O RATO ROEU… (série completa)



Como se sabe (ainda que alguns petulantes, aqueles cujas “fontes” indicavam o contrário, prefiram não tocar no assunto), Ricardo Teixeira renunciou ontem a mais um posto.

A CBF e o COL-2014 – que pode ter mudanças nos próximos dias – já faziam parte do passado do cartola.

Agora é a vez da Fifa. Teixeira não é mais membro do comitê executivo da entidade (ah, a ISL…).

Em homenagem a mais uma renúncia, e satisfazendo os pedidos que chegaram por email, publicamos abaixo os quatro episódios da série “O Rato Roeu…”.

Divirta-se.

______

O RATO ROEU…

– Bom dia, Majestade.

– Bom dia por que, infeliz? Você sabe que dia é hoje?

– Sim, Majestade. É o último dia de seu reinado.

– Então não pode ser bom, não acha? Ou você imagina que estou imensamente satisfeito com tudo isso?

– Claro que não, Majestade. Claro que não. Eu apenas penso, se o senhor me permite, no lado bom.

– Bom? Como assim? Se fosse bom eu já teria tomado essa decisão antes. Ainda bem que você é meu mordomo, não meu conselheiro…

– Sim, senhor. Já estamos indo? Devo preparar a carruagem?

– Ainda não. Quero retardar esse momento ao máximo. Meu estômago se revira, a cabeça dói só de pensar em dar tamanha satisfação a essa terra de ingratos. Não percebem o quanto avançamos nos últimos 23 anos! Não enxergam que, graças a mim, estamos diante de oportunidades que nunca tivemos!

– São ignorantes, senhor.

– Eu deveria ser aplaudido nas ruas e nem posso pisar na calçada. Só tenho tranquilidade quando estou no exterior. E mesmo assim as mensagens não param de chegar. Denúncias desses malditos fofoqueiros, investigações sobre meus negócios. Eu c… e ando para eles, mas chega uma hora em que dá vontade de mandar tudo à m…

– Calma, Majestade. Eles não merecem sua irritação.

– Eu sei! Mas agora é tarde. Eu sabia que não poderia confiar nos suíços. Eles me prometeram segredo sobre aquela… você sabe. Canalhas! O Rei deles não fazia nada sem me consultar, agora finge que não me conhece… aquele traidor. Preciso me antecipar, não tem mais jeito.

– Lamento muito, senhor. Mas veja: depois de hoje, Vossa Majestade não terá mais de lidar com essas preocupações. Poderá escolher um lugar paradisíaco e esquecer de tudo.

– Não precisava ser assim… eu já tinha preparado a minha retirada para daqui a dois anos. Teria o gostinho de vê-los todos comendo na minha mão. Mas parece que um complô se formou. Esses coitados ainda terão saudades de mim.

– Não tenho dúvida, Majestade. O momento é agora, o Carnaval está chegando.  Resolva tudo hoje e, na próxima semana, ninguém se lembrará desse assunto.

– Meu conselheiro disse a mesma coisa…

– Peço a carruagem, Majestade?

– Sim, pode pedir. Chegou a hora.

______

Quando o mordomo saía da sala para avisar o cocheiro que o rei estava pronto, um mensageiro se aproximou.

– Tenho uma mensagem para Vossa Majestade…

– Ande, me dê logo esse papel… quem poderia me incomodar agora?

Ao abrir o envelope, o rei franze a testa. As notícias são preocupantes.

– Eu sabia… malditos! Eles já estão salivando… querem meu lugar…

O mordomo ficou curioso.

– O senhor fala de quem, Majestade?

– Daqueles nobres regionais de quinta categoria! Mal conseguem cuidar das próprias vidas e já estão tramando minha sucessão. Eles acham que sou idiota? Enviaram um pedido de reunião, querem vir aqui e conversar, mas eu sei exatamente o que pretendem…

– E o que seria, senhor?

