COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ESTÁGIO

Peço licença a Mano Menezes, técnico da Seleção Brasileira, para retirar uma frase do texto que ele publicou recentemente em seu site. Ao tratar da final do Mundial de Clubes, Mano escreveu: “Continuamos produzindo jogadores com alta capacidade técnica, mas precisamos formá-los, dirigi-los e criticá-los melhor”.

O pensamento está correto, especialmente quando aborda a formação. Mas neste caso, não deveríamos – ainda – falar em jogadores. Deveríamos falar em pessoas. E começaríamos bem, ainda que bastante atrasados, se tomássemos a humilde decisão de conhecer o que é feito no Uruguai desde 2006.

Brasileiros buscando conhecimento no futebol uruguaio? Sim. Já passou da hora de aceitarmos situações como essa e de enterrarmos nossas presunções a respeito de quem somos, hoje. Não estamos em posição de ensinar nada a ninguém. Estaremos em posição de aprender, se tivermos essa virtude.

O Uruguai é exemplo de trabalho em categorias de base no futebol, graças a um projeto que se iniciou quando Oscar Tabárez assumiu a seleção principal pela segunda vez, há cinco anos. O que se faz com potenciais jogadores de futebol de 15 a 20 anos no país é o oposto do que acontece no Brasil. Apesar de parecer um contrassenso, os uruguaios preparam esses garotos para não serem futebolistas profissionais. Quem chega ao topo da pirâmide é uma minoria privilegiada. É obrigatório cuidar da maioria que não vive o sonho e precisa encontrar o caminho da cidadania.

Ao investir (o que significa oferecer as condições e, posteriormente, cobrar) em estudos e assistência psicológica, o trabalho coordenado por Tabárez aumenta as chances de sucesso na vida de quem descobre, aos 19 anos, que o futebol não será o futuro. E transforma os que chegam ao profissionalismo em pessoas melhores. No Brasil, com raríssimas exceções – e observadas as enormes diferenças populacionais – a linha de produção apenas descarta milhares de jovens frustrados, despejando-os num mar de incertezas, sem coletes salva-vidas.

Na hora de dirigir os felizardos que vestem as camisas das nossas seleções de base (aí, sim, estamos falando da formação de jogadores), o método brasileiro continua equivocado. Treinadores incumbidos da tarefa de montar um time para determinado torneio convocam, treinam, competem, enxaguam e repetem a operação. Se ganham, são louvados. Se perdem, criticados. Por baixo do resultado final, há pouco.

Em categorias de base, principalmente, a análise jamais deve ser feita pelo resultado. Se a posição final representa o que você é, não sobra nada quando você não vence. Ademais, o que significa ser campeão mundial sub-17? A existência das chamadas seleções menores só tem sentido se dois objetivos forem atingidos: garantir o fluxo de atletas para o time principal e aperfeiçoar uma forma de jogar futebol. Quantos jogadores do time campeão mundial sub-20 na Colômbia, em agosto passado, estarão na Seleção Brasileira de Mano Menezes? E que identidade de jogo temos no Brasil hoje?

Se a CBF quisesse tratar bem de sua galinha dourada, estaria presente em todas as regiões do Brasil, trabalhando com técnicos de base, investindo na formação de jovens. Dinheiro para isso não falta.



  • Anna

    A coluna foi feliz ao abordar o assunto. O título é perfeito! Grande abraço, Anna

  • RENATO

    Acho que esse é sim um dos pontos a serem discutidos e posteriormente aplicado alguma forma de mudança.
    O aspecto da formação do individuo certamente é um dos fatores nos quais o futebol brasileiro tem ficado para trás. Será que veremos alguma mudança nessa direção???
    Abraço.

  • Willian Ifanger

    Outra bela coluna, André.

    Acho que o Lúcio de Castro há um tempo atrás tocou nesse assunto de forma semelhante.

    Tudo bem que o assunto é futebol, mas no mundo comercial que vivemos hoje, todo profissional é formado apenas para vencer….apenas pensando na melhor empresa, no melhor trabalho. E sempre são poucos os capacitados que chegarão nesse patamar…é a vida.

    Esse tipo de preparação profissional que o futebol uruguaio propõe/investe deveria ser expandido de uma forma geral a todos os setores.

    Vemos um “profissional” como o Adriano (pra ter um exemplo, entre vários) se meter em confusão periodicamente. E conheço gente que acha legal pra caramba essas “loucuras” que o cara apronta.

    Acho que o problema no futebol nunca vai se resolver, se a sociedade não mudar. E aqui no Brasil parece que vai demorar pra isso acontecer.

  • Willian Ifanger

    Ahhhhhhhhhh……uma coisa que esqueci de discordar da frase que você citou:

    Não creio que estamos produzindo jogadores com alta capacidade técnica…na verdade, parece até que passamos por uma fase de secura.

    E falar em “PRODUZIR” jogadores dá uma noção exata de como isso está sendo tratado.

  • BASILIO77

    Cuidar da formação da “pessoa”…
    quem sabe o que o Vasco fez no segundo semestre desse ano não seja exceção e sim a regra…que a “seriedade” do TIMAÇO do Barça, sem dancinhas, corações feitos com as mãos e sem pedir musica na TV, idem.
    Abraço.

  • Joao CWB

    Acredito que um dos “problemas” do Brasil é produzir ótimos jogadores em grande escala. Todo dia aparece um novo craque.

    Daí tenta-se dar uma identidade à seleção ou de repente manter uma base desde as categorias inferiores, como acontece em muitos países menos privilegiados, e quando parece estar tudo se encaminhando dentro do planejado aparece um Neymar, um Ganso e imprensa e o povo começam a exigir a convocação desses garotos de 18, 19 anos que ainda terão muitas oportunidades para vestir a amarelinha.

