COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VIDA E OBRA

Se Pep Guardiola não ganhar mais nenhum jogo em sua carreira, não importará.

Claro, importará para ele, que terá de sobreviver com as dúvidas existenciais e a respeito da própria capacidade. Que se perguntará se o Guardiola do Barcelona e o dos outros clubes é o mesmo treinador. Que, no fim, lembrará de seu período no Camp Nou com a mesma sensação que temos quando acordamos no meio da noite impressionados com um sonho bom, mas irrecuperável.

Importará para os pragmáticos, os conservadores, os medrosos. Sejam quem forem e estejam onde estiverem. Para os ressentidos, os humilhados, os deprimidos. Que se rendem à antipatia sem sentido, ou ao preconceito mal informado. Para os míopes, os insensíveis, os alienados. Que enxergam, mas não veem.

Importará para seus futuros empregadores, que comprarão sem receber. Para seus futuros jogadores, que estudarão sem aprender. Para seus futuros torcedores, que sofrerão sem vencer. E para seus futuros detratores, que falarão sem saber.

Importará para seus colegas, os bons e os nem tanto. Os bons lamentarão a ausência de um virtuoso, que fez da profissão de técnico de futebol um ambiente em que a criatividade, a ousadia e a fidelidade ainda encontram espaço. Um professor que não se vê merecedor de tal honra, que entende o jogo como entende a vida, caminhos que não valem a pena sem valores. Os bons, os bons de verdade, perderão alguém com quem se comparar, alguém para imitar, alguém para superar.

Os nem tanto se deliciarão com o alívio. A mediocridade os salvará. O fim de cores inalcançáveis aumentará o valor conferido ao cinza nosso de cada dia. Será o triunfo da insipidez, a consagração da nota 6. Melhor ainda, será o argumento que faltava para se deslumbrarem com o que definitivamente não são. Pois eles serão os primeiros a distanciar Guardiola deste Barça, como se um time assim pudesse existir sem um técnico. Baterão no peito e dirão “com aquele timaço, até eu”. Só não terão coragem para fazê-lo em público.

Importará aos infelizes para quem os espetáculos devem se restringir aos teatros e casas de óperas. Que pensam que o resultado final é o que nos define, e não a forma como o buscamos. Que ignoram que respeito se conquista com postura. Que são incapazes de receber as vitórias com classe, as derrotas com gentileza, as oportunidades com gratidão.

Importará para os que não gostam da bola, não são obcecados pelo passe, não acreditam que uma equipe deve se mover pelo gramado como se fosse uma única composição. Importará para os viciados em linhas de quatro, de oito, de onze. Importará para os que não entendem que filosofia de jogo não é uma receita para vencer, mas uma forma de se expressar. Importará para os egocêntricos e os egoístas. Os presunçosos e os pretensiosos. Os perdidos e os iludidos.

Mas para quem percebeu o que ele ajudou a construir nas últimas quatro temporadas, se Pep Guardiola não ganhar mais nenhum jogo, não importará. Em mais cem anos, provavelmente não haverá nada parecido.



  • José Guilherme

    Texto delicioso. Somos privilegiado por testemunhar a obra desse brilhante treinador de futebol. Parabéns pela sensibilidade, André.

  • João Pedro

    Até que enfim algo à altura do que foi o trabalho do Guardiola.
    Estávamos todos à espera do texto definitivo sobre a obra que Pep nos deixa.
    A História aconteceu nesses quatro anos diante de nossos olhos, e (uma parte dela, ao menos) se encerra agora. Não houve nada mais importante no futebol nos últimos tempos do que a notícia do Adeus de Guardiola.
    Pep e seu trabalho no Barça merecem ser estudados e debatidos pelas grandes mentes do futebol.