– Realmente o burro aqui não sou eu… pelo amor de Deus, seu infeliz, é evidente que querem me pressionar contra a parede. Querem me obrigar a aceitar o que é melhor para eles. Isso não está claro para você?

– Não possuo sua sagacidade, senhor…

– Veja, criatura: eles me apoiaram por causa do grande evento que acontecerá daqui a dois anos. Se não fosse por mim, o rei da Suíça, que é quem decide essa m…, jamais escolheria a nossa candidatura. Enquanto estou aqui, todos eles lucram, entendeu? Mas se eu sair de cena, eles vão querer o poder. E até uma múmia como você deve saber que eu não posso permitir isso.

– Claro, Majestade. Agora entendo. O que o senhor vai fazer, então?

– Primeiro vou resolver o problema de hoje. Vou chamar mais um daqueles atletas campeões para trabalhar comigo. Qual é o nome dele, mesmo? Bom… não importa. Eu o chamo, fazemos uma declaração oficial e ele me elogia em público. Os safados que querem minha renúncia terão de esperar sentados. Que tal?

– Excelente, senhor. Devo entender que o senhor mudou de ideia?

– Não, gênio, quero ganhar tempo. Não posso renunciar agora, com os cães babando. Minha decisão está tomada, mas por agora talvez seja melhor deixar tudo como está e apenas me afastar por um tempo. Quem manda aqui sou eu, não eles.

– E ao pedido de reunião, como Vossa Majestade responderá?

– Deixa eles virem aqui. Não são muito espertos, vou enrolá-los como sempre fiz. Eles sairão certos de que estão numa posição privilegiada. Não sabem com quem estão lidando.

– Brilhante, senhor. O que faço com a carruagem?

– A que está lá fora agora? Cancele. Mas mantenha todos os planos para minha viagem. Vou aproveitar que esses foliões estarão todos bêbados e me mandar. Talvez faça algum anúncio, talvez não. Agora preciso de tempo.

– Perfeitamente, senhor. Boa viagem.

______

O rei está cansado. A idade e os tombos do passado cobram seu preço em forma de cefaleias que analgésicos não tratam. Certos movimentos, na vida cotidiana e no exercício do poder, se tornaram impossíveis. Levantar da cama é um suplício causado pelas dores nas costas e pela obrigação de encarar mais um dia. O mordomo é chamado todas as manhãs.

– Onde está você, infeliz!?

– Aqui, Majestade, deixe-me ajudá-lo. O tempo está bom hoje…

– Estou c… para o tempo. Preciso me vestir e sair daqui o quanto antes.

– É por isso que a carruagem real está lá fora, senhor?

– O que você acha? É claro que sim. Vou ao encontro de minha família. Partirei em minutos.

– De novo? Pensei que Vossa Majestade tinha resolvido todos problemas na última assembleia com os nobres regionais…

– Aqueles pulhas… Você sabe muito bem o que eles queriam. Chegaram com o peito cheio, mas mudaram o tom quando ofereci mais algumas poucas moedas. Eles não resistem ao barulho do metal. Estão todos quietinhos agora.

– Brilhante estratégia, senhor. Aqui estão suas meias…

– Mas o que fiz foi apenas deixar claro a eles quem manda. Eu vou colocar aqui quem eu quiser e eles terão de aceitar. Meus planos de me ausentar não mudaram. Viajarei a Raton e não sei quando volto.

– Permita-me perguntar… Por que agora, Majestade?

– É o melhor momento. Tem esse rolo do francês com o ministro… Vou deixar a coisa pegar fogo. Quero ver esses políticos resolverem o problema. Não quiseram me receber, agora que se virem. Me passe o paletó…

– Eu o felicito pela decisão, senhor. Dessa forma, Vossa Majestade descansa e observa o desenrolar das coisas. Mas que deselegante foi a declaração do secretário francês…

– Você acha que alguém diz uma coisa dessas sem saber exatamente o que acontecerá? Por favor, criatura, pense um pouquinho. Esse francês é meio atrapalhado, mas sabe o que está fazendo. Eu o conheço bem. Quero ver onde isso aí vai dar… Onde estão meus sapatos?

