CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

A COMIDA E O ARROTO

Pense num sujeito que vive no vermelho. Aquele cara que jamais conseguiu gastar menos do que ganha, que tem uma relação de amor e ódio com o limite do cheque especial e com o cartão de crédito. O perdulário certificado. Pergunta: que acontece se alguém resolve colocar mais dinheiro não mão dele?

Uma de duas coisas. Um surto de responsabilidade que permite que o sujeito organize sua vida financeira e, pela primeira vez, adapte-se ao próprio orçamento. Ou a manutenção da gastança, mas com valores – e perigos – maiores. É razoável apostar que a segunda opção é muito mais frequente do que a primeira, o que significa que, para quem não está preocupado com a saúde do bolso, mais dinheiro é igual a mais problemas.

É o que acontece com alguns clubes brasileiros neste início de temporada. Flamengo, Vasco e Cruzeiro não conseguem honrar os compromissos que assinaram com seus jogadores, justamente no momento em que captam maior quantidade de recursos. Uma contradição que só encontra explicação – se encontrar – na gestão temerária que caracteriza o futebol no Brasil.

Os clubes se sentem ricos. Conseguiram, cada um a seu modo, a valorização dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Já receberam todo o adiantamento de cotas a que tinham direito e, mesmo assim, há quem (os citados são os publicamente conhecidos, mas certamente não são os únicos) esteja devendo a remuneração de funcionários. Como um tipo de rico comum no país, o que tem um Porsche na garagem mas não paga o condomínio do prédio.

A conjuntura estimula a criatividade dos nossos dirigentes. Não para encontrar caminhos que levem à viabilidade econômica de seus clubes, ou, pelo menos, para explicar como pretendem quitar as dívidas atuais com os atletas. Não. A opção é pela infâmia, como fez o presidente do Cruzeiro, Gilvan Tavares.

Ao ironizar as justas reclamações de seu elenco, o cartola cruzeirense se aproximou do colega espanhol que, no ano passado, diante das ameaças de greve do sindicato dos jogadores, lembrou da crise econômica e disse que “pelo menos eles têm empregos, há quem não os tenha”.

Deve ser bom ser jogador de futebol de time grande. Mas nada que se compare a ser cartola.

VOZES

Se há um resultado positivo dessa história vergonhosa é a manifestação dos atletas. Vascaínos recusaram-se a se concentrar, cruzeirenses divulgaram carta criticando a declaração do presidente. É o mínimo, mas já é alguma coisa. Jogadores de futebol devem se fazer ouvir quando seus direitos são desrespeitados. E não só na questão dos salários atrasados. No Campeonato Paulista, por exemplo, há “gramados” inaceitáveis.

VOZES?

A coluna está a caminho de Indianapolis (EUA), para a cobertura do Super Bowl XLVI. A decisão do futebol americano – assim como toda a temporada – correu risco de não acontecer, por causa do impasse trabalhista entre clubes e jogadores. As negociações se deram no mesmo momento em que, no Brasil, o clube dos 13 deixou de existir. Por aqui, ninguém perguntou aos jogadores o que eles achavam. Os jogadores também não disseram.



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