  • Fábio

    André, aprecio muito seu trabalho mas, agora, permita-me uma discordância. Não consigo entender tanto oba-oba, tanta “tragédia grega” em cima das derrotas recentes (Chelsea em destaque) e da saída de Guardiola do comando do Barça. Uma coisa é ter revolucionado e mais do que isso, arejado, o futebol atual. Ter escancarado para nós brazucas o quanto estamos atrasados. Outra, é que a derrota e a saída sejam o fim e blá-blá-blá. São fatos normais embora incomuns: então que seja noticiado com destaque pelo incomum, mas chega, a vida de todos segue e digo mais, acho que o Barça de Tito tende a seguir esta toada. E, se não seguir, paciência. Já vimos o Fla de Zico e cia., o Milan holandês, o SPFC de Telê….. E o mundo não acabou. Resta sim uma saudade desse timaço que não veremos em Munique. Mas a vida é cíclica. Logo nos deliciaremos com outros timaços. Grande abraço!

    AK: Não acho que o tom tenha sido de que foi “o fim”. Apenas o fim de um período. Obrigado e um abraço.

  • Texto de arrepiar. Obrigado!

  • Geremias Machado

    André muito feliz no seu texto,Guardiola revolucionou o futebol,aplausos para esse homem que desfez o sentido normal do futebol e o desviou por um caminho único com vários encantamentos!!!Privilegiado sou por poder dizer para as gerações futuras.”EU VI O BARCELONA DE PEP GUARDIOLA JOGAR”.

  • Willian Ifanger

    Minha nossa….que texto foi esse?

    Parabéns André…obrigado pelo texto. Sem palavras até pra elogiar.

    Pra mim você resumiu tudo com isso: “Importará para os que não entendem que filosofia de jogo não é uma receita para vencer, mas uma forma de se expressar.”

    Perfeito.

  • Acho que entre tantas virtudes, Pep mostrou, como dizia Paulo Freire, que é possível ter autoridade sem ser autoritário. Ele soube liderar pelo exemplo e pela inspiração. Que ele possa disseminar suas ideias por outros clubes para que tenhamos um futebol cada vez mais ousado e bom de assistir!

    Parabéns pelo texto!

  • Alexandre

    Qual foi o melhor Barcelona da era Guardiola?
    Na minha opinião foi o da temporada 2010/11, que se não ganhou tudo como o da 2008/09 (perdeu a Copa do Rei), fez melhores campanhas tanto na UCL quanto na liga espanhola.

    AK: Isso. Um abraço.

  • Gabrielle

    Arrepiei! Finalmente um texto que condiz com o que foi a era Guardiola, o que realmente significou para o futebol atual. E eu me sinto bem privilegiada por ter acompanhado de perto, por ter torcido, por ter me emocionado nos bons e maus momentos. E espero que o Barça consiga prosseguir bem com Tito. Além de, também, desejar muita sorte ao Pep, seja lá o que ele for fazer a partir de agora, porque ele merece. Ele não só revolucionou o Barcelona. Ele revolucionou todo o mundo do futebol. E isso não tem preço. Ninguém pode desmerecer. GRÀCIES, PEP s2

  • Bacana a reflexão.

    O que eu penso é que, se a decisão de deixar o time já estava tomada, por quê não terminar a temporada e aí então anunciar a saída? Faltando dois, três jogos, fica a impressão de que as derrotas foram mais doloridas do que imaginamos.

    Concordo com o Muricy que disse, em tom de provocação, que Guardiola não duraria em um time brasileiro. Primeiro, por nossa mentalidade retrógrada. Segundo, por essa saída.

    Há de se concordar que anunciar a saída após derrotas significativas – que não tiram a eternidade de um trabalho de quatro anos – é um sinal de que o golpe foi mais duro do que a “confiança” poderia supor.

    Boa sorte ao Guardiola. E, por mais que a filosofia de jogo do Barcelona seja cultivada nas categorias de base, duvido que o padrão vitorioso se mantenha.

    Ah, um adendo: acho exagero dizer que Guardiola e seu time “revolucionaram” o futebol. O esporte já é, por si só, revolucionário. Prefiro dizer que eles escreveram um dos mais belos capítulos desse espetáculo.

