COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SÓ DERROTA

A história de Léo Rocha é uma trágica comédia de erros. Nela, não há uma única decisão correta. Um compêndio sobre o equívoco, o mau julgamento, o mau comportamento e a ignorância. Em todos os níveis, do começo ao fim.

O começo, obviamente, é a forma como o jogador do Treze resolveu cobrar o pênalti que poderia empatar a decisão com o Botafogo em 3 x 3. O destino da fatídica cavadinha foi aquele com que todo goleiro sonha. Em vez de observar a bola entrar lenta e dolorosamente, Jefferson poderia tê-la matado no peito, se quisesse.

Parêntese, opinião pessoal: cavadinha é o estelionato do pênalti. É falsa demonstração de capacidade, que beira a má fé. A intenção que há por trás desse tipo de cobrança não é nobre. Seja quem for, do imortal Zidane ao desempregado Léo Rocha. Procure quantas cavadinhas existem nos currículos de Zico, de Sócrates. Ou de Evair, mestre da marca penal.

O componente de provocação é claro. O cavador busca algo mais do que fazer o gol, o que acirra os ânimos e produz certas confusões de conceitos que infestam o futebol dentro e fora do campo. Ponto central do segundo erro desta saga: a atitude de Jefferson.

É curioso como se fala em “respeito” hoje em dia, aparentemente sem saber do que se trata. Porque respeito deve valer para todos, em todas as situações. Ninguém, independentemente dos digitos do salário, da camisa que veste ou dos troféus na estante, pode ter licença para desrespeitar. Portanto, se a cavadinha de Léo Rocha no Engenhão é falta de respeito com o Botafogo, Loco Abreu desrespeitou todos os times contra quem bateu pênaltis assim. E não consta que Jefferson – ou os outros botafoguenses que “trollaram” o meia do Treze – tenha tido uma interação semelhante com o companheiro uruguaio. Bom saber que o goleiro acusou o próprio exagero.

Jefferson tem a seu favor o argumento do sangue quente, da difícil arte de manter a compostura em momentos de pressão. Já os dirigentes do Treze, não. E foram eles os autores das piores decisões neste episódio. De acordo com os relatos, Gil Baiano interpelou, empurrou e quase agrediu Léo Rocha na entrada do vestiário. Baiano é gerente de futebol do Treze. Gerente. Imagine se gerenciar não fosse sua obrigação.

O descontrole se deu não pela desclassificação nos pênaltis, mas pela “falta de responsabilidade” (expressão usada pelo técnico Marcelo Vilar) de Rocha. Engano. Se a bola entrasse, ninguém questionaria o senso de responsabilidade do jogador. A análise não pode se basear no resultado, mas na ação. Se o Treze, como clube, entende que cavadinha é irresponsabilidade, que tome a mesma atitude com seus jogadores que a tentam com sucesso. Que todos tenham o mesmo fim de Léo Rocha: a rua. Fazer dele um vilão escolhido por perder um pênalti é jogar para a torcida.

Mas o presidente do Treze, Fábio Azevedo, tem a oportunidade de corrigir o final da história. Dar um sopro de bom senso nesta tragicômica sequência de bobagens. Pois se Léo Rocha não serve porque tentou uma cavadinha, foi mal demitido. Se não serve por outros motivos, foi mal contratado.



  • Anna

    Não gosto de cavadinha, mas mandá-lo embora pq a fez, foi terrível. E o goleiro Jefferson achar que foi desrespeito tb. Bela coluna!

  • Concordo que a cavadinha é provocativa. Mas provocação faz parte do futebol. É um dos milhares de ingredientes que fazem desse esporte tão instigante.

    Em tempo: de todas as cavadinhas que já vi, só um jogador a fez em final de copa do mundo. É coisa de quem cresceu tendo a bola a sua melhor amiga. Gênio.

  • O mais incrível é que os “dirigentes” do Treze não percebem que a demissão do Léo rocha é muito mais vergonhosa que o pênalti perdido.

    Além disso, demonstra um menosprezo ao próprio time. Parece que nunca mais o Treze terá uma chance de ter sucesso. Talvez eles tenham consciência da precariedade da gestão deles…

  • Thiago Mariz

    Embora não concorde que a cavadinha seja, inevitavelmente, provocativa, atenho-me mais à atitude dos botafoguenses. Como era de se esperar de você, o comentário que deve ser feito sempre nesse caso: as duas medidas utilizadas pelos jogadores do Botafogo.

    Vamos ver o que acontecerá quando Loco Abreu fizer isso de novo. Ou ele irá parar depois disso? Particularmente, duvido muito.

  • Fernando Duarte

    André, após o jogo, Jeferson afirmou que a “dura” no jogador do 13 estava relacionada com eventuais declarações que ele teria dado ao final do primeiro jogo, em João Pessoa, e claro, potencializada pela tentativa da cavadinha.

    AK: Eu li.

