CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

MAIS UM

O treinador argentino Marcelo Bielsa diz que “o futebol é o esporte mais popular do mundo porque uma mesma causa pode oferecer diferentes efeitos. A maioria das coisas não acontece como imaginamos. Há muito de casual”.

A preferência do futebol pela casualidade se fez presente ontem no Engenhão, ao produzir o gol do Fluminense. A bola chutada em cobrança de falta por Carleto, de longe, só encontrou o canto direito do goleiro Orion por um capricho. Um desvio na barreira do Boca Juniors significou a diferença entre o 0 x 0 e o placar que encaminhava o jogo para os pênaltis.

Eram 17 minutos do primeiro tempo e o Fluminense não poderia querer nada melhor. Para o copeiro Boca, o gol mudou o placar, mas não os planos. Bons times argentinos têm uma virtude que os caracteriza: não confundem desejo com execução. As convicções que se traduzem numa ideia de jogo não sofrem alterações por causa de ocorrências normais como um gol, mesmo que seja casual.

O Boca Juniors foi ao Engenhão para controlar o confronto, o que é diferente de controlar o jogo. O 1 x 0 em Buenos Aires, qualificado por tantos como um resultado frágil, lhe permitiu ser calculista no Rio de Janeiro.

A possibilidade de um gol do Fluminense era considerada. Certo sufoco, consequência natural, também. Proibido era perder a calma, a concentração, e abandonar a organização na busca de um gol que não tinha hora marcada para acontecer.

Semelhante confiança nas próprias qualidades faltou ao Fluminense. A ausência da medida certa na dosagem entre proteção e agressividade levou a uma postura tímida, um time que só criou duas chances (uma com cada Rafael) para aumentar a vantagem.

O Boca sentiu-se à vontade no Engenhão para ser atrevido até nos momentos finais, quando os pênaltis se avizinhavam. Atrevimento de quem sabia que só precisava de um gol. Riquelme teve poucos segundos de lucidez para lançar Rivero, e o gol de Santiago Silva saiu no rebote. Último minuto, quando o tempo que restava servia apenas para contemplar o destino inevitável.

O Fluminense, pelo sucesso em 2008 e pela vitória deste ano na Bombonera, parecia imune ao Boca Juniors. Mas é mais um time brasileiro a sofrer, em casa, nos pés dos xeneizes.

Não é casualidade.

INIMIGOS

A campanha que a diretoria do São Paulo faz contra o próprio técnico do clube – que envolve o “vazamento” de informações fiscais de Émerson Leão – não conseguirá apagar ou esconder o principal: foram os dirigentes que criaram um conflito interno no momento em que retiraram um jogador da concentração. Todas as declarações públicas posteriores foram apenas posturas, maquiagens, de quem sabe que errou. A realidade é diferente.

REFORMA

A notícia de mais uma cirurgia no joelho de Paulo Henrique Ganso é obviamente decepcionante. Esta parecia ser uma temporada livre dos atrasos provocados por problemas médicos. Ganso já perdeu muito tempo de carreira tendo em vista sua pouca idade. Fica aqui, uma vez mais, a torcida para que sua saúde permita o desenvolvimento de seu talento. Que o procedimento de amanhã solucione as dores que ele sente ao treinar e jogar.



  • teorico da conspiração

    AK, investiga aí….quem sabe você acha um escandalo sexual do Neymar…kkkkk pra parar o cara só assim mesmo….kkkkk

    pro ufanistas de plantão é só brincadeira, viu????

    AK: Esse não é exatamente o meu “campo de trabalho” (rs). Um abraço.

  • Dyl Blanco

    Bielsa restringiu ao futebol a casualidade, mas as imagens em super slow e alta definição ampliam as casualidades. Assistir jogadores de voleyball colocando a bola a mílimetros da linha com olhos fechados na hora da pancada confirmam a amplitude da casualidade no esporte. Em todos os outros esportes é possível perceber também o imponderável. E por que no futebol ele salta aos olhos até por quem está presente no estádio, sem nenhum recurso de imagem à disposição?
    Desde o nascimento somos treinados para lidar com a casualidade, evitando acidentes e situações de risco, e mesmo quando ocorrem, aprendemos a contorná-las, minimizando prejuízos e sequelas. É essa administração que dimensiona o tamanho do sucesso a se obter.
    Então podemos acrescentar à colocação de Bielsa que o futebol é tão apaixonante porque reproduz fielmente a luta pela sobrevivência, em todos os aspectos.

  • Nilton

    Sobre Acaso e Casualidade, nas palavras do Tostão.
    “Essa é a grande dificuldade do Barcelona. O time é tão organizado e único na construção das jogadas, que, raramente, faz gol por acaso. “

  • Marcel de Souza

    A sua análise dos (bons) times argentinos é perfeita e por esse motivo os admiro tanto! Acho incrível como esses times mantém o foco mesmo tomando gol na casa do adversário e como eles pensam no confronto realmente em 2 jogos. Os times brasileiros ainda não tem essa capacidade, se fala muito em “jogo de 180 minutos”, mas na verdade para os times brasileiros sem dúvida parece que as coisas acontecem ao acaso, não seguem um plano claro para alcançar o objetivo. Enfim, vamos ver se o Boca chega na final pra pegar outro time brasileiro. Tanto contra Santos ou Corinthians o jogo será muito interessante!

  • RENATO

    A camisa do Boca tem que ser respeitada, não há a menor dúvida.
    A importância da libertadores também não se pode negar.
    Mas a imprensa não se pode esquecer da arbitragem do jogo de ida. Aquilo também não foi casualidade.
    A importância da libertadores não pode estar acima de tudo, as críticas deviam ser proporcionais à importância da competição.

    Caso o que aconteceu no jogo de ida, tivesse acontecido numa competição organizada por nós, brasileiros, ainda estaria se discutindo o que aconteceu na bombonera.
    A Conmebol só elevará o nível de organização/arbitragem da CLA se for forçada a isso. E o papel crítico da mídia é fundamental num suposto processo de evolução da competição mais importante do continente, mas que ainda mostra aspectos muito negativos, não condizentes com sua relevância esportiva.
    Abraço.

  • Willian Ifanger

    Ler seu texto depois de ver o jogo Santos x Velez só ratifica ainda mais sua bela análise.

    Eu acho simplesmente incrível como esse times argentinos tem uma consciência tática absurda; se doam de corpo e alma pra cumprir o planejamento técnico; e tem um controle psicológico incrível.

    Em todos esses aspectos ainda estamos muito distante de argentinos….e um pouquinho menos de uruguaios.

    Belo texto, André.

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