COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

RISCO MORAL

Telê Santana dizia que, entre levar um gol e ficar com um jogador a menos, preferia a primeira opção. Ok, não é exatamente uma questão de preferência, e sim do tamanho do prejuízo, mas o lendário (sim, lendário) treinador entendia que não há nada pior do que a inferioridade numérica no campo de futebol. Com onze contra onze, até mesmo os placares aparentemente definidos podem ser modificados. Quando um time tem mais gente no gramado, a tendência, em jogos equilibrados, é um desnível físico decisivo.

Edson Ratinho não pensa como Telê. Ou não pensou como Telê. Ou, simplesmente, não pensou. Explicação: Edson Ratinho é o jogador do Mogi-Mirim que foi expulso no início do jogo contra o Corinthians, na última quarta-feira.

O lance aconteceu aos 12 minutos do primeiro tempo. O corintiano Paulinho fez ótima jogada pela direita e encontrou Liedson na área. O domínio do atacante não foi perfeito, o que permitiu que o goleiro Anderson se aproximasse. Na dividida entre eles, a bola bateu em Liedson (no braço, mas esse não é o ponto aqui) e rolou para o gol.

Ratinho acompanhava a jogada. No momento da disputa entre Liedson e Anderson, correu na direção do gol. A trajetória da bola lhe traiu. Ele teve de interromper o movimento para o lado esquerdo e voltar para tentar alcançá-la. Não fossem dois acidentes, teria conseguido. Um escorregão do pé esquerdo ao brecar, e outro do pé direito ao partir para a bola, deixaram Ratinho com duas opções: observar, caído, a bola cruzar a linha, ou mergulhar como um goleiro e lhe dar um tapa. Ratinho mergulhou.

A situação do árbitro Marcio Henrique de Gois ficou fácil. Bola entrando, toque de mão quase em cima da linha, totalmente intencional. Pênalti e cartão vermelho. Os jogadores do Mogi-Mirim pressionaram, Ratinho ainda tentou alegar inocência (o que poderia ter dito?), mas a regra era clara demais. O Mogi ficou com um a menos e, minutos depois, perdia por 1 x 0. Entre as duas penas possíveis, pegou todas. Fosse o técnico de Ratinho, Telê teria lhe dedicado algumas palavras.

Mas o futebol é o que é porque nos emociona, nos surpreende e possui, digamos, livre-arbítrio. Há jogos em que a bola penaliza certos comportamentos, como bem disse Muricy Ramalho. É possível que a expulsão de Ratinho tenha sido benéfica para o Mogi-Mirim. Para o Corinthians, a dupla vantagem criou a sensação de disputar um jogo que já estava decidido.

E estaria mesmo, se o time de Tite marcasse mais um gol. Não marcou, não se importou, e permitiu ao Mogi vislumbrar um desfecho feliz. Só é necessário um lance, um rebote do goleiro, um atacante oportunista para recompensar o esforço e punir o desinteresse. Julio César deve ter pensado nisso mil vezes.

Ratinho também. O jogo perdoou seu erro de julgamento e o empate aliviou sua consciência. Mas, lá de cima, Telê deve estar preocupado com o que, em Economia, dá-se o nome de “risco moral”. Na próxima vez em que um jogador se deparar com o mesmo dilema, talvez tome a mesma decisão.

Se arrependerá.



  • diogo

    E o Suarez na copa? Fez a mesma coisa…e valeu a pena, não?

    AK: Nos momentos finais do jogo, quando o risco vale. Um abraço.

  • Marcos Vinícius

    Comparando com o que aconteceu com Suarez na Copa,a única coisa que fez valer a pena foi o desfecho da jogada,o pênalti desperdiçado por Boateng.

    Para quem está no jogo é difícil conter o impulso,ser racional.

    AK: Não é a única diferença. Suárez arriscou no final, quando vale a pena. Um abraço.

  • Marcel Souza

    Belo texto André. Eu ia comentar justamente sobre o Suarez. Será que naquele momento, ele teve tempo de pensar que estava nos momentos finais do jogo? Não sei, pode ser. Acho que as coisas acontecem muito rápido e o “instinto de sobrevivência” do jogador vai sempre fazer com ele tente evitar o gol. Nessas horas acho que até no subconsciente o cara se lembra que o objetivo do jogo é seu time fazer gols e evitar os do adversário. Questão interessante essa e que dá um bom papo. 1 abraço e boa semana!

  • Marcos Vinícius

    Nada sobre os estaduais?

  • Matheus Brito

    Já vi muitos lances assim e acho que deve se analisar friamente as situações. No caso do Mogi, 12 minutos de jogo? ele tem que pensar com calma, pois mesmo que o pênalti fosse desperdiçado, não haveria vantagem em enfrentar o Campeão Brasileiro por quase 80 minutos com um a menos. No caso do Suarez, era isso ou ver a copa ir embora. Era o último suspiro. Lembro de um jogo entre Palmeiras e River no Monumental pela Libertadores. O Marcos pegou tudo nesse jogo e Saviola ainda hoje sonha com o ídolo palmeirense. Mas o que vem ao caso aqui é que no segundo tempo se não me engano já estava 1 x 0 River e o Saviola ia sozinho pra cima de Marcos na entrada da área quando o Júnior Baiano o segurou e o derrubou. Falta perigosíssima, zagueiro expulso, meio segundo tempo pra resistir a uma pressão que parecia irresistível. Cobrança de falta desperdiçada, o Palmeiras segurou o placar e reverteu com sobras no jogo de volta. Ao sair do campo o Júnior Baiano foi bem claro, trocou a possibilidade real de gol pela expulsão. Sei que não há comparação com um pênalti, pois o risco de o jogador ser punido duas vezes (expulsão e gol) é muito grande, mas digo isso para mostrar que apesar de entender a tese de Telê, não dá pra levar tão ao pé da letra, pois há situações em que vale o esforço físico de correr por mais um. Da maneira que ele coloca, é como se não fosse vantagem de forma alguma. Agora tem uma coisa. Vai dizer pro jogador que no auge da emoção e nos segundos decisivos ele tem que pensar e avaliar a situação com frieza. Ele provavelmente vai te responder cantando:”…aqui embaixo as leis são diferentes…” Grande abraço e belo texto. Admiro muito sua capacidade de trazer temas interessantes e que geram sempre boa discussões. Poderia simplesmente falar dos clássicos da rodada, mas já tinha tanta gente falando que seria mais um. Mas como uma coluna única e original, trouxe um tema que poucos colunistas e blogueiros pensaram em discutir esse fim de semana. Aliás nenhum deles.

  • Edouard Dardenne

    É o tal do “moral hazard”, não é? Eu vi um filme sobre isso na tv a cabo não tem muito tempo. Esse blog está cada vez mais sofisticado, hein? Um abraço.

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