– Vou buscá-los no armário. O senhor realmente não sabe quando volta?

– Não, ainda não pensei nisso. Tem muita coisa acontecendo. Preciso monitorar aquela situação na Suíça, cuidar da saúde. Agora querem investigar até os magistrados que jogam umas peladas no nosso campo de futebol! Não dá, vou sumir por uns tempos.

– Enquanto o senhor estiver fora, quem vai cuidar daquele evento que organizaremos daqui a dois anos?

– Convidei aqueles meninos para aparecer na televisão e nos jornais. Eles dão entrevistas, aparecem bastante, o povo gosta. Mas quem manda sou eu. Ninguém dá um passo sem eu mandar.

– E quem ficará no seu lugar por aqui, Majestade? A quem devo servir durante sua ausência? Não me diga que é aquele…

– De quem você está falando? Diga logo.

– Desculpe, senhor. Mas falo daquele que pegou a medalha.

– Exatamente. É ele. A escolha foi minha. E já determinei uma reforma na nossa sala de troféus. Ele está animado com as novas atribuições. E não esqueça: seu novo chefe gosta muito de sorvetes. Mande comprar.

– Não vou esquecer, Majestade. Boa viagem.

______

O mordomo não podia acreditar. Seu rei havia abandonado o trono, para não mais voltar. As informações vindas de Raton foram a gota d’água para o leal servo. O relacionamento com os dois senhores a quem ele devia obediência não era agradável. Sim, eram dois. Um lhe atormentava com voraz apetite para sorvetes. O outro lhe causava arrepios pela lembrança de um incendiário imperador romano. A esperança de voltar a servir à Sua Majestade era o que lhe mantinha são. Com a notícia da renúncia, o mordomo decidiu fugir. Ele tinha de ver o rei.

Chegou a Raton com o dia amanhecendo. O rei já estava acordado, mas ainda na cama, num estado de torpor causado pelos remédios para dormir. A voz do mordomo o alertou.

– Meu rei…

– Infeliz… é você?

– Sim, Majestade. Como tem passado? Não posso crer que o senhor não voltará…

– Não voltarei, está decidido. O que você está fazendo aqui?

– Desculpe, senhor. Preciso ouvir de sua boca que seu reinado acabou.

– Acabou. Você não viu as notícias, não soube da carta que deixei?

– Claro, senhor. Mas me surpreendi. Talvez tenha dado muita importância aos relatos de que o senhor jamais renunciaria. Pensei que essa história seria como a do cavaleiro mascarado, aquele que jamais é pego…

– Sabemos que você nunca foi muito esperto, não é? Declarações de pessoas interessadas em minha permanência, repercutidas por vassalos de pouca capacidade cerebral, assim como você. Minha decisão foi tomada há tempos.

– Lamento minha avaliação equivocada, Majestade. O que houve com seu rosto?

– Meu rosto?

– Vossa Majestade tem olheiras profundas. E há quantos dias não faz a barba?

– Nada disso importa, agora. Não preciso me preocupar com aparências. E não tenho tido muito ânimo para sair deste quarto. Como estão as coisas por lá?

– Difíceis, senhor. Se me permite falar abertamente, o novo rei não passa a impressão de saber o que faz. Apenas repete que dará continuidade ao trabalho de Vossa Majestade. Sinto que existe uma suspeita de que ele é manipulado por outro nobre regional.

– Qual? Deixei ordens expressas quanto ao meu substituto.

– O mercador veneziano… o imperador de Roma… o senhor pode escolher.

– Ah, sim. Você não precisa saber dos detalhes, mas essa era exatamente a minha vontade. Não posso permitir que alguém com ideias mirabolantes ocupe meu trono. Tudo deve continuar como está.

