COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SANTO TIME

Ele já tinha ouvido as histórias, visto os lances, lido os livros. Conteúdo que satisfez sua curiosidade, mas só aumentou a saudade do que ele não conhecia. Como é possível ter existido um time de futebol tão bom, mas tão bom, que os torcedores de outros clubes pagavam ingresso para vê-lo? Bem, seu pai pagou, várias vezes. E os pais de todos os seus amigos também.

Ele sabia seus nomes, um por um. Gilmar, Lima, Mauro, Calvet, Dalmo, Mengálvio, Zito, Dorval, Coutinho, Pelé, Pepe. Sabia o que eles tinham feito. As goleadas inacreditáveis, as coleções de títulos, as honras recebidas em excursões pelo mundo. As imagens disponíveis fermentaram a imaginação. Era um time que entrava em campo, ensinava futebol ao adversário, pegava o troféu e chamava o próximo. A impressão que se tinha era a de aquele time de branco não parava de jogar. Os adversários formavam fila e agradeciam quando eram contemplados com derrotas dignas.

Ele até os conhecia pessoalmente, graças ao trabalho como jornalista. Já tinha feito entrevistas com Zito, Pepe e Pelé. Vê-los pela primeira vez teve o impacto que se imagina. Impossível enganar o cérebro, ignorar de quem se trata e fingir que ali está um entrevistado como qualquer outro. Foram sempre gentis, cordiais, carinhosos até. O “problema” é que a pessoa não é o mito. Quando se está diante de monstros do futebol da década de 60, o contato é com alguém que já não parece aquele sujeito que fez maravilhas quando jogava. É como se as respostas saíssem da boca de um porta-voz.

Em 2003, chegou o momento de conhecê-los de verdade. Era o dia da inauguração do Memorial das Conquistas do Santos. Ele chegou algumas horas antes, queria conhecer o lugar com calma. Talvez tenha sido apenas um acaso, mas quem crê em destino certamente dirá que não. O rapaz caminhava pela infinidade de taças (a quantidade é inacreditável), imagens, flâmulas e peças de uniformes. Conduzido pela admiração, observava o ambiente sem prestar atenção para onde ia. Até que se deparou com a foto.

É preciso vê-la de perto para compreender. É um painel, em tamanho real, daquele fantástico time posado, antes de um jogo. Gilmar e Mauro Ramos estão em pé, um do lado do outro, de braços cruzados. Pelé e Pepe, agachados, parecem sorrir. Eles estavam prestes a fazer mais uma vítima. A imagem é simples, comum. Um time de futebol posando para os fotógrafos, como todos os times fazem. Mas também é imponente e, num aspecto, ameaçadora. É tanta glória que aqueles homens não parecem humanos. É fácil se sentir pequeno diante deles, o que revela muito a respeito da posição dos adversários.

Havia quatro troféus (hoje há cinco, mais uma Libertadores) expostos na frente dos jogadores. Duas Copas Libertadores e duas Intercontinentais. Elas compunham uma cena quase sagrada. O mundo aos pés dos gênios. Para quem consegue enxergar, é de uma beleza emocionante. Ele nunca mais esqueceu.

Parabéns ao Santos e aos santistas.



  • Willian Ifanger

    Parabéns ao Santos e aos santistas.

    E parabéns pelo texto André.

  • Arrepiante, André. Novamente, parabéns! O Barça dos últimos anos desperta uma sensação parecida em mim. Mas é melhor nem comparar, apenas apreciar, cada time ao seu modo.
    Um abraço.

  • Juliano

    Me faltam palavras. Parabenizá-lo tem se tornado pleonasmo.

