COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ERRO DE LEITURA

A pergunta era sobre a competitividade do Corinthians, mas veio acompanhada de um comentário ilustrativo: trafegavam pelas redes sociais algumas comparações entre o Chelsea e o time de Tite. Contrariado, o treinador foi ao ataque. Disse que “o Corinthians não faz igual ao Chelsea, não faz antijogo, não enfia a bunda lá atrás e fica esperando um gol achado”. Tudo aconteceu enquanto Paulinho ainda fazia o Pacaembu tremer.

Tite está certo. E está errado. Comecemos pelo erro. “Antijogo” é violência, cai-cai, cafajestice. É um conjunto de comportamentos que ameaçam o jogo. Rolar uma segunda bola para dentro do campo no momento do contra-ataque adversário, fingir contusões, simular agressões. Coisa de quem só pretende ganhar, não merecer. Coisa que o Chelsea não fez. Se Tite usou o termo com essa conotação, equivocou-se.

O que o Chelsea fez na Liga dos Campeões, especialmente nas duas partidas contra o Barcelona, foi recusar-se a jogar. É o expediente de quem se reconhece como inferior e incapaz de atingir seu objetivo de outra maneira. A ideia consiste em estacionar um coletivo na frente da área, lutar como se não houvesse amanhã e esperar um erro do adversário que abra as portas de um contragolpe. É o mais próximo do handebol que o futebol se permite chegar. Não é antijogo, é anti-adversário. Mas é feio, do ponto de vista de quem acredita que este jogo foi criado para … jogar. Talvez a intenção de Tite tenha sido fazer essa crítica.

Contra o Bayern, o Chelsea foi um pouco mais participativo, mas aplicou o mesmo plano de entregar a bola ao adversário e apostar na própria sorte e no azar alheio. É normal que se defenda essa postura como algo legítimo, porque não fere as leis do jogo e reflete, em muitos casos, o único recurso que um time tem para competir. Pessoalmente, não creio que o Chelsea teria alcançado a decisão da UCL se tentasse encarar o Barcelona. Mas algo está errado quando um time construído com orçamento infinito não tem outra opção a não ser recolher-se a seu campo e especular. Ou, em outras palavras, “enfiar a bunda lá atrás e ficar esperando um gol achado”.

Tite está correto ao dizer que o time dele não joga assim. O Corinthians tem duas maneiras de atuar. Como mandante, domina a posse de bola, pressiona no campo de ataque e impõe seu volume ao oponente. Fora de casa, defende-se com linhas mais recuadas e contra-ataca. Ganhou um Campeonato Brasileiro e classificou-se para as semifinais da Copa Libertadores com essas propostas. É compreensível que Tite se irrite com a comparação, principalmente se a origem do raciocínio é a competência na defesa. Erra quem vê o recém-coroado campeão europeu como um modelo de futebol defensivo. Confusão de resiliência com eficiência.

Times que marcam bem não só tomam poucos gols, como correm poucos riscos. Dependem menos da sorte. Bom exemplo é o Vélez Sarsfield, nos dois jogos contra o Santos. Reféns da obviedade dirão que o time argentino perdeu, e o Chelsea ganhou. São os mesmos que enxergam as semelhanças que irritaram Tite.



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