– Entendo. Dizem lá que há vários nobres descontentes com a situação, Majestade. Fala-se em disputa pelo poder, talvez até com o envolvimento do baixo clero que cuida dos jogos que divertem o povo.

– Que piada… só eles para me fazer rir numa hora dessas. Esses aí não conseguem nem ficar juntos numa sala por dez minutos. Se depender deles, o castelo pega fogo.

– Não diga isso, Majestade. É capaz de aquele senhor gostar da ideia… Ah, já ia me esquecendo: seus amigos fizeram com que o povo soubesse que seu reinado foi um tempo de trabalho e prosperidade.

– Com isso eu nunca precisei me preocupar. Agora me dê licença…

– O que vai fazer, senhor?

– Vou ao trono, infeliz. É o que mais gosto de fazer hoje em dia.



  • Hélio

    Olá, André, ótima história, mas o que eu achei mais legal nesse post foi a “cutucada” no primeiro parágrafo.
    Um forte abraço.

    AK: Ah, os petulantes… Um abraço.

  • Joao CWB

    Aquele petulante que não citarei o nome nem toca no assunto, e quando toca é de maneira bem superficial. Fico até com pena ao ler alguns comentários no blog do dito cujo, o pessoal não larga do pé dele.

    Acho que esse aprendizado ele levará para a vida toda.

    Abraço

    AK: Plantio e colheita, nada mais. Um abraço.

  • Brilhante André

    É verdade que o salário do mordomo é R$ 75 mil por mês?

  • Otavio Cruz

    Já que estamos no clima de mudanças, segue um
    Sistema novo pro Campeonato Brasileiro.

    20 Clubes. 5 grupos de 4 Times, regionalizados.

    1ª Volta: jogos em turno único dentro dos grupos – 3 jogos
    2ª Volta: todos contra todos turno único – 19 jogos
    3ª Volta: turno e returno dentro dos grupos – 6 jogos

    Vitoria 3pt Empate 1 pt Derrota 0pt
    Classificação:
    Feita em dois “registros”. Classificação dentro do grupo e classificação geral (idêntica à classificação atual), ficando sempre nas 5 primeiras posições da classificação geral os 5 primeiros de cada grupos (classificados entre si por pontos, vitorias, saldo de gols, etc).

    4 Piores classificados no geral, rebaixados pra segunda divisão, independente da classificação dentro de seu respectivo grupo.
    Para a segunda fase, classifica 1º Lugar de cada grupo + 3 mais bem classificados no geral, independente de classificação dentro do grupo.

    A partir – Quartas, Semi e Final todos em jogo único, jogando em casa os melhores classificados no geral. Final realizada em um estádio previamente escolhido no inicio do ano, com revezamento entre capitais sede de copa do mundo. (Teoricamente os melhores estádios).

    Em favor:
    Do fim ou redução dos estaduais (grupos regionalizados acirrariam e dariam grande importância às rivalidades estaduais).
    Do Nivelamento das chances dos times por região, enquanto mantem a possibilidade de um time se classificar por esforço próprio mesmo que não seja primeiro do grupo.
    Da Promoção do turismo interno, principalmente na cidade sede da final do campeonato brasileiro.
    Da Ocupação dos principais estádios após a copa do mundo.
    Da Transformação da Final do Campeonato Brasileiro no Evento Esportivo do Ano.

    Ex para 2012:
    Grupo A Grupo B Grupo C Grupo D Grupo E
    Nautico ATL-MG Botafogo Santos Internacional
    Bahia Cruzeiro Flamengo SPFC Grêmio
    Sport Ponte Preta Vasco Corinthians Figueirense
    ATL-GO Portuguesa Fluminense Palmeiras Coritiba

    Times que jogaram em casa contra na primeira volta jogariam fora na segunda, contra os mesmos clubes.
    Ex: Volta 1: Nautico x Bahia. Volta 2: Bahia x Nautico. Volta 3: Nautico X Bahia + Bahia X Nautico

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