COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DEIVID NÃO DEVE

Nós sabemos como Deivid se sentiu. Não precisamos ter “estado lá” para saber. Não precisamos ter a noção do que é perder, talvez, o gol mais feito da história dos jogos entre Flamengo e Vasco, para saber. Não precisamos ter um notável currículo de gols não feitos na carreira para saber. Nós sabemos.

Sabemos porque todos nós podemos contar a história de um momento que faríamos tudo para viver de novo. Tudo para ter de volta. E fazer tudo ser diferente. Aquele momento em que, se houvesse um buraco suficientemente grande por perto, entraríamos. Se houvesse a possibilidade de desaparecer, sumiríamos. Mas um grande constrangimento não o seria, é claro, se pudéssemos reescrevê-lo de forma a terminar bem, sem nos dominar pela vergonha, sem nos oprimir com a pergunta inconveniente: o que acabei de fazer?

Não importa se foi na pequena área de um estádio de futebol ou na vida pessoal. Não importa se o Brasil inteiro viu ou se aconteceu diante de uma só pessoa. Não importa por quanto tempo o embaraço durará no estômago de sua vítima, ou o tamanho da repercussão. Na hora em que se percebe que o que está feito está, sim, feito, a sensação é a mesma. É por isso que sabemos.

A diferença entre nós e Deivid são apenas as circunstâncias. Ele viu a bola se aproximando, sabia exatamente onde estava. Não, não pensou em nenhum resultado que não fosse o gol. Não pensou na ínfima chance de, diante de 7,32m, a bola escolher os 12 centímetros da trave. Não daquela distância. Não pensou em fazer a torcida do Flamengo gritar e depois ter de recolher o grito. Não pensou em fazer Fernando Prass, certo do que estava prestes a acontecer, repreender sua zaga por um gol que ela não permitiu. Não pensou em fazer Luis Roberto, da TV Globo, perder a capacidade de narrar e, efetivamente, recorrer ao silêncio que diz tudo. Deivid só pensou na comemoração. Uma comemoração condenada a ser um pensamento.

Nós também sabemos o que é preciso fazer quando momentos assim acontecem. Sabemos que essas são as situações que nos definem como pessoas, situações muito mais importantes do que gols marcados e comemorados. A atitude que se tem depois pode reeditar o episódio, com um final diferente. Ou aumentar a vergonha.

Deivid escolheu o caminho mais difícil. Em vez de fingir que nada anormal aconteceu no Engenhão e mergulhar no mundo dos óculos escuros, bonés e fones de ouvido, decidiu mostrar a cara. Em vez de se calar e se refugiar no paternalismo que impera no futebol, decidiu falar. Em vez de esperar o inevitável próximo gol para “responder aos críticos”, decidiu responder de fato.

Ao pedir para conceder entrevista no dia seguinte e não fugir de nenhuma pergunta, Deivid foi corajoso. Ao aceitar sua responsabilidade e as consequências, foi digno. Ao atribuir a eliminação de seu time ao gol que perdeu (um evidente exagero), foi generoso. Coragem, dignidade, generosidade. No dicionário, sinônimos de “brio”. Nos dias atuais, um comportamento raro.

Deivid não está em dívida com ninguém.



  • Bruno

    Bacana sua coluna,da pra ver q o Daivid é um jogador de caráter,que gostou disso foi o Ronaldinho,q com todas as atenções em cima do atacante,ninguém lembrou que ele entrou em campo,incrível como ninguém faz cobrança em cima do cara que ganha mais de um milhão por mês.

  • Aristeu de Campos Filho

    Parabéns. Como sempre, um brilhante texto, retratando uma situação que todos nós já vivemos.

  • Marcos Vinícius

    Claro,nas conversas sobre futebol no dia seguinte não havia outro assunto:Deivid.

    Discordo de você em um aspecto:sim,a responsabilidade pela derrota foi de Deivid. Se aquela bola entrasse a postura do Vasco no segundo tempo seria de partir para cima,pois estaria em desvantagem. E o Flamengo,em vantagem no marcador,se fecharia e jogaria nos contra ataques. Aquele gol mudaria a história do jogo.

    Legal a postura do Deivid,de vir a público e assumir sua responsabilidade por tudo o que aconteceu.

    Mas vai dizer para um torcedor do Flamengo que Deivid não deve nada a ninguém.

  • Willian Ifanger

    Já está ficando repetitivo elogiar seus textos brilhantes.

    Parabéns.

  • Anna

    Perfeita a coluna, como sempre. Adorei, André.

