MARCOS É UM DE NÓS



Goleiros bons, vimos muitos.

Grandes goleiros, alguns.

Goleiros como Marcos, só ele.

Não vou chover no molhado sobre Marcos, o jogador.

Não vou? Ah, ok, vou sim: não tenho certeza de onde ele está no meu ranking pessoal. O que sei é que não vi ninguém chegar perto do que ele fez ao redor do ano 2000.

Talvez isso não satisfaça quem espera uma posição definitiva sobre um jogador de futebol, no momento de sua aposentadoria. Os fanáticos exigem que ele seja declarado o melhor, e, desde que os outros concordem, encerra-se a conversa.

Desculpem, não é assim que funciona.

Para falar sobre Marcos, é preciso ter a capacidade de tirar as luvas, despir-se do uniforme e sair do campo. Mas sem jamais deixar a grande área.

Para quem conseguir, Marcos é único. Porque é exatamente como você e eu.

Num mundo em que esportistas são vistos com o distanciamento que sugere a existência de vida fora da Terra, gente como Marcos é inexplicável.

Quem torce pela camisa que ele defendeu o via como um santo. Quem torce contra sabia que ele prevaleceria. Houve ocasiões – e não foram poucas – em que ele tinha poderes, era superior, invencível.

No jogo seguinte, era capaz de ser comum.

E ao falar sobre esse mundo em que vivem nossos heróis, Marcos o reduzia à simplicidade da vida cotidiana.

Jamais usou o dialeto do boleiro, aquele que diz sem dizer.

Marcos fazia ligação direta do coração à boca, cruzava a fronteira do discurso pronto e nos levava para dentro do vestiário. Abria janelas cada vez mais raras no futebol como o conhecemos.

E representava o torcedor, o cara que justifica a existência desse mundo distante, que percebia seu sentimento refletido “do outro lado”.

Acima de tudo, Marcos era como era, sem interesses. Sinceridade genuína, assim como a falsificada, é fácil de detectar.

Porque Marcos sempre foi palmeirense, como se sabe.

Há uma história sobre ele que é um desses casos que nos mostram que jogadores de futebol são pessoas normais, embora muitos não pareçam.

Aconteceu em 2003, se não me falha a memória. Numa noite de folga, Marcos se encontrou – casualmente – com alguns jogadores do Corinthians numa casa noturna paulistana.

Lá pelas tantas, estavam na mesma mesa, batendo papo e revelando alegrias e insatisfações, quando Vampeta o convidou para trocar de clube. Não só o convidou como, num guardanapo, escreveu detalhes do contrato, o salário, o período.

E deu o papel para Marcos assinar.

Testemunhas da cena dizem que ele olhava para o papel, ria, olhava de novo e dizia para Vampeta tirar aquilo de sua frente.

Marcos sempre soube onde queria ser feliz.

Se essa felicidade não durou tanto quanto deveria, por causa do tempo perdido se reconstruindo, foi porque a vida não é perfeita. E porque os craques – até os santos – não são infinitos.

Não são infinitos, não são infalíveis. Alguns poucos, como Marcos, também não são inatingíveis.

O legado mais valioso de Marcos não são suas defesas e seus títulos. Não é ter sido um goleiro gigantesco, capaz de esconder o gol com sua grandeza.

Não é ter sido um legítimo representante da nobre linhagem de arqueiros do Palmeiras.

É tudo isso junto e, ao mesmo tempo, a sensação de que nada disso lhe faria falta.

E a certeza de que o admiraríamos da mesma forma.



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