COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

COMO UMA VIRGEM

Era maio de 2009, estávamos no auge do “Madonnagate”. Marco Polo Del Nero cumpria suspensão de 90 dias, imposta pelo STJD, por seu envolvimento no obscuro episódio que impediu que o árbitro Wagner Tardelli apitasse o jogo entre Goiás e São Paulo, na última rodada do Campeonato Brasileiro do ano anterior.

À época, Del Nero não ousava sonhar que o dirigente mais poderoso do país fugiria para os Estados Unidos, deixando vaga a cadeira que hoje ele ocupa, por intermédio de outra pessoa. O presidente da FPF era apenas mais um político do futebol, dedicado a projetos pessoais de poder e a pactos de ocasião. Um deles, é claro, o alinhava a Ricardo Teixeira, e o transformava em inimigo do São Paulo.

Você conhece a história. A “material girl” se apresentaria no Morumbi, em dezembro de 2008. Os ingressos enviados pelo São Paulo para a sede da Federação Paulista, uma praxe, foram confundidos (sabe Deus como) com um envelope que continha uma reclamação formal do clube contra um árbitro. Informado por sua secretária sobre “o envelope”, Del Nero viu por bem procurar o Ministério Público, às vésperas da rodada final do BR-08. E deu-se o caos.

Del Nero estava em apuros. Enquanto seu recurso da suspensão não era apreciado pelo Pleno do STJD, o cartola tentava digerir o risco de se tornar o primeiro dirigente importante – de futebol – brasileiro a ser impedido de ocupar seu cargo por conduta imprópria. Nas salas da sede da FPF, e em ambientes menos formais, entre amigos, Del Nero confessava: “Fiz uma grande cagada. Preciso consertá-la”.

A Justiça Desportiva consertou, reformando a decisão da Terceira Comissão Disciplinar e inocentando Del Nero. Decisão que solucionou metade do problema. A outra metade é também uma reforma, mas das relações com o Morumbi. O que nos leva às finais deste Campeonato Paulista.

Antes, é preciso dizer que uma decisão de campeonato sem jogos nas casas dos finalistas é o fim apropriado para este torneio. Um regulamento revolucionário, que cria uma fase de classificação em que os participantes se enfrentam em condições distintas de dificuldade, e jogos eliminatórios em que a única vantagem é justamente o mando de campo. Tudo para se chegar à final, em ida e volta.

Se a FPF quisesse produzir um evento, uma finalíssima, não haveria problema em escolher um estádio neutro. Seria uma espécie de Super Bowl do pernil, provavelmente com uma atração musical brega à milésima potência antes do jogo, com o objetivo de vender ao país o que não seria verdade em relação a qualquer campeonato estadual: que o Paulistão é legal. Mas pelo menos faria sentido.

Ocorre que este campeonato é um descalabro do ponto de vista esportivo. E há muito perdeu o apelo que fez com que os clubes, um dia, lhe dessem mais importância (Gobbi, por favor…) do que à Copa Libertadores. Santos e Guarani jogarem duas vezes no Morumbi – ou em qualquer lugar que não se chame Vila Belmiro ou Brinco de Ouro – é ridículo.

Mas há uma coincidência aí, só pode ser. Foi no Morumbi que Madonna cantou, não foi?



  • Juliano

    Excelente, preciso! O sétimo parágrafo é um show! Mas os detalhes contados para que cheguemos até aqui são mais importantes.

    O que f… é que estamos no país da impunidade, o que nos leva a ser o país da piada pronta, como é um caso destes. E ficará tudo assim. O torcedor lotando o estádio, os times faturando mais porque a capacidade do estádio da capital é maior, e um campeão sendo festejado. Aos olhos da massa, é o que importa. E talvez, pra massa, no final o Paulista seja legal. Mas só porque seu time ganhou. E ficará tudo na mesma, até o próximo ciclo. Certamente, também cheio de falcatruas.

    Abraço!

  • André, o campeonato é tão inexpressivo, que acho que até o próprio Santos não se importa de jogar fora da Vila, porque conseguirá arrecadar (em teoria) mais no Morumbi do que em Santos.

    É a expressão maior da falência desse tipo de competição!

    Abraços!

  • RENATO

    Concordo com quase tudo, menos com a parte da teoria de conchavo político na definição do morumbi.
    NESSE caso, não.
    Por essa teoria, minimiza-se ao ridículo a independência intelectual e moral do presidente do SFC, que até o momento não deu mostras pra isso.
    Acredito na explicação mais simples. O SFC ofereceu ao Guarani, duas finais no Pacaembú sob o argumento financeiro. O Guarani, fez um contra proposta, se é por dinheiro, que seja no Morumbi. Aceito pelo SFC, encerrado o assunto.

    Dois jogos no morumbi ou dois jogos no pacaembu? É apenas um detalhe que não justifica todo esse conchavo político. O único clube que terá ganhos incomuns, inesperados e que mudarão sua rotina é o Guarani. SPFC e morumbi continuarão do mesmo tamanho depois do dia 13/05.

