COLUNA DOMINICAL



Só me ocorreu agora, plena terça-feira, que não publiquei aqui a Coluna Dominical.

Então, apenas para não quebrar o costume de tê-las em versão eletrônica, aí vai.

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(publicada sábado passado, no Lance!)

MEMÓRIA FERIDA

Na primeira vez que José Mourinho não quis falar com repórteres na véspera de um clássico contra o Barcelona, a sala de imprensa de Valdebebas viu cenas tragicômicas.

Logo após informar os presentes de que não ouviriam o espanhol com sotaque do técnico do Real Madrid, os funcionários do departamento de comunicação do clube foram pressionados, principalmente pelos repórteres de rádio. A presença de Mourinho era exigida na sala. Ele foi, mas não abriu a boca. Quando se anunciou que as perguntas somente seriam respondidas pelo auxiliar Aitor Karanka, mais da metade dos jornalistas se levantou e foi embora.

Era abril de 2011 e, como agora, estávamos diante de um clássico no Bernabéu. A diferença é que aquele jogo (que terminou 1 x 1 e essencialmente decidiu a Liga Espanhola 2010/11) valia pelo segundo turno do campeonato. Mas há mais relações a serem feitas com a última temporada.

De acordo com o jornal El País, Mourinho ainda não conseguiu superar a goleada por 5 x 0 sofrida no Camp Nou, em novembro de 2010. Seus jogadores dizem que aquela derrota o transformou para sempre. Desde então, quando o adversário é o Barcelona, Mourinho tenta convencer seu time de que a proposta de esperar atrás, recusar-se a lutar pela posse da bola e investir no erro do rival é um posicionamento inteligente.

O discurso não é bem aceito por uma parte dos jogadores do Real Madrid, especialmente os que foram formados no clube. Estes veem a postura como um sinal de covardia que não condiz com a história do maior campeão da Europa. Para quem passou a vida se sentindo superior ao Barcelona, a ideia de um comportamento medroso é uma aberração. Dentro do Santiago Bernabéu, pior ainda, é uma vergonha.

O bom momento do Real Madrid (15 vitórias seguidas no geral, vantagem de 3 pontos – com um jogo a menos – no Campeonato Espanhol), talvez o melhor dos últimos anos, pode sugerir uma atitude mais ofensiva no jogo de hoje. Mas há quem duvide dessa possibilidade, justamente por causa da folga na liderança. Um empate, somado a uma vitória no jogo que falta, faria a diferença dobrar, e a Liga ficaria