    Vide Dunga em 2010.

    Abraço

  • Rubens

    Andre, o que vc coloca esta perfeito e eu gostaria de complementar. Quando falamos em cambio de cultura, de tratar melhor nossos jovens, temos que lembrar que isso tem que comecar om um lider, uma inpiracao. Alguem que tenha poder de fazer as coisas diferentes. Essas pessoas sao os dirigentes. Pra um tecnico poder formar adequadamente, ele tem que ter tranquilidade e rumo, alem de capacidade e capacitacao. O dirigente tem que saber o que quer e fomar seus tecnicos e criar a estrutura de apoio. E so no aspecto dirigente tem um montao de coisas que fazemos mal. Quando digo dirigente coloco no mesmo saco clubes e rederacoes. Os tecnicos vem em seguida e ai sim poderemos formar melhor os jogadores. Alem disso, deveria haver mais jornalismo esportivo. Uma boa analise de um jogo ajuda a melhorar o nibel de todos. Analises ufanistas, equivocadas ou centradas em aspectos que nao sao relativos ao jogo e sim a revistas semanais contribuem para a mediocridade do que temos feito. Sao pouquissimas as pessoas que realmente analisam bem o futebol.. Precisamos de um belo banho de loja em todas as camadas relativas ao jogo…
    Abs

  • ana

    Olá, André! Parabéns pelo seu Blog e discernimento no momento de expor suas opiniões. Sem sensacionalismo e informações desesperadas para se “consagrar por ter dado um furo de reportagem” dá aula de jornalismo pensante dentro do futebol. Mais uma vez falou tudo, ou quase tudo. Só acrescentaria uma formação de profissional e pessoal para os que chegam ao topo da piramide também, para que esses jogadores possam conduzir sua carreira com responsabilidade e coerência, sem que se percam no caminho do deslumbre ou má decisões. Um abraço!!

  • matheus Brito

    Esse é um tema que se deve tratar com muito cuidado para não produzirmos dogmas ainda piores do que os que existem hoje. Qual será a relação sonho conquistado x sonho frustrado? quero dizer, para cada jogador que consegue se profissionalizar, quantos garotos ficam para trás sem saber o que vai ser do futuro? Seria interessante fazer uma análise mais ampla do tema e realmente discutir o assunto com seriedade. O que mais se discute hoje é que os clubes não estão formando jogadores de forma adequada, que não trabalham mais em cima dos talentos, que buscam títulos na base que não querem dizer nada, enfim. Pouco se fala em formar realmente o cidadão, e isso passa por várias etapas. Vai desde as pretensões dos clubes para o futuro dos garotos(?) até a assessoria de empresários que visam apenas o lucro em cima deles.
    Por que ninguém cobra que esses empresários e suas empresas invistam na educação dos jogadores?pelo menos dos que tem contrato com eles. eles só lucram? Uma lei poderia obrigá-los a destinar uma valor para isso em caso de assinatura de contrato. Enfim. Outra coisa simple de se fazer. O Vasco tem um colégio funcionando no clube. Era muito simples fazer uma parceria com uma faculdade privada e ajudar ainda mais na formação dos atletas. O que seria até uma forma dos clubes ficarem mais bem vistos tanto junto à sociedade como junto aos pais dos garotos.Seria um atrativo a mais. Enfim.

  • Lucas

    O Corinthians é campeão brasileiro de 2011! Campeão de um futebol pobre dentro de campo, que não ganha mais nada expressivo internacionalmente faz tempo, dominado por empresários de jogadores, interesses políticos extra-campo e derrotado recentemente pelo futebol espanhol. O melhor momento do último jogo foi o time reverenciar o grande ídolo do passado Sócrates e vibrar com o atrevimento de um chute no vazio, “copiado” a título de sarro pelo Jorge Henrique, uma espécie de caricatura tupiniquim de outro medíocre: o tal de chileno falsificado Jorge Valdívia. E queremos ganhar a Copa? Lógico que tem jeito… Só pedindo pra Dilma e o PT comprarem! hahahahahaha…

  • LM_RJ

    Adriano saiu do fla mas o fla nao saiu do adriano…

  • Edward Fernandes

    Andre,

    Meus parabéns pelo comentário, se vc permitir assino embaixo. Qto aos comentários dos leitores, a maioria foi muito feliz, só discordo do LM_RJ primeiro qque FLA é com letra maiúscula, segundo que não tem nada a ver.

    Abraços

    Edward

  • Juliano

    O que foi escrito, “meio que todo mundo sabe”, mas nao sabe. Como é bom ver este assunto abordado tao bem escrito e de forma tao clara.

    O que o pessoal da CBF, como neste caso, o Mano Menezes, faz, é falar superficialmente e tentar enganar o pobre torcedor brasileiro, que mal sabe disso, na massa, quer saber só da vitória.

    Numa cartolagem toda errada e corrupta, modelos como este do Uruguai (que nao é complexo e nao é difícil) parecem utopia. Modelo como o do Barça entao…

    O Brasil ruma a passos largos para, cada vez mais, deixar de ser o país mundialmente conhecido como o país do futebol. Aos poucos, outros melhores estao surgindo. Viveremos de lapsos. Identidade? Filosofia? Nao se sabe qual o estilo de jogo praticado aqui. Futebol arte? Parei…

    Isso para satisfazer egos e bolsos de corruptos do escalao mais alto, desde ministerio dos esportes e CBF, acabando nos escaloes mais baixos. É revoltante.

    Excelente André. Ótimas férias e um belo 2012.

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