COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE

É boa a ideia de Muricy Ramalho, revelada ontem a este Lance!, de abolir a concentração no Santos. De fato, mesmo que a mudança demore a acontecer, a simples intenção de tratar jogadores de futebol como adultos responsáveis já é ótimo sinal.

Muricy, sabemos todos, não começou ontem. Se sua experiência como jogador e técnico detectou tal possibilidade no time que ele dirige, é porque alguma coisa diferente (mais uma…) está acontecendo ali. E se o time mais talentoso do Brasil também for responsável por reformar a relação entre um clube e seus jogadores, teremos mais motivos para aplaudir.

Quando alguém fala em acabar com a concentração no futebol, dois exemplos surgem. Um é o período conhecido como “Democracia Corinthiana”, no início dos anos 80 do século passado. Mas reduzi-lo a apenas uma experiência em que os jogadores não eram obrigados a dormir num hotel nas vésperas de jogos é um erro histórico, uma vez que os componentes daquele grupo especialíssimo tinham voz ativa em uma série de outros aspectos da rotina de um time. A “Democracia Corinthiana” foi um evento único e assim deve ser tratado.

O outro exemplo está ainda mais distante de nós. É o Barcelona, que, em suas partidas em casa, solicita que os jogadores se apresentem algumas horas antes do apito inicial. Na véspera, todos dormem nas próprias camas. A liberdade não deve ser confundida com falta de comando ou regras cujo cumprimento não se discute. Durante a semana, os jogadores do clube catalão têm de estar em casa até meia-noite, horário em que podem receber um telefonema da comissão técnica. Não atendê-lo sem oferecer uma explicação convincente é garantia de encrenca.

O Barcelona também controla as atividades comerciais de seus atletas. O técnico Pep Guardiola tem a última palavra sobre compromissos (dia, hora e local de gravações, por exemplo) com patrocinadores pessoais. É um regime de disciplina que supervisiona a conduta dos jogadores dentro e fora do clube, mas não os obriga a dormir longe de suas casas. Um sistema muito mais fácil de aplicar a atletas produzidos internamente, que, quando chegam ao time principal, já estão habituados ao funcionamento e aos princípios do lugar onde trabalham (mais uma faceta da importância de se formar jogadores para mantê-los, não vendê-los). Num ambiente assim, a concentração não é necessária.

Talvez esse seja o caminho. Abolir o confinamento de jogadores – mesmo que seja só por uma noite – porque se construiu uma forma de trabalhar em que o método não faz sentido. Parece ser o cenário a que Muricy se referiu, quando mencionou a juventude e o caráter dos atuais jogadores do Santos.

Grupos que encontram o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade tendem a ser mais unidos, o que os torna mais fortes. Um vestiário que se policia e se governa cria outro tipo de relação com seus objetivos. É bom saber que algo assim pode acontecer no futebol brasileiro.



  • Marcos Vinícius

    Futebol exige muito da parte física do praticante,ainda mais o profissional,que joga em altíssimo nível.

    No fim dos anos 90,o Real Madrid era o time da moda,ganhava tudo,era exemplo para os outros times e tinha um jovem jogador que arrebentava : Raul,hoje jogando na Alemanha. Regularmente Raul era visto na noite espanhola,em boates e casas noturnas. Quando questionaram Lorenzo Sanz,então presidente do clube merengue,sobre o que ele achava da vida noturna de um dos seus principais jogadores,ele respondeu : ” Enquanto ele estiver arrebentando em campo não ligo para o que ele faz fora dele”.

    As empresas exigem que seus funcionários cumpram determinada carga horária. Como seria se as empresas começassem a controlar a vida pessoal de seus funcionários? Como seria se as empresas exigissem de seus funcionários que eles não frequentassem casas noturnas,que todos fossem dormir cedo? Será que isso seria uma relação empregador/empregado saudável,e que o empregado sentiria-se confortável sabendo que seu empregador controla com mão de ferro sua vida pessoal e seu lazer?

    Qual o limite,até onde o empregador pode controlar a vida de seu empregado? Será que não é suficiente ele cumprir a carga horária proposta e cumprir com seus deveres para com quem o contratou?

  • Ado Marcelo

    Jogo em casa vai no horário do almoço. Jogo fora um dia antes, dorme no hotel e vai jogar.
    Cara que não for profissional vai se queimar sozinho e em pouco tempo vão sobrar somente jogadores bons de trabalhar.

  • Ado Marcelo

    @Marcus vinicius
    A diferença é que o empregador pagou milhões na contratação daquele empregado e terá que pagar outros tantos milhões se resolver quebrar o contrato.