  • RICARDO

    Parabens pelo texto. O jogador foi apenas um bode expiatorio da desclassificacao do treze. Nao curto provocacoes no futebol. Todos se esquecem que a provocacao feita por jogadores, jornalistas e dirigentes terminam servindo para um mal maior que eh incentivar a briga entre torcidas.

  • Marcelinho

    Ah André, nesse caso me permita discordar de ti.

    A cavadinha, mesmo que provocativa, é uma alternativa na cobrança. Seria o mesmo que dizer que a “paradinha” do Pelé também deveria ser criticada. Ou pior, dribles sem objetividade, toques desnecessários, etc.. Esses, quando feitos em determinados momentos do jogo, até acho que devem ser evitados. Mas uma cobrança de pênalti? É alternativa, e talvez mais eficaz que muito “pênalti bem batido”.

    Pra resumir tudo isso, vc mesmo usou o melhor exemplo: o pênalti do Zidane. Indefensável.

    Abraços.

    AK: Obviamente, discordamos. A paradinha tem o objetivo de enganar o goleiro. Um drible é um enfrentamento de igual para igual, em que cada um usa a própria qualidade. A cavadinha traz outro componente que, como escrevi, não é nobre. E só citei o Zidane para quem não aparecessem os malas dizendo “quando é o Zidane, todo mundo aplaude”. Um abraço.

  • Leandro Azevedo

    A cavadinha hoje é mais usada como provocação do que uma alternativa dos cobradores. Antigamente os goleiros tinham uma tendência maior de escolher o canto da cobrança, e se não me falha a memória, o Djalminha começou a usar a cavadinha por esse motivo – o goleiro sempre pulava para um canto e deixava o meio do gol desprotegido.

    Hoje tem sim um “que” de provocação e com os goleiros esperando mais para pular, é um risco alto que se paga.

  • Alberto Pereira

    O jogador foi irresponsável, e pagou por isso.Ponto final!

  • leonardoatleticano

    André, acho que estão transformando tudo em uma chatura só, agora, até uma cavadinha besta já deve ser analizada com profundidade. Devemos nos perguntar qual o sentido real da cavadinha? Analizar suas intensões reais, se é marcar o gol, se é menosprezar, se é um atentado ao goleiro, se é um atendado ao clube, se é desrespeito ao torcedor, meu Deus, quanto moralismo.
    Isso acontece na copa do Brasil, na copa do mundo e acontece em peladas pelo Brasil afora. Que coisa chara esse tal do ser politicamente correto!

    AK: Você está confundindo as coisas. Não há nada de correção política ou moralismo nessa conversa. Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Acabei de lembrar do Edmundo,que quando estava no Cruzeiro perdeu um pênalti contra o Vasco e foi demitido. mas quando estava no Vasco perdeu um pênalti contra o Corinthians na final do Mundial de Clubes,no Maracanã (eu estava lá), e o Vasco o manteve. Independente da forma que bateu,e quanto a isso não cabe comparação,foi o pênalti mais importante da história do Vasco.

    Tenho certeza que o Treze-PB treinou penais,supondo que a vaga pudesse ser decidida assim. Se treinou,sabia que o rapaz costuma bater daquele jeito.

    Se sabia,por que o escalou para bater? Será que o treinador não tem parcela de culpa,pois sabia que isso poderia acontecer e mesmo assim escalou o rapaz para bater?

  • Joao CWB

    Nobre André, não teremos Caixa-Postal essa semana?

    Abraço

    AK: Não consegui. De volta no sábado. Um abraço.

  • Joao CWB

    Marcos Vinícius, não dá para comparar o Leo Rocha do Treze da Paraíba com o Edmundo no auge da carreira no Vasco. Se os clubes brigam para ter Adriano obeso e manco porque demitiriam o animal que na época fazia miséria nos jogos?

    E sinceramente nem lembro do Edmundo no Cruzeiro, para você ver que sua passagem por lá deve ter sido bem apagada, e demití-lo não deve ter sido um mal negócio para o clube.

    E quem garante que o jogador do Treze batia daquele jeito nos treinos? Se batia eventualmente para descontrair e nas outras cobranças convertia em gols, dificilmente pensariam que no momento derradeiro ele faria aquilo.

    Abraço

  • Magnus

    Estava assistindo e torcendo pelo crime do Treze (nada contra o Fogão, apenas a emoção de ver um pequeno derrubando um grande). Quando o Léo Rocha bateu daquele jeito até eu, que não tenho nada a ver com a Paraíba, xinguei o cara!
    Na transmissão alguém disse que o Treze NÃO havia treinado cobranças de pênalti. Pagou o preço.

  • Marcos Vinícius

    João CWB,não comparei Edmundo com Léo Rocha.Comparei a importância dos penais perdidos. O que Edmundo perdeu pelo Vasco valia um título mundial,que,convenhamos,significa muito mais do que passar de fase na Copa do Brasil.

    Edmundo atuou pelo cruzeiro em 2001.

    Tem na net um vídeo de Léo Cocha,então jogando na Venezuela,batendo um pênalti exatamente do mesmo jeito que bateu aquele no Engenhão.

    Abraços.

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