    Abs

  • LauroCezar

    Texto no melhor nível da poesia, da elegância, do bom vocabulário. Me lembrou Chico Buarque e Artur da Távola. Sem exagero. Embora, André, sei que provavelmente terás a mesmo humildadade de Pep e diras que não. Abraçoi

    AK: Exagero seu. Obrigado. Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    Deus do céu… quantos insultos! “Humilhados”, “ressentidos”, “reprimidos”, “invejosos”, “medíocres”…

    Cara… se é tão importante assim pra você, que seja: vimos um time de titãs comandados por um semideus! Pronto.

    E “seja anátema” a quem ousar dizer o contrário!

    Você não percebe que está fazendo uma para-censura quando tenta afastar qualquer opinião contrária com insultos pré-concebidos?

    AK: Lamento que você veja insultos onde não há. Pior ainda é ver censura. As opiniões contrárias estão publicadas e respondidas. Um abraço.

  • Edwin Perez

    “….Mas para quem percebeu o que ele ajudou a construir nas últimas quatro temporadas, se Pep Guardiola não ganhar mais nenhum jogo, não importará. Em mais cem anos, provavelmente não haverá nada parecido….”

    Sim, poderá existir em 05 ou 10 ou 20, em menos tempo que imaginamos ou secretamente desejamos. Temos a necessidade de apreciar algo único, ou julgar que o que nosso olhos viram sejam o supra sumo da espécie humana pois a vivenciamos.
    Senão muitos e milhares não afirmariam que Messi é melhor que Pelé, por acreditar no que o argentino nos proporciona atualmente.

    Espero que Guardiola nos reserve ainda muito mais do que nos mostrou, e seu talento inspire milhares de técnicos que hoje ainda jogam bola ou estão na sala de aula ou atrás de uma tela de computador!

  • Thiago Mariz

    “Em mais cem anos, provavelmente não haverá nada parecido.”

    Essa frase resume o que eu penso e é legal de se ver uma figura pública como você arriscar-se ao fazer essa afirmação. O que torna tudo mais triste, pois creio que perdemos a oportunidade de ver esse Barcelona clássico jogar sob a batuta de Pep por mais duas, três temporadas. Uma pena…

  • DECIO LIMONGI

    Vou cair na mesmice de elogiar o texto, mas não poderia me silenciar. Há algo de épico e poético que só os grandes Autores alcançam sobre os grandes temas. Parabéns !

  • Murilo SC

    Ola Andre, Rijkaard quando saiu do Barça, Guardiola tambem foi uma aposta? se sim, a aposta em Tito é maior nesse momento do que foi quando Pep assumiu? Abraços.

    AK: Guardiola foi uma aposta, no sentido de não ter a experiência que se pode julgar necessária para assumir um time como o Barcelona. Mas ele obviamente conhecia bem os fundamentos que o clube aplica e era o favorito para o cargo durante o processo de escolha, que envolveu entrevistas com outros técnicos (Mourinho entre eles). A questão mais séria era a reformulação do elenco e a transição para uma era em que tudo deveria acontecer em torno de Messi. Tito Vilanova não é uma aposta. É uma opção pela sequência do trabalho, com as mesmas ideias, e num vestiário que não cria problemas com treinadores. Um abraço.

  • Mais uma obra-prima, André! Não se cansa não?

    Texto grandioso para um técnico grandioso!

  • Alisson Sbrana

    Belo texto. Uma pergunta (para a qual não sei a resposta e não sei se você saberia) para um futuro debate: Guardiola ou Lula Pereira? Ok, a pergunta vai na mesma linha meio sensacionalista do “quem é melhor”. Não conheço nada, ou quase nada, do Lula Pereira, mas outro dia vi um post no blog do JK (aproveitei sua sigla, espero que os outros não confundam) sobre ele. Ou talvez o debate seja: hoje podemos medir qual técnico revolucionou mais o futebol, ou quais os mais importantes técnicos de futebol do mundo? E qual o lugar do Guardiola nessa lista. Enfim, pensemos. Abraço.

  • Eduardo Mion

    Alisson,
    em 2010, a Trivela fez um especial sobre 25 dos maiores técnicos da história (http://trivela.uol.com.br/blog/lado-b/categoria/grandes-tecnicos). Não tem respostas, mas bastante lenha pra alimentar o debate!