  • Marcos Vinícius

    Ado Marcelo:

    Mas a relação é estritamente profissional,e não deve transcender isso. Quanto a pagar milhões,paga-se pela qualidade do serviço prestado. E paga por que quer. Mas não se deve,na minha opinião,controlar a vida pessoal do empregado,sob pretexto de que sua vida pessoal influencia no seu rendimento profissional.

  • Nilton

    Marcos Vinicius, a questão é um pouco mais complicada do que simplesmente “controlar a vida pessoal do empregado” quando uma empresa contrata uma pessoa para trabalhar esta sabe a carga horaria a que deve se obedecida, quando este mesmo funcionarios recebe um cargo de chefia a carga horaria some e o importante é comprir com as metas, mas quando o cara se transforma em um grande executivo ganhando mas de milhões não existe mas carga horaria e o importante é controlar tudo para que nada de errado.

  • Marcos Vinícius

    Nilton,veja bem…

    Quando o funcionário decide se entregar à função é voluntário,ele sente a necessidade de se envolver com o cargo e o reconhecimento,para o dito funcionário,fala mais alto. Um exemplo muito claro disso é o filme “O Diabo Veste Prada”,com a brilhante Merlyn Streep. A secretária,em nome do cargo ocupado,se envolve tanto com a função que esquece que tem uma vida pessoal. Mas veja: Parte da própria secretária se envolver com a função. A empregadora pede,mas não obriga,a funcionária a executar tarefas que tomam seu tempo fora do horário de trabalho. em nome do status oferecido pela função ela se envolve.

    Acha que a vida pessoal de cada um de nós tem esse nome por ser exatamente isso: Pessoal. Nosso empregador não tem o direito,na minha opinião,de controlar o que fazemos fora do nosso horário de trabalho. Se eu quiser sair e me divertir e estar no local de trabalho no horário proposto,não há o que ser cobrado.

    Para fechar : Cada pessoa é uma peça de uma engrenagem. Em se falando de um time de futebol,as atribuições são distintas,mas não creio que exista em um time,figuradamente falando,um “grande executivo”.Responsabilidades iguais. Se for cobrar,por exemplo,do Messi que ele esteja em casa às 11 da noite,então que se cobre também do roupeiro e do massagista.

    Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Corrigindo: o nome da atriz é Meryl Streep.

  • Nilton

    Marcos Vinicius, mudando o foco da assunto, então certo esta o Fla, por ter no time pessoas que valoriza a vida pessoal como o R10, Love (esse ainda aguenta jornada dupla), e para o segundo semestre teremos o icone do profissional que valoriza a vida pessoal.

    Quando citei a questão do “grande executivo” com relação ao Barça, não me referia a um jogador mas ao clube como um todo. E conveamos um roupeiro ou massagista que estaja um pouco fatigado/cansado consegue cumprir com as suas obrigações, porem Messi/Xavi/Iniesta/Pep e Cia não conseguiriam impor ao Real o futebol que tem imposto neste ultimos anos, se não estiverem em 100% de suas capacidade fisica e emocional.

    Não conheço a vida/rotina de um atleta profissional/top (de outros esporte sejam de grupo ou individual), mas acredito que seja bem mais regada que a vida de jogador de futebol tanto no quesito badalaçao e alimentação.

    Admito que o controle que o Barça tem sobre os seus jogadores estar no limite de filme de ficção aonde o “estado” controla tudo. Mas não vejo ninguem querendo sair de lá, e muita gente querendo entrar (talvez, dependendo do ponto de vista, somente o Neymar não quer, ainda, jogar neste Time) e todos conhecem a cartilha do Pep e não li em lugar nenhum alguem do grupo reclamando dela.

    E como diz o Alberto Helena Jr. falando do Rinus Mitchels, do Carrossel Holandes e do Barça:
    ” Sucederam-no no Barça, seus fiéis discípulos holandeses Cruyjff, Van Gaal e Reikjaard, que seguiram a mesma linha de ação e pensamento, o que permitiu a Guardiola elevar esse conceito quase à perfeição.”
    link: http://colunistas.ig.com.br/albertohelenajr/2012/04/05/o-peixe-e-a-licao-catala/

    PS. não cite os Bulls de Jordan, pois aim ficará dificil de continuar argumentando rrrrrrrsssssssssss.

  • alex

    AK, se eu fosse dono de hotel de concentração ia querer seu pescoço….hehehehe

    abraço,

    AK: Pois é, o mercado é grande. Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Nilton,acho que exemplos como R10 e Love são referência quando se fala em falta de compromisso com seu empregador,e o Flamengo o maior exemplo de permissivismo. Desde Adriano,creio até que antes dele,mas nesse caso ficou muito evidente,se abriu precedente,o Flamengo virou o lugar onde “tudo pode,nada é negado”. Se você for comparar,não conheço no Brasil nenhum outro clube em que os atletas (será que são mesmo?) podem passar consecutivas noites em boates,casas noturnas,com isso nitidamente afetando seu desempenho sem que o clube nada faça para impor respeito,a não ser emitir uma cartilha pedindo que seus jogadores “tenham garra para dormir cedo”. Amigo,achei aquilo o fim,o cúmulo do absurdo. Então,me desculpe,mas não dá para tomar o Flamengo e seu bagunçado e conturbado ambiente e costume disciplinar como exemplo de nada.

