CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

DEZ, NOTA DEZ…

A conversa no restaurante próximo ao Santiago Bernabéu entrou pela madrugada. Horas antes, o Barcelona tinha vencido o Real Madrid por 3 x 1, em dezembro passado. Três jornalistas brasileiros, dois argentinos e dois mexicanos, impressionados com o que tinham acabado de ver. O papo logo chegou a Lionel Messi.

“Ele não sente a camisa…”, disse o argentino mais velho, puxando a própria camiseta para demonstrar por que, na opinião dele, Messi não pode ser comparado a Maradona. Referindo-se à seleção argentina e relembrando os heroísmos de Diego na Copa do Mundo de 1986. Mas ele não exige que Lionel “ganhe uma Copa sozinho” (como se isso fosse possível) para se igualar a Maradona, ou superá-lo. Quer apenas ver o superastro do Barcelona “sentir” a camisa celeste e branca como seu ídolo fazia.

O argumento não convenceu o compatriota na mesa, que também chorou em 86 e viu Diego Maradona no auge. E perdeu qualquer chance de convencer os outros quando a questão posta na mesa passou a ser: qual dos dois é melhor? “Não estamos falando sobre isso…”, ele diz. O futebol é tão apaixonante que até argumentos subjetivos são utilizados para elogiar ou criticar, dependendo de quem se trata. Messi sofre com esse tipo de análise em seu próprio país.

Objetivamente falando, se o assunto é a qualidade de Messi como jogador, não faz nenhuma diferença se ele “sente” ou não a camisa de sua seleção. Seu currículo em Copas também não deveria importar, uma vez que futebol não é tênis. Quem cobra de um futebolista a conquista de um Mundial para aceitar sua grandeza, está, apenas, o responsabilizando pelos defeitos de outros. Principalmente porque, hoje, as amostras são mais significativas e numerosas do que em outras épocas.

A Copa do Mundo não é mais o único ambiente em que os melhores jogadores do planeta se medem. A Liga dos Campeões da Uefa nos oferece esse encontro anualmente, por um período muito superior a um mês e com os jogadores em plena forma. O que vimos Messi fazer até hoje, aos 24 anos, já deveria ser suficiente. Sim, o futuro pode – PODE – lhe reservar um lugar exclusivo.

Exagero? Se Lionel Messi fosse brasileiro, Maradona já teria ficado para trás. E ninguém estranharia ao ouvir seu nome e o de Pelé, o Rei do futebol, na mesma conversa.

FOCO

Este deveria ser um debate sobre futebol, estimulado pelo gosto por futebol. Deveria ser protegido de sentimentalismos, clubismos e nacionalismos. No Brasil, como sabemos, costuma-se valorizar os números de Pelé para diminuir Maradona, e diminuir os números de Schumacher para valorizar Senna. Leva-se em conta “o caráter” de esportistas que não conhecemos como pessoas, em julgamentos que deveriam se basear em desempenho.

OLIMPO

O futebol tem eras e gênios. Os imortais são os que brilham mais, os que moldam a excelência do jogo como ele é em seu tempo. É preciso entender e respeitar as diferenças. No passado, houve os gênios do futebol da bola pesada, dos campos ruins, do luxo para pensar e agir, da câmera lenta. Messi é um gênio do futebol da fração de segundo, do metro quadrado exorbitante, dos superatletas, dos gramados impecáveis.



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