COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

URUBUS

Não tente procurar os culpados no fracasso de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo. Não é necessário. Basta identificar os envolvidos, sem exceção. Falta de profissionalismo de um lado, falta de competência do outro, falta de responsabilidade de ambos. O que mais há nessa história é falta. E mesmo assim, surpreende o tamanho do buraco, a vertigem da queda.

Quando Ronaldinho foi apresentado na Gávea, em janeiro de 2011, ele já não era um jogador de futebol profissional, no sentido “trabalhista” da expressão. Sua carreira já era mais parecida com a de um cantor decadente, que vive do nome e não da música. Abastecer as conversas de bar com informações sobre as aventuras noturnas de R10 é algo que deveria aumentar o constrangimento de quem hoje dirige o Flamengo, pois nada pode ser apresentado como novidade. Quem contratou, e estava ali sorrindo ao lado das popozudas e capitalizando o “Flamengo é Flamengo”, deveria saber o que fazia.

Ronaldinho deixou o Barcelona em julho de 2008 por vontade do clube. O plano era recuperar a cultura de humildade e mangas arregaçadas no vestiário e construir o futuro em torno de Lionel Messi. Na transição de Frank Rijkaard para Pep Guardiola, muitos jogadores foram substituídos, por motivos distintos. No caso de Ronaldinho, concluiu-se que o brasileiro já não era um bom exemplo para Messi, que o tinha (e tem) como amigo. Isto se deu há quase quatro anos. Entregá-lo, hoje, ao torcedor, como um irresponsável que desonrou a camisa do Flamengo é tão fácil quanto vexatório. Dirigentes, lembremos, têm a obrigação de tomar decisões que protejam os interesses do clube.

Talvez fosse otimismo exagerado imaginar que Ronaldinho seria sucesso dentro de campo. Mas que só tenhamos um jogo para guardar de seu período como rubro-negro é inacreditável. Naquela noite na Vila Belmiro, alguns fatores conspiraram para uma atuação de máquina do tempo. A presença de Neymar do outro lado e a transmissão em rede nacional reacenderam uma chama. Que se apagou tão logo o jogo acabou.

É muito pouco para o que o Flamengo vendeu para a maior torcida do Brasil. Mas é mais do que o Flamengo fez para, pelo menos, vender a passagem dele pela Gávea. Como as pessoas que “trabalham” no marketing do clube explicam a inexistência de ações com Ronaldinho? Como não há um mísero patrocínio pessoal? E já que estamos no tema, como o Flamengo pode não ter um patrocinador de camisa? Se a timidez e o baixo rendimento de R10 dificultam a comercialização de seu nome, convém perguntar, de novo: qual é a novidade?

O caso ilustra com perfeição o horror que cartolas brasileiros têm de mecanismos que os responsabilizem por gestões devastadoras, como a de Patrícia Amorim. Se a nobre vereadora tivesse de responder por afundar o clube em mais R$ 40 milhões, certamente pensaria melhor antes de assumir tamanha dívida trabalhista em nome do clube. Mas quando o Flamengo for executado, a dona da assinatura estará longe. No máximo, enriquecerá seu currículo com uma versão de “essa não é mais minha, aspira”.

E sempre poderá dizer que foi vítima de preconceito por ser mulher.



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