    Quando disse que se cobrar de um tem que cobrar de todos é porque não acho que deva ter tratamento diferenciado. Se a dita cartilha existe,tem que valer para todos os envolvidos na engrenagem. Vamos levantar uma hipótese: será que Pep Guardiola dorme cedo? Ele pode,dentro da sua linha de raciocínio,dizer que não precisa dormir cedo porque isso não afetaria seu desempenho profissional,no que ele teria razão. Mas isso seria coerente? E mais,já que você citou o emocional,o jogador não ficaria mais irritado,ou suscetível a irritação,por não ter lazer,ou o ter limitado? Será que nos dias em que o atleta está em casa ele se sente à vontade para fazer o que quiser,ou fica preocupado pensando que o clube pode ligar?

    Amigo,pense: Você trabalha na melhor empresa do mundo,tem um dos melhores salários do mundo,com pouco tempo nessa empresa você consegue sua independência financeira. Mas a empresa é conhecida por seu regime militar,autoritário,centralizador e egoísta. Você abriria mão desse emprego em prol de sua liberdade total e incondicional,aproveitando o auge profissional,sabendo que sua carreira é curta e o mercado,fora da dita empresa,não oferece tanta exposição? Pesando os prós e contras,não é difícil entender o porque de ninguém querer sair de lá,e porque tantos outros querem entrar,não acha?

    Nota: Frank Rijkaard era técnico do Barcelona antes de Pep Guardiola. Se ambos tinham a mesma linha de ação e raciocínio,por que antes de Guardiola assumir o comando do time principal do Barcelona o time passava por problemas de comando e vestiário? (esse fato já foi comentado nesse blog). Creio que a forma de agir e raciocinar a que você se refere digam respeito a forma que o time joga,senão os ditos problemas de vestiário não existiriam.

    P.S: Tomara que o dono do espaço não nos cobre aluguel do mesmo pelo debate.

    AK: Os donos do espaço são vocês. Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    André,como não sei se você vai postar algo sobre os estaduais gostaria de levantar uma questão e a sua opinião a respeito.

    Nas últimas quatro vezes que Vasco e Flamengo se enfrentaram (duas pelo último brasileiro e duas pelo estadual desse ano) o Vasco reclama que foi prejudicado em três delas. Décima nona rodada do brasileiro,pênalti de Léo Moura em cima do Bernardo. Trigésima oitava rodada do brasileiro pênalti (muito claro,por sinal) de Willians em cima do Diego Souza. E no última sábado mais um pênalti não marcado,este em cima do Thiago Feltri. A falta foi tão clara que o árbitro,ao término da partida,quase apanhou dos jogadores do Vasco (atitude absolutamente injustificável,diga-se de passagem)

    Na sua opinião,é perseguição,coincidência ou o nível que é ruim?

  • Michel Araújo

    André, e a caixa postal? Não tem mais?
    Abraço!!

    AK: A CP vive um drama, por culpa absolutamente minha. Mas as mensagens estão guardadas. Um abraço.

  • Massara

    André, hoje (10/04) foi noticiado que o Neymar, depois do jogo do Santos contra o Inter em POA, foi para uma balada e saiu de um apartamento cheio de mulheres às 7 horas da manhã. Ok, foi depois do jogo. Mas ele deveria estar descansando e se recuperando para os próximos jogos. Seria o prelúdio de uma tentativa frustrada do Santos? Abs.

    AK: Não creio. As folgas do Neymar costumam ser bem combinadas com a diretoria do Santos. Um abraço.

  • Olha, eu acho que os próprios jogadores tem que ter a consciência, como bem disse o Marcus Vinicius. O clube tem o direito de cobrar durante o horário de serviço, fora disso é abuso.

    É bom lembrar que o clube também tem a direito de demitir o mau profissional. Porém, na minha visão, para muitos clubes é legal usar o paternalismo, pois isso valoriza figuras autoritárias, que infestam a maioria dos times.

    A grande questão é que quando os jogadores tiverem consciência e vontade de terem sua liberdade, estaremos em um mundo onde dirigentes amadores estarão em péssimos lençóis. Ou seja, jogadores profissionais exigem estrutura profissional. Será o fim da carreira do técnico disciplinador, que não tem conhecimentos táticos necessários; será o fim do gerente de futebol paizão, que não tem capacidade administrativa; e será o fim de dirigentes que se amparam no amadorismo para perpetuar seus reinados.

    Abraços!

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