COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

JOGOS VIRTUAIS

O futebol do ar rarefeito desceu a montanha e levou 14 x 0. Um passeio desagradável pelos países baixos da América. Este foi o placar agregado das derrotas do Bolívar e do Deportivo Quito, os dois times das alturas que disputaram seus últimos jogos nesta edição da Copa Libertadores.

Os bolivianos, após a vitória por 2 x 1 e a exibição de maus modos nos 3.650m de altitude de La Paz, foram repreendidos pelo Santos, na Vila. A demolição de 8 x 0 foi a resposta mais adequada – na bola e sem piedade – que o melhor time brasileiro poderia oferecer. O Bolívar entrou para a lista dos times humilhados não apenas por falta de capacidade, mas por falta de educação. Não fosse o tratamento dispensado ao Santos no estádio Hernando Siles, talvez Neymar e Ganso tivessem parado em respeitáveis 4 x 0.

A desgraça dos equatorianos foi menor em números, mas igualmente chocante. Venceram a Universidade de Chile em casa, 2.800m acima do nível do mar, por 4 x 1. Detalhe: fizeram dois gols quando jogavam com um homem a menos. Em Santiago, tomaram o tenístico placar de 6 x 0.

São times bipolares? Não. Não há discrepâncias em seus comportamentos dentro e fora de casa. O que explica, aí sim, a enorme diferença de desempenho relacionada ao local do jogo é o comportamento do adversário. A altitude e seus efeitos são os jogadores mais perigosos das equipes que atuam nas nuvens.

Sim, a amostra é pequena. Mas uma olhada sem compromisso nos números de Bolívar e Deportivo Quito já mostra sinais de um padrão interessante. Contando os jogos de oitavas de final, a equipe boliviana ganhou 9 pontos em seu estádio: 3 vitórias e 1 derrota, com 8 gols a favor e 5 contra. Em viagem, somou 4 pontos: 1 vitória, 1 empate e 2 derrotas, 3 gols marcados e 11 sofridos.

O contraste dos resultados do time equatoriano é ainda maior. Venceu todos os quatro jogos em casa, em que marcou 14 gols e só sofreu 1. Fora, não ganhou nenhuma partida: 1 empate e 3 derrotas, com 1 gol a favor e 10 contra. Alterado pelas condições do ar que se respira, e sem a devida adaptação das equipes visitantes, o futebol na altitude é feito de jogos que não são reais.

A questão é médica e, mais do que tudo, política. Toca no direito de cada clube (ou país, no caso das Eliminatórias da Copa do Mundo) de mandar jogos em sua casa, e em estudos científicos que apresentam resultados distintos quanto ao risco de submeter atletas não aclimatados a altitudes extremas. O contra-argumento do calor – ainda que não exista cenário em que a mudança de ambiente seja comparável – é lembrado para equilibrar a conversa.

Mas o ponto, aqui, não é a saúde dos jogadores. É o sentido da competição. É a validade de partidas em que as dificuldades não são iguais para os dois participantes, por causa de fatores externos. É a mágica que produz resultados tão semelhantes quanto 2 x 1 e 0 x 8, em dois jogos entre os mesmos adversários.

Obrigar os times das nuvens a mandar jogos em altitudes mais razoáveis não resolverá o problema nas competições entre clubes. O argumento usado será o do direito de ser mandante, mas o real motivo é o medo de ser goleado “em casa”.



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