    Como grande parte dos paranaenses não nascidos na capital, torço para um time de fora do estado. E o escolhido foi o Santos, time que já tinha a torcida do meu pai e de meu avô, mas estes já residiram em Curitiba. No caso deles não tinha jeito. Impossível não torcer. Nasci em 1983. No meu caso, sempre fui minoria entre os amigos. Vivia dos títulos de Rio-São Paulo e fazia meus amigos (corinthianos, são-paulinos, palmeirenses da era Parmalat e mais uma minoria que torcia pra times do Rio) acreditarem que o título da Conmebol (da primeira passagem de Leão) era sim importante. O time era lembrado por seus uniformes extravagantes, como o calção quadriculado ou cheio de estrelas, descaracterizando o manto sagrado para virar motivo de chacota. Até que em 2002, com os cofres vazios e a obrigatoriedade financeira inventaram o projeto “pé-no-chão” por pura falta de dinheiro. Que bênção! Há males que vem para bem. Meu time classificou em último no extinto mata-mata e bateu o São-Paulo, depois o Grêmio (Danrlei prometera quebrar as pernas do menino Robson) e fez uma final espetacular contra o maior rival, ganhando os dois jogos, com doses de drama, como a contusão do 10 Diego.
    Dali em diante, me acostumei com o hino do alvi-negro praiano tocando na tv. E todos conhecemos a história.

    MAS, assistindo ao documentário exibido pela ESPN Brasil na última sexta-feira, o que mexeu realmente comigo foi a passagem do time de 1995. Fiquei constantemente arrepiado durante todo o trecho. Lembrava detalhes daquele Santos x Fluminense, gravado, aos 12 anos de idade, em VHS. Me lembro dos gritos na sala de casa. Me lembro que comprava sempre a Placar, e fora a primeira vez que vi no seu tabelão um jogador receber a nota máxima: Giovanni! “Olha esse gol! Olha essa passe! Agora ele vai dar de calcanhar do meio de campo e deixar Marcelo Passos livre”, contava para minha esposa antecipando cada cena durante o documentário. Até que me calei. Quando me dei por conta, estava com os olhos cheios d’água. Na seqüência poucos minutos para a final decidida por Márcio Rezende de Freitas. Um crime! Contra aquele time redentor. Contra a geração da torcida santista que jamais vira seu time campeão. Não importava mais. Somos até hoje nacionalmente reconhecidos como os campeões morais daquele ano.

    Hoje, com os cofres abastecidos graças os últimos títulos, o surgimento de ótimos jogadores com bom apelo midiático e um bom presidente, o clube parece sim planejar seu futuro, não deixando à sorte do destino, como na década de 90 e início dos anos 2000. Por mais que possam haver intervalos sem título, acredito nas sementes plantadas, acredito num futuro promissor para as proporções do Brasil. Que continue assim!

    Abraços!

  • Alexandre

    Hail, hail, Santos de mantos brancos e corpos negros que há cem anos vêm apontando o caminho.

  • André, gosto do seu blog, leio sempre, mas quase nunca comento.

    Hoje, não pude apenas ler, tive que me manifestar, porque o seu texto me tocou.

    Já estive no Memorial das Conquistas algumas vezes, nasci e moro em Santos, portanto, frequento assiduamente a Vila Famosa.

    Gostaria de registrar que já senti o mesmo que você no mesmo lugar, acho que deslumbramento é a palavra quando se está ali. No seu texto, você conseguiu traduzir um sentimento, acredito, que muitos já sentiram naquele local.
    Muito obrigado pelo seu texto, como santista agradeço.
    Já está devidamente guardado em meus arquivos, no meu computador, quero lê-lo outras vezes. Como é agradável, desfrutar da paixão pelo futebol sendo torcedor do Santos e um menino da Vila.

    Mais uma vez parabéns pelo seu texto, e também registro o meu parabéns a todos os santistas que frequentam este espaço e a todos os amantes do futebol brasileiro, como somos abençoados!

    Abraços.

    AK: Eu que agradeço pelo comentário. Um abraço.

  • alex

    AK, belo texto, parabéns!

    Não sou santista, e me causou muita “estranheza” que vi pela TV um jogo festivo, com os jogadores do passado, Neymar, 100 crianças e…….

    pouquíssima gente no estádio!!!!!

    Achei ruim esta imagem de tantas cadeiras vazias, mesmo que fosse num dia de semana…..

  • Anna

    Linda coluna! Imperdível para santistas e não-santistas.

