COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O RATO ROEU… 3

O rei está cansado. A idade e os tombos do passado cobram seu preço em forma de cefaleias que analgésicos não tratam. Certos movimentos, na vida cotidiana e no exercício do poder, se tornaram impossíveis. Levantar da cama é um suplício causado pelas dores nas costas e pela obrigação de encarar mais um dia. O mordomo é chamado todas as manhãs.

– Onde está você, infeliz!?

– Aqui, Majestade, deixe-me ajudá-lo. O tempo está bom hoje…

– Estou c… para o tempo. Preciso me vestir e sair daqui o quanto antes.

– É por isso que a carruagem real está lá fora, senhor?

– O que você acha? É claro que sim. Vou ao encontro de minha família. Partirei em minutos.

– De novo? Pensei que Vossa Majestade tinha resolvido todos problemas na última assembleia com os nobres regionais…

– Aqueles pulhas… Você sabe muito bem o que eles queriam. Chegaram com o peito cheio, mas mudaram o tom quando ofereci mais algumas poucas moedas. Eles não resistem ao barulho do metal. Estão todos quietinhos agora.

– Brilhante estratégia, senhor. Aqui estão suas meias…

– Mas o que fiz foi apenas deixar claro a eles quem manda. Eu vou colocar aqui quem eu quiser e eles terão de aceitar. Meus planos de me ausentar não mudaram. Viajarei a Raton e não sei quando volto.

– Permita-me perguntar… Por que agora, Majestade?

– É o melhor momento. Tem esse rolo do francês com o ministro… Vou deixar a coisa pegar fogo. Quero ver esses políticos resolverem o problema. Não quiseram me receber, agora que se virem. Me passe o paletó…

– Eu o felicito pela decisão, senhor. Dessa forma, Vossa Majestade descansa e observa o desenrolar das coisas. Mas que deselegante foi a declaração do secretário francês…

– Você acha que alguém diz uma coisa dessas sem saber exatamente o que acontecerá? Por favor, criatura, pense um pouquinho. Esse francês é meio atrapalhado, mas sabe o que está fazendo. Eu o conheço bem. Quero ver onde isso aí vai dar… Onde estão meus sapatos?

– Vou buscá-los no armário. O senhor realmente não sabe quando volta?

– Não, ainda não pensei nisso. Tem muita coisa acontecendo. Preciso monitorar aquela situação na Suíça, cuidar da saúde. Agora querem investigar até os magistrados que jogam umas peladas no nosso campo de futebol! Não dá, vou sumir por uns tempos.

– Enquanto o senhor estiver fora, quem vai cuidar daquele evento que organizaremos daqui a dois anos?

– Convidei aqueles meninos para aparecer na televisão e nos jornais. Eles dão entrevistas, aparecem bastante, o povo gosta. Mas quem manda sou eu. Ninguém dá um passo sem eu mandar.

– E quem ficará no seu lugar por aqui, Majestade? A quem devo servir durante sua ausência? Não me diga que é aquele…

– De quem você está falando? Diga logo.

– Desculpe, senhor. Mas falo daquele que pegou a medalha.

– Exatamente. É ele. A escolha foi minha. E já determinei uma reforma na nossa sala de troféus. Ele está animado com as novas atribuições. E não esqueça: seu novo chefe gosta muito de sorvetes. Mande comprar.

– Não vou esquecer, Majestade. Boa viagem.



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