CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

APITO NO LIMBO

Santiago Solari, ex-jogador argentino (River Plate, Atlético de Madrid, Real Madrid e Internazionale), escreve – muito bem – sobre futebol no jornal espanhol El País. Há dez dias, uma de suas ótimas colunas tratou perfeitamente da estranha mania de reduzir o debate futebolístico a discordâncias sobre a arbitragem.

“Existem poucas verdades absolutas no futebol”, escreveu Solari na abertura do texto. “Uma delas é que os árbitros sempre beneficiam o rival”, prosseguiu. Após dissertar sobre a incapacidade de técnicos, jogadores e torcedores de fazer uma análise objetiva daquilo que é seu ganha pão/paixão, Solari abordou o conveniente desvio oferecido pelas reclamações: a transferência de responsabilidades. É muito mais confortável apontar os erros alheios do que admitir os próprios. E concluiu com a prova de que seria muito mais interessante concentrar-se em outros aspectos do jogo. “Para que desperdiçar energias? O árbitro seguirá beneficiando o rival. Como sempre.”

A visão de um ex-futebolista é muito valiosa. Nasce em um território que a grande maioria dos que escrevem/falam sobre o esporte não conhece: o campo. Mas a forma como o futebol convive com os equívocos do apito mostra, também, que a doença da arbitragem é grave. E tem sido ainda mais prejudicada justamente por quem deveria cuidar de seu bem estar.

Faz muito tempo que o futebol profissional deixou os árbitros numa espécie de limbo operacional. Um coitado, munido de um par de olhos e de outro par de assistentes, não tem chance de aplicar as regras com justiça e critérios uniformes. A velocidade e a dinâmica do jogo o subjugam. A televisão o humilha. Exageros de autoridade e síndromes de protagonismo à parte, o árbitro ainda é responsabilizado quando mexe no placar e/ou quando contamina jogos, como fez o apitador holandês do último Barcelona x Milan.

A forma como a Fifa e o International Board fingem preocupação com o assunto é inexplicável. Enquanto nada fazem, o futebol é corroído por seu obsoleto sistema de regulamentação. A inércia alimenta a fábrica de contestações, compromete a relação do torcedor com o jogo e reforça a sensação de que o homem do apito está sempre a serviço de alguém.

ORGULHO

Apesar da esquizofrenia que assola o planeta a cada vez que um erro é cometido, ainda existem demonstrações de classe como a de Clarence Seedorf, extraordinário jogador do Milan. “Pode ser que o árbitro tenha errado, mas não perdemos por isso”, declarou o holandês após a derrota no Camp Nou. Não deveria ser tão difícil olhar para o “todo” de um jogo de futebol. Ou de dois jogos, quando o merecimento fica ainda mais claro.

VERGONHA

Jérôme Valcke, amigo da nação, expressou-se com grosseria no episódio do traseiro e apresentou uma desculpa sem vergonha para limpar a bobagem. Mas pelo menos fez o que era minimamente necessário para encerrar o episódio. Já o que políticos brasileiros fazem desde então é o oposto. Chamar o secretário-geral da Fifa de “vagabundo” e depois de “porteiro” são atitudes desrespeitosas (com porteiros, inclusive) e desnecessárias.



  • Fala Andre Kfouri, tudo bom?
    Comecei um blog esportivo recentemente, e inclusive já recebi uma crítica (positiva) do seu pai. Estava querendo algumas dicas e comentários de quem entende do assunto; seria um prazer ouvir suas sugestões.
    O nome do blog é “Esporte é minha amante”: http://esporteeminhaamante.blogspot.com.br/
    Abraço

  • Joao CWB

    Falando em apito, vale ver o gol absurdo do Criciúma que o juiz validou contra o Atlético-PR?

    Não creio que aquilo foi desconhecimento da regra, algo tão claro.

    E discordo do grande Juca quando ele diz que discutir arbitragem é para pobres de espírito e ignorantes.

    Abraço

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