CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

BENDITA BOLA

O principal conceito do chamado “futebol moderno” espalhou-se pelo mundo, semeando covardia e amnésia, tentando convencer a todos de que só há um jeito eficiente de jogar e vencer. Muita gente se deixou seduzir, até os que não deveriam.

É a ideia de que a vitória é o produto de uma equação em que a entrega defensiva quase religiosa e a velocidade na transição são os únicos fatores. Modo de pensar que tem implicações evidentes na maneira de construir um elenco e formar um time ideal. Origem da transformação do meio de campo num setor em que a mentalidade essencialmente caçadora reserva pouco espaço para jogadores criativos.

Seu modelo é o da especialização no contra-ataque, o futebol “arco e flecha”. Marcação por pressão feita por linhas adiantadas e bem próximas, com o objetivo de provocar o erro. Após a recuperação da bola, contragolpe, de preferência com poucos passes até a área adversária. Para atuar assim, um time só precisa de um (1) jogador que tenha as características de um meia ofensivo, mesmo que ele não seja brilhante no trato com a bola. Basta ter passe preciso e um pouco de visão.

Não se pensa em dar a este jogador um parceiro, que seja. É um excesso de criatividade que provoca pânico em certos técnicos, pela possibilidade de ruptura do sistema defensivo. A necessidade do resultado é a mãe de convicções que criaram times que vencem, mas não jogam. O problema se apresenta quando esses times se veem obrigados a jogar.

Aconteceu com o Real Madrid, na Liga dos Campeões. O campeão espanhol, que atropelou oponentes com velocidade, força e a maestria de seus atacantes, teve de encontrar soluções futebolísticas a partir do momento em que o Bayern Munique marcou seu gol no jogo de volta. Diante de um time que não ofereceu o espaço, precisou gerar situações que não fazem parte de seu cardápio.

Aconteceu com o Manchester United, no clássico com o City. Os maiores campeões da Inglaterra passaram o jogo esperando um erro dos rivais. Levaram um gol de escanteio, que decretou uma derrota merecida.

A grande questão é a gestão da bola. Times que possuem orçamento e material humano parecem ter se esquecido de que há uma finalidade em manter a bendita bola. O mais curioso é que, a esse tipo de postura, deu-se o nome de “planejamento inteligente”.

Ironia suprema.

PASSADO

A Seleção Brasileira dirigida por Dunga sintetizou o tal futebol moderno durante quatro anos. Era o time mais competitivo do mundo e tinha a prataria necessária para convencer quem não gostava. Na Copa de 2010, caiu num jogo em que era superior até se perceber forçada a recomeçar – após o 1 x 1 – a trabalhar. Por lesão, suspensão e opção, não tinha jogadores capazes de alterar o cenário. Perdeu para a própria limitação.

PRESENTE

A Seleção atual, de Mano Menezes, é muito semelhante a sua antecessora. Prefere o que se faz fora do Brasil ao que se poderia fazer com o que cultivamos aqui. Teve, no início, um flerte com uma forma de jogar que revisitava o “futebol brasileiro”, mas não passou de um ensaio. E agora é lógico que a obrigação de ganhar a Copa do Mundo em casa falará muito mais alto do que qualquer outro aspecto, seja qual for o treinador.



  • Nilton

    O “PASSADO” sintetisou todo o meu pensamento sobre 2010.
    Mas um belo texto.

  • Idevan Gonçalves

    Papi Joel precisa ler esse texto. Excelente…

  • Dyl Blanco

    É possível deduzir então que a conjuntura de dinheiro e notoriedade que envolvem o futebol está destruindo o jogo. Quem em sã consciência vai se expor quando tem tanta coisa em jogo, e não estou falando só do imediatismo dos salários, mas da chancela de fracassado ou incompetente. Gente de muita estrutura e experiência quase sucumbiu as chancelas. Telê Santana e Zico por exemplo. Só conseguiram a volta por cima por serem muito acima da média.
    Mudar isso passa necessariamente pelos meios de comunicação, que criam e abastecem de notoriedade esse sistema. Quais patrocinadores querem ver suas marcas atreladas a equipes sem brilho, se sentindo recompensados pela simples exposição de seus logotipos, quando é possível acrescertar a esse pacote a admiração por uma atuação brilhante. Façam a apologia desses jogadores brilhantes, deem destaque cada vez maior a suas atuações. Se durante um jogo inteiro foram 2 jogadas de brilho, que sejam exibidas e exaltadas a todo instante, não importando se o restante do jogo foi burocrático. Destaquem cada vez mais essa face do jogo e seus protagonistas. Incentivem essa vontade de brilhar, de se destacar. O resultado virá atrelado a isso.

  • Ado Marcelo

    Acho forçada essa análise, como se os times que venceram os jogos citados não estivessem na mesma categoria.
    A verdade é que num futebol de muito vigor físico, qualquer time tem dificuldade diante de um placar adverso.

    AK: Os adversários eram da mesma categoria, mas mostraram mais ambição. E o Man U não estava diante de um placar adverso. Um abraço.

  • Joao CWB

    Que saudades do meu Furacão de 2004.

    Não foi campeão como o de 2001, mas na minha opinião tinha um time melhor e jogava mais bonito.

    Hoje em dia joga um futebol feio, medíocre. Se ao menos ganhasse eu não acharia tão ruim.

    Abraço

  • Roverson

    Oi André,

    Vi na VIP que você é Corinthiano. Você não é são-paulino ?

    Um abraço.

  • Cesar

    Um pouco fora do tema. Ontem vi o jogo do Atlético e Goiás, no novo estádio Independência e depois vi matéria no Sportcenter, mostrando os pontos cegos das arquibancandas. Meu Deusssss…. Ninguém percebeu isso? Engenheiros, arquitetos, desenhistas, projetistas, ninguém?? Vão resolver o problema ou ficará assim mesmo? Quanto dinheiro a mais será gasto?? Tá certo que isso não é privilégio brasileiro. Lembro que você mesmo já comentou sobre o novo estádio do Dallas (EUA) que também tem pontos cegos. Não consigo entender como isso pode acontecer. É sacanagem. maldade, ganância, incompetência???

    Abraço.

  • Andre Vidiz

    André, vejo muitos jornalistas com uma opinião similar à sua em relação ao estilo de jogo e opções feitas pelos times hoje em dia, no entanto é só o muricy ganhar um título que todos o exaltam e as vezes até o colocam como exemplo a ser seguido. Imagino que isso aconteça porque no momento da vitória é difícil se colocar contra o resultado, mas não é exatamente isso que faz com que os times hajam da maneira que você criticou? Ou seja, todo mundo gostaria de jogar bonito, ma na hora H acha melhor contratar um volante ao invés de um meia, fechar o meio campo pra garantir o 1×0, etc do mesmo jeito que na hora do título todos os jornalistas escrevem colunas elogiando o time campeão. No conceito é fácil ter essa mentalidade, mas na prática é muito raro.

    AK: Bem… “todos os jornalistas” é um exagero. Cada um tem sua opinião e vi muitos colegas, ao tratar de títulos recentes, dizerem que tal time foi campeão sem mostrar um futebol brilhante. Outro aspecto é o trabalho de cada um. Deste lado do balcão, a tarefa que precisa ser cumprida é mostrar como as coisas são e, também, opinar sobre elas. Não é a crítica que vai mudar o futebol, é o contrário. Um abraço.

  • Leandro Azevedo

    A uma pergunta como a do Roverson para o Flávio Gomes… a resposta seria qualquer coisa de sensacional hehe

    O Mano tem a disposição material humano para jogar das duas maneiras, tendo mais posse e tocando ou o sistema de contra-ataque. Um meio de campo com Ganso, Ramires, L. Gustavo ou Paulinho, por exemplo, tem jogadores que tem um passe bom, velocidade para sair da defesa com rapidez e uma pegada necessária no roubo de bolas.

    Acho que dava para a seleção jogar com um esquema +/- com T. Silva e Dedé na zaga e um terceiro zagueiro/1o volante fazendo o homem mais recuado de meio campo. Um meio com uma variação de Ramires/L. Gustavo/Paulinho (2 dos 3) mais o Ganso um pouco a frente com D. Alves e Marcelo jogando mais no apoio de um 3-5-2 do que de laterais de um 4-4-2 e Neymar e Damião jogando na frente.

    Seria um time marcando um pouco mais a frente, com jogadores rápidos no meio que sabem tocar a bola se necessário e atacam e defendem com eficiência. Basta ousar um pouco e deixar de mão uns figurinhas que parecem sempre voltar nas convocações.

    Abraço

  • Anna

    Para usar uma palavra que você gosta de usar: perfeito. A coluna foi perfeita, André. Bom final de semana, Anna

  • Willian Ifanger

    Grande tema abordado e outra bela coluna.

    Hoje, implantar um filosofia de mais toque/posse de bola requer tempo e paciência…além de um corpo técnico altamente capaz de treinar e disciplinar os jogadores. Como bem disse o amigo aí em cima, o imediatismo do retorno financeiro pode ser o maior entrave pra apostar nesse tipo de trabalho.

    (Eu juro que gostaria de ver um dia uma discussão dessas entre vocês ali na redação da ESPN…deve ser sensacional).

    AK: Eu diria que é… interessante. Um abraço.

  • RENATO

    Esse time do Barcelona é a única grande novidade tática desde o carrossel holandês.

    Acho que a “crise” tática/técnica do futebol brasileiro, se é que podemos chamar assim, passa pelo perfil dos nossos “meias”. Eles foram perdendo espaço para volantes que “saem pro jogo”. E o pior é que isso aconteceu por culpa dos próprios meias que não se adaptaram às necessidades do futebol moderno/resultados.
    Veja o TRI brasileiro do SPFC, acho que não acontecerá outro no próximos 30 anos, foi conseguido sem um meia clássico. Danilo não é.

    Na seleção, não seria novidade se após uma sequencia de jogos com maus resultados, tendo o Ganso na meia, o treinador venha a sacá-lo e optar por um meio campo com Arouca, Elias, Ramirez e Hernanes…por exemplo.
    Ou nossos meias começam a marcar mais, ou então teremos de nos curvar aos volantes que sabem “sair pro jogo”.

    Falta também aos brasileiros mais ambição. Não por dinheiro, isso há de sobra. Mas por conquistas. Hoje os grandes jogadores conseguem a independência financeira com certa “facilidade” e isso os acomoda, param de evoluir tática e até técnicamente. Estive lembrando daquele garoto que surgiu no Gremio na época da “batalha dos aflitos”, o Anderson. Pensei que ele iria explodir, arrebentar…que seria nome certo na seleção brasileira. Deve estar ganhando uma fortuna na reserva do Man United…

    Outro aspecto é a identificação com a seleção e próprio país. Isso faz falta. Isso se perdeu tanto no lados dos jogadores como na própria torcida que não tem mais AQUELE interesse pela seleção.

    É o que já falamos por aqui, entre outros aspectos que perdemos espaço, o aspecto pessoal e humano dos jogadores é, para mim, o que mais precisamos avançar. Potencial existe.

    Abraço.

  • edson gomes

    Primorosa a maneira como você aborda assuntos tão complexos.Você tem lampejos de Tostão para se expressar.Superou seu mestre,que não é necessário dizer quem,de forma incontestável.Parabéns!

  • Marcos Nowosad

    André, você não acha curioso que o Dunga tenha ganhando **exatamente** o mesmos troféus (Copa América e Copa das Confererações) que os técnicos “fracassados” anteriores (Zagalo antes de 1998 e Parreira antes de 2006) e mesmo assim ser exaltado por alguns torcedores/jornalistas como alguém que resgatou a “raça” e “competitividade” na seleção brasileira???

    Não sou fã de nenhum dos 3 técnicos. Os times do Parreira jogam um futebol de dar sono e o Zagalo está ultrapassado desde os anos 70.

    Mas me incomoda quando algumas pessoas falam como se o Dunga tenha feito uma “revolução” na seleção brasileira no período 2006-2010, quando na verdade o futebol apresentado pela seleção nessa era tão feio quanto nas eras anteriores, sem acrescentar nada em termos de troféus.

    São as “viúvas”do Dunga, que reclamam até hoje que o técnico foi injustamente removido do cargo da seleção.

    Deve ser algum magnetismo pessoal da figura do treinador gaúcho, algo que falta ao Parreira (muito insosso) e que no caso do Zagalo o torna antipático…

  • Lucas Costa

    O maior problema é que as categorias de base hoje também jogam por resultado. Os garotos sobem sem dominar os fundamentos básicos. Mas são fortes e rápidos!

    Um treinador de um time principal pode montar um time da maneira que achar melhor, e vencendo ou ganhando, que aguente as críticas. Agora, um treinador de categoria de base não pode se contentar em ganhar de 10 a 0 de um juntadão na Copa São Paulo sem mostrar um time com um mínimo de capacidade tática e entrosamento.

  • Paulo Pinheiro

    Passei todos os anos 90 esperando alguém fazer um comentário como esse. Pena que você não estava lá na época. Tive que ver times de técnica apurada serem engolidos pelo “furacão Felipão” sem dó nem piedade e, de certa forma, ver o futebol brasileiro morrer aos poucos.

    Estamos cada vez mais próximos de um rugby jogado com os pés. Sob o revoltante e risível argumento de que “futebol é esporte de contato”… é sim: contato do pé (foot) com a bola (ball). Contato corporal deve ser casual, e não um recurso. É esse pensamento que está nivelando o futebol por baixo. É por isso que times outrora pequenos fazem frente aos grandes.

    Como disse perfeitamente o Lucas Costa, lá na peneira os jogadores técnicos vão ficando pelo caminho em favor dos “brutamontes velozes”.

    Acho que o Romário foi o último representante do futebol do passado. Mesmo o Ronaldo se tornou o Fenômeno quando era forte e rápido demais pra ser derrubado e por isso cruzava o campo com a bola nos pés, levando-a até o gol adverśario.

    Fez isso enquanto seus joelhos suportaram o peso da musculatura exagerada…

MaisRecentes

É do Carille



Continue Lendo

Campeão de novo



Continue Lendo

Inglaterra 0 x 0 Brasil



Continue Lendo