    A final desse paulista será no morumbi, e o SFC não fará outro jogo no Morumbi tão cedo, salvo mudança SIGNIFICATIVA nos valores e condições cobrados pelo dono do estádio.
    SE futuramente SFC, SCCP e SEP voltarem a jogar lá suas finais e clássicos, aí mudo de opinião de que o tal “boicote” era só político.
    Abraço.

    AK: Não vamos tão longe. Quem decidiu o local das finais foi a FPF. Um abraço.

  • Rodrigo CPQ

    Caro Renato, Del Nero colocou o Morumbi à mesa. O Santos realmente queria os jogos no Pacaembu, mas Mingone, presidente do Guarani, queria mandar seu jogo no Brinco de Ouro. Aí Del Nero falou do Morumbi, desagradando a ambos (LAOR e Mingone), mas com um recado bem dado, bem embutido: “o mando é da Federação!!!”. Simples, assim.

    Não trata-se apenas da renda desse jogo específico, mas era a chance que o SPFC queria para oferecer o Morumbi ao Santos, para mandar seus jogos na Libertadores. Pra quem se julgava acima do bem e do mal, ter que valer-se desse expediente para oferecer seu estádio, fica feio, muito feio…

  • Eduardo Mion

    Pelo que eu entendi, a mudança de postura foi do Del Nero, não do SPFC. Como já foi falado, o custo do aluguel não foi alterado e o jogo só foi no Morumbi porque a FPF quis. Só discordo que o Guarani tenha tido ganhos incomuns – o público total foi por volta de 40 mil pessoas e o Brinco comporta 32 mil. Se tirar o aluguel, deve ficar elas por elas.

    Acho que o Santos se daria muito bem mandando semi e final de Libertadores no Morumbi, pois é um campo maior e ajuda a abrir defesas retrancadas. Porém, do ponto de vista da torcida, a empatia com o Pacaembu também é algo a se levar em conta. De qualquer forma, a opção continua sendo do Santos, não vi o SPFC se oferecendo. Até porque seria muito mais simples falar direto com o Muricy, se quisesse oferecer.

    André, não sabia que você podia escrever ‘cagada’ no jornal…hehehe…

  • RENATO

    Verdade Eduardo, nem o Guarani teve ganhos extraordinários…lí hoje que, como a renda foi abaixo do esperado, nem o SPFC ganhou o que esperava…consequentemente nem o SFC…
    Enfim, nada mudou. ..aliás, como era esperado. Porque seria TÃO importante para Del Nero mandar os jogos no morumbi?

  • Rodrigo CPQ

    Renato e Eduardo: a reaproximação do São Paulo com a CBF deu-se através do José Maria Marin. O nome de Del Nero vem sendo trabalhado pra ser vice na CBF (visando assumir a presidência, numa possível licença de Marin). A birra entre Del Nero x SPFC foi pro espaço quando o Marin assumiu a CBF, por questão de interesses óbvios, sem contar a amizade com o Juvenal Juvêncio. Quando falo que Del Nero colocou o Morumbi à mesa, foi exatamente por isso: interesse político, assim como a devolução de camarotes no Morumbi, que eram cedidos à FPF e o São Paulo havia retomado. Fiquei passeando pelo dial do rádio no Pré Jogo de ontem, e em pelo menos duas delas ouvi a informação de que a diretoria do São Paulo estava em peso no Morumbi, tentando aliciar os santistas para jogar no estádio pela Libertadores. Chegaram a ceder camarotes do estádio para o Santos levar empresas que possuiam o mesmo no Vila. Acreditem: nada é por acaso, nada. E não tô falando que a diretoria do São Paulo é melhor ou pior que uma ou outra que vemos por aí. Na verdade, é mais parecida do que imaginamos.

  • Fabio

    André…
    Lamentável esse seu texto….me senti ofendido com a relação dessa alteração do local das finais com o caso dos ingressos do show da Madonna….acho que foi a primeira vez que alguém me “chamou” de idiota e eu não pude retrucar…..então aqui vai….converse com seus colegas de ESPN Brasil (que eu vi falando do caso foi o Calçade e o Alê)….você acha que se o Santos e o Guarani realmente quisessem fazer as finais em seus estádios, eles não fariam?!? Sei que você não é burro e não acha isso. Ainda mais depois que o próprio lance publicou que o Guarani ganhou mais dinheiro na primeira final do que nos outros 2 confrontos em sua casa pela fase final….É óbvio que para suas torcidas, os presidentes tinham que dizer que não estavam satisfeitos….todo aquele jogo de cena que você já devia estar acostumado….É triste ver pessoas assim na imprensa esportiva….com paixões clubísticas e ódio clubístico também….não gostar do São Paulo é uma coisa, outra é escrever um texto desse….nessas horas me lembro do meu querido avô: “filho de peixe, peixinho é”….Porém esse peixinho ainda é novo, há tempo de rever conceitos e mudar sua postura, coisa que o peixe pai não tem mais idade para fazê-lo….
    Abraços.

    AK: Nesses anos como blogueiro, já vi muita incapacidade de compreender um texto simples. Mas nada tão assustador quanto o seu comentário. É um monumento aos conflitos de um ser humano com o idioma. Parabéns. Um abraço.

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