schweinsteiger – que era jogador de lado de campo no início da carreira – traz com ele a versão 2013, melhorada, moderna, tremendamente eficiente. Na comparação, se Xavi tem – de fato – mais talento para o passe improvável, para o drible curto, o alemão (que também é ótimo no passe) é mais forte e finaliza melhor (e mais vezes). Estatisticamente, não corre mais do que a média do time inteiro, mas a impressão é de que está com a bola o tempo todo. Não é assim com Xavi? Será por isso que Espanha, Alemanha, Barcelona e Bayern decidem tantos campeonatos desde 2008?

A Euro 2012 parece mostrar o óbvio (que não é tão óbvio assim): o jogo coletivo voltou a dominar o futebol mundial. E vai continuar dominando, em grande medida por causa destes “geradores de jogo”, que são a peça-chave da estrutura, o verdadeiro pulo do gato. Desconfio que a resistência do brasileiro em aceitar esta realidade, especialmente com relação ao papel do volante, nos fará chegar a Copa sem um jogador como Xavi ou Schweinsteiger, ainda que em versão piorada. E isso pode muito bem nos custar o título, ou, na visão do otimista, nos fará depender (mais de uma vez) do circunstancial, do drible que pode ou não sair, da bola parada. É claro que há esperança, afinal, como já disse Tostão, “a bola entra por acaso”. Só não quero pensar como será se o acaso, traiçoeiro que é, decidir não aparecer no mundial.”

(*) Diogo é leitor do blog e gosta de escrever sobre futebol. Agradecemos a gentileza de enviar-nos o texto, que trata de um tema que costumamos abordar por aqui.



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