  • Willian Ifanger

    Acho que a maioria dos torcedores na faixa dos 40 hoje (to quase lá) quase viu o Santos virar apenas um clube com histórias da Era Pelé e ter pequenos momentos, como vive a Portuguesa hoje.

    Aí veio 2002 e tudo mudou.

    Mas nem esse Santos de 2002 e nem esse de Neymar e Ganso me causam comoção…..o Santos que um dia me fez parar foi o de 1995, como bem lembrou o Juliano. Aqueles 5×2 contra o Fluminense no Pacaembu foi um dos jogos mais sensacionais que eu já assisti. Épico. Tudo bem que, no final das contas, o elenco de 1995 não foi tão vitorioso, mas era um baita time.

  • Matheus Brito

    Willian Ifanger é brincadeira né?

  • Willian Ifanger

    Matheus……qual parte?

  • Ed Junior

    Continuando o debate sobre os mitos e mitologias dos times de futebol, cabe uma breve reflexao sobre o Santos Futebol Clube q teve seu centenario e sua Historia, MERECIDAMENTE celebrados ao longo da semana passada. Rapidim, pq tenho q estudar prum seminario aqui, hehe, destaco só o ponto, q veio da propria direção do clube atraves de filmes livros, ao longo da historia, q a mitologia do clube é a do futebol arte e vitorioso. Fico pensando se o centenario tivesse sido em março de 2002, essa mitoogia, mesmo se baseando em uma versao da historia real, com grandes times, em especial o tempo mitico de Pelé, teria a mesma força na midia e entre os torcedores…. teria, pergunto… Respondo q nao. Foram os times de robinho (e diego, alex, fabio costa, elano, renato, leo, e outros q sao esquecidos naquele q era um timaço) de 2002 a 2004, e o de 2010-2012 Neymar (e Ganso outro q é subestimado por causa da lesoes, sempre q ele entra e tem sequencia ele rende e faz o time jogar, claramente Neymar brilha, e muito, mas é sozinho na minha opiniao) q fizeram a mitologia do santos renascer. Antes de 2002, o santos e sua torcida eram tidos sim como viuvas de pelé, absolutamente inofensivos… De 1974 a 2001, ganhou 4 titulos (dois paulistas, uma comebol e um rio-sao paulo e fez duas finais de brasileiros 1983, algo pouco falado alias no centenario, e 1995). Mas isso tudo foi menor na comemoração dos 100 anos q viraram 100 anos de futebol arte e vencedor, graças tambem aos ultimos 10 anos e a promessa do q pode vir pela frente. Prova de que as mitologias nao sao verdadeiras 100%, sao formas de contar e valorizar aspectos e esquecer outros, e sao históricas estão em transformação. A titulo de provocação, vi aqui na net o apelido de cometa halley pro santos, ganha num epoca e depois some um tempão, kkkkkk, é uma interpretação possivel, hhehe. Mas complemento q quando o cometa brilha é igual sol, brilha pra e principalmente na epoca do Pelé, brilhou mais do q qualquer outro. PS: na mitologia do Santos na imprensa falou-se mto q eles ganharam copas do mundo pra o Brasil de 1958 a 1970, Injustissimo isso. No minimo o Botafogo teve o numero igual de contribuição, acho ate q teve foi mais importancia!

  • Matheus Brito

    Willian Ifanger, a parte que diz que o time de 95 era melhor do que esse ou até do que o Santos de Robinho, Diego, Elano, Alex, Renato, léo, Maurinho, enfim um belo time. O de 95 tinha o Geovanni. Jameli, Camanducaia, Macedo, Marcos Adriano,pintado, Robert, Edinho(mais conhecido como filho do Pelé) eram de normais para regulares.

  • Willian Ifanger

    Matheus…..eu não quis dizer que o Santos de 1995 era melhor que esses atuais.

    Apenas que esse de 1995 fez alguns jogos épicos que me faziam admirar. E tinha o Geovanni, como você citou, um jogador genial, do qual eu era fã incondicional.

    É mais uma questão de empatia mesmo, já que não sou torcedor santista.

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