COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BOCA GRANDE

Haverá um time brasileiro na final da Copa Libertadores. Não sabemos qual. Também não podemos garantir quem estará do outro lado, mas a aposta é muito mais fácil do que investir em Corinthians ou Santos: o Boca Juniors está próximo de sua décima decisão continental.

A vitória por 2 x 0 sobre a Universidad de Chile, anteontem, em Buenos Aires, tem todos os contornos de morte anunciada para o bom time chileno. E pode ser usada como material de estudo sobre este Boca, uma equipe diferente daquelas que o espectador ocasional se habituou a ver.

Se sua impressão do Boca Juniors é a de um time que oprime adversários com uma pressão sufocante, que faz com que os visitantes saiam da Bombonera sem entender direito o que aconteceu, apague-a. Foi-se o tempo de boxeador que procura o nocaute. O Boca atual prefere vencer por pontos. Sem pressa e sem dúvidas.

A postura tem produzido conclusões do tipo “o Boca não é mais o mesmo”, conceito precipitado e preguiçoso. Não convém duvidar da capacidade da equipe que eliminou o Fluminense. Pior ainda se a origem da dúvida for falta de informação, numa era em que conhecer um time de futebol é uma simples questão de vontade.

O provável finalista da Libertadores não faz marcação alta e nem se preocupa em controlar a posse, mesmo quando joga em casa. A especialidade é fechar espaços, desarmar e contragolpear. O perigo está na qualidade do trato quando tem a bola. Sob as ordens de Riquelme, o Boca ataca muito bem pelos lados do campo, em jogadas que procuram a finalização de Santiago Silva. Somoza é um marcador eficiente, Mouche e Ledesma criam problemas.

Desse modo, a U. de Chile é o adversário “perfeito”. O campeão da Copa Sul-Americana tem convicções absolutamente ofensivas, joga um futebol coletivo que oferece campo ao adversário. Na quinta-feira, deu espaço ao dono da casa e pagou caro. Ao contrário do que se poderia imaginar, o fato de o jogo de volta ser em Santiago não necessariamente melhora as chances dos chilenos. A necessidade de recuperar a diferença de gols obriga La U a correr riscos. É tudo o que os argentinos querem.

Se pudesse determinar a ordem de seus confrontos, o Boca provavelmente optaria por jogar primeiro em casa, sempre. A histórica tranquilidade para atuar como visitante tem um efeito relaxante no momento de abrir um mata-mata. Não se vê uma equipe apressada para construir resultados, nem abatida quando sofre um gol. O jogo de volta na casa do adversário – onde é imune a pressões extracampo – é quando o “gol qualificado” entra de fato em ação para decidir. A cada classificação garantida ou título conquistado em gramados estrangeiros, a confiança aumenta. Uma coisa se alimenta da outra.

Não, este não é o melhor Boca que você já viu. Mas é o melhor dos últimos anos. Confiante sem ser presunçoso, consciente dos próprios limites, busca o placar que lhe interessa sem desviar de seu plano de jogo. E tem camisa.

Simpatizantes do time brasileiro que se classificar na quarta-feira têm por que torcer na noite seguinte. Por um milagre chileno.



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