  • Matheus Brito

    Belo texto,” Não pensou na ínfima chance de, diante de 7,32m, a bola escolher os 12 centímetros da trave.” ótima sacada. Mas se há alguém que deve nessa história é o Flamengo que não paga seus compromissos com o jogador faz tempo. Se esse gol fosse contra uma equipe qualquer, já teria sido esquecido, mas para azar dele foi contra o Vasco e numa partida decisiva. Nunca foi craque, nem foi esse artilheiro que o Flamengo esperou contratar, mas pelo menos mostra muito mais caráter do que alguns protegidos da Gávea.
    Como já disse antes em outro post, sou um cara de bem com a vida, prefiro ver o lado cômico e alegre da situação então mais um “Deu no Face”:
    De Joel para David: Are you de sacanagem May Friend?

  • Gustavo

    André,

    Parabéns pelo texto. O caminho mais fácil para o analista esportivo seria recorrer às obviedades e ao humor de graça duvidosa para comentar aquele lance. Vc saiu do lugar comum e traçou um paralelo entre o futebol e o cotidiano, com sensibilidade e sem pieguice. O esporte será sempre uma metáfora da vida.

    Abraço

  • Thiago Magalhães

    André! Parabéns pela coluna! Muita bem escrita! Gostei muito do paralelo que fez do futebol com o cotidiano!

    Abraço

  • Nilton

    Matheus Brito
    o Deivid é o artilheiro que o Flamengo procurava (para completa a dupla de ataque e não para ser o principal artilheiro).
    Ele foi o maior artilheiro do Fla em 2011, e somente não é artilheiro, quando o Fla contrata um artilheiro de primeira linha como o Love.
    O mau do Deivid é que ele sempre é lembrado mas pelos gols que ele perde do que pelos que ele faz.
    Tente puxa de cabeça um gol do Deivid o com certeza vira a imagem do gol que ele perdeu contra o Vasco, ou o gol que ele perdeu no grande jogo contra o Santos.

  • athila marques

    Messi fez mais um.. agora falta apenas 12.. ELE VAI SER O MAIOR ARTILHEIRO DE UM CLUBE COM MAIS 112 ANOS DE VIDA…

    nada mais a declarar…

  • alex

    isso mesmo…simples assim. o ser humano erra onde mais crê no acerto….

    mas esse gol até minha mãe faria, rsrsrs

  • André,

    Quando leio textos como o seu percebo que quem está em dívida somos nós: como podemos, como flamenguistas, aceitar que um jogador do clube fique quase dois anos sem receber salário? Vê-lo ter uma atitude como essas é um tapa na cara de todos nós.

    Às vezes fico pensando em como perdemos a capacidade de nos indignar com coisas importantes (só o que causa indignação é derrota no futebol) e me pergunto se não poderíamos agir para mudar. Quando vejo a estrutura do meu clube, que só serve para alimentar a si mesma, acho que não há muito o que podemos fazer. A maior fraqueza é não saber fazer valer sua própria força.

    Será que algum dia veremos uma faixa em estádio de futebol pedindo honestidade ao invés de títulos? Respeito ao invés de cobrança?

    Realmente triste…

  • Leonardo Luz

    Um dos poucos “homens” entre os “moleques” que hoje atuam como jogadores do Flamengo. As atuações ridículas do Ronaldo, sua falta de vontade e descompromisso são mazelas muito piores. Vi algumas charges na web do Deivid com a camisa do Vasco. Pela forma como o elenco vascaíno tem tratado suas crises, certamente, se encaixa melhor com o caráter demonstrado por nosso atacante.
    Fica, Deivid!
    SRN

  • Marcelo Morais

    Que belissimo texto – obrigado.
    Voce estah trabalhando na edicao de um livro com suas colunas? Acho que elas merecem.

  • Anna

    Também acho que as colunas merecem um livro. 🙂

  • robert

    o Flu vencedor
    incomoda e muito a nossa midia
    o fla é exaltado por ser o time do povo;
    o vasco por ser da colonia;
    botafogo tb qdo vence evocam garrincha nilton santos e joao saldanha

    sempre foi assim
    o Flu vencedor
    incomoda

    alias essa é uma das senao a maior graça de ser tricolor:
    saber q o flu vencedor incomoda demais…
    ST

  • Robert, que clubismo bobo. Talvez em outro blog esse seu comentário coubesse. Aqui jamais!

  • Matheus Brito

    Robert, tsc tsc. Que pena você não ter lido o texto.

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