COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O RATO ROEU… (epílogo)

O mordomo não podia acreditar. Seu rei havia abandonado o trono, para não mais voltar. As informações vindas de Raton foram a gota d’água para o leal servo. O relacionamento com os dois senhores a quem ele devia obediência não era agradável. Sim, eram dois. Um lhe atormentava com voraz apetite para sorvetes. O outro lhe causava arrepios pela lembrança de um incendiário imperador romano. A esperança de voltar a servir à Sua Majestade era o que lhe mantinha são. Com a notícia da renúncia, o mordomo decidiu fugir. Ele tinha de ver o rei.

Chegou a Raton com o dia amanhecendo. O rei já estava acordado, mas ainda na cama, num estado de torpor causado pelos remédios para dormir. A voz do mordomo o alertou.

– Meu rei…

– Infeliz… é você?

– Sim, Majestade. Como tem passado? Não posso crer que o senhor não voltará…

– Não voltarei, está decidido. O que você está fazendo aqui?

– Desculpe, senhor. Preciso ouvir de sua boca que seu reinado acabou.

– Acabou. Você não viu as notícias, não soube da carta que deixei?

– Claro, senhor. Mas me surpreendi. Talvez tenha dado muita importância aos relatos de que o senhor jamais renunciaria. Pensei que essa história seria como a do cavaleiro mascarado, aquele que jamais é pego…

– Sabemos que você nunca foi muito esperto, não é? Declarações de pessoas interessadas em minha permanência, repercutidas por vassalos de pouca capacidade cerebral, assim como você. Minha decisão foi tomada há tempos.

– Lamento minha avaliação equivocada, Majestade. O que houve com seu rosto?

– Meu rosto?

– Vossa Majestade tem olheiras profundas. E há quantos dias não faz a barba?

– Nada disso importa, agora. Não preciso me preocupar com aparências. E não tenho tido muito ânimo para sair deste quarto. Como estão as coisas por lá?

– Difíceis, senhor. Se me permite falar abertamente, o novo rei não passa a impressão de saber o que faz. Apenas repete que dará continuidade ao trabalho de Vossa Majestade. Sinto que existe uma suspeita de que ele é manipulado por outro nobre regional.

– Qual? Deixei ordens expressas quanto ao meu substituto.

– O mercador veneziano… o imperador de Roma… o senhor pode escolher.

– Ah, sim. Você não precisa saber dos detalhes, mas essa era exatamente a minha vontade. Não posso permitir que alguém com ideias mirabolantes ocupe meu trono. Tudo deve continuar como está.

– Entendo. Dizem lá que há vários nobres descontentes com a situação, Majestade. Fala-se em disputa pelo poder, talvez até com o envolvimento do baixo clero que cuida dos jogos que divertem o povo.

– Que piada… só eles para me fazer rir numa hora dessas. Esses aí não conseguem nem ficar juntos numa sala por dez minutos. Se depender deles, o castelo pega fogo.

– Não diga isso, Majestade. É capaz de aquele senhor gostar da ideia… Ah, já ia me esquecendo: seus amigos fizeram com que o povo soubesse que seu reinado foi um tempo de trabalho e prosperidade.

– Com isso eu nunca precisei me preocupar. Agora me dê licença…

– O que vai fazer, senhor?

– Vou ao trono, infeliz. É o que mais gosto de fazer hoje em dia.



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