    Desculpe pela ‘propaganda’, André!

  • Iran Né

    André, belíssimo texto você já é um craque na arte de escrever. Porém hoje baixou vários espíritos em ti. De Nelson Rodrigues ao mestre de todos da nossa geração Armando Nougueira. Parabéns o Guardiola merece uma poesia como esta.
    Obrigado por esta obra prima para quem gosta do bom futebol bem jogado como nós.
    Um grande abraço !

    Iran Né

  • Plínio Castanho Dutra

    E aí o cara que é bom perde razão. Todos os que não concordam são humilhados, ressentidos, reprimidos, medrosos, medíocres, míopes, alienados ou só burros mesmo. É só uma questão de gosto, meu caro. E de respeito, também.

    AK: Não. É uma questão de semântica. Não há absolutamente nenhuma falta de respeito no texto. Talvez você tenha vestido uma carapuça que não existe. Um abraço.

  • Ivan Alves

    Realmente nao consigo entender como pode ser possivel nao compreender o que voce escreveu de forma tao clara. Ou pior, absorver de formas tao distorcidas.
    Enfim, excelentes escritos, e se me permite a heresia, muito bom poder desfrutar do biscoito fino que fabricas. Um abraco.

  • Luis Jorge

    O texto podia-se chamar :”Cronica da Derrota anunciada”… Tipico de quem sabe lá no fundo que exagerava nos elogios, e que quem, como eu, sempre disse “Isso é fase, já vi times melhores, Milan do final da década de 80 começo da de 90, Flamengo de Zico, Santos da década de 60, todos eram tão bons ou melhores, pois ainda tinha chutes de fora jogadas ensaiadas, não dependiam tanto de Messi, pois esse quando está mal Iniesta e Xavi não costumam resolver sós”. Pep é bom, mas não é nada demais, isso foi mais uma época com um bom time, que mesmo assim das 4 ultimas Ligas disputadas jogou apenas 3 no estilo atual (sim porque aquela primeira que depois resultou no Mundial ganho sobre o Independente por apenas 2 a 1, não jogavam nesse estilo) e ganhou apenas uma!!!! Não da pra jogar com um só volante atualmente, isso pode durar o tempo de um breve sonho, mas é apenas como o sonho do socialismo, o que perto da história do mundo não foi nada, esses 4 anos de Barça não serrá nada perto do futebol moderno; prefiro dois marcadores que atacam como Adilio e Andrade e time com só Nunes no ataque mas que cabe no mundo real, ou uma Seleção em que até Pelé e Tostão ajudavam a fechar espaços e só Jairzinho cabia na frente sozinho sem ajudar, ou até aquele Real de Zidane, Figo, Raul, Redondo E Roberto Carlos, ou o Milan com excelente ataque e excelente zagueiros do final da década de 80 e começo da de 90 times reais que se jogassem ainda hoje, podiam até perder mas não perderiam assim 3 seguidas com os adversários usando a mesma estratégia, apenas se fechar e anular Messi e contra atacar contra uma zaga fraca com só um jogador a proteger ela de verdade e olhe lá!!!!

  • Caio

    Putz, pensei nisso a semana toda!
    Eu ia até lhe mandar uma pergunta pra caixa-postal: Será que acabou André?
    Cheguei a escrever o e-mail cara, que coisa ridícula…

    Mas ai percebi que, mesmo se esse Barcelona acabar, já valeu a pena.
    Só espero que não demore mais cem anos.
    😉

    Parabéns André! Esse texto eu vou guardar comigo!
    Um abraço!!

  • Ado Marcelo

    O obejtivo da escrita é comunicar e, quando, algumas pessoas sentem-se ‘ofendidas’ pelo texto houve falha em algum momento. A não ser que a intenção fosse mesmo, ofender os contrários de opinião.

    AK: Sem dúvida, houve falha. Na compreensão do significado das palavras. Um abraço.

  • Andre Gonçalves

    Evou dizer pras futuras gerações que vi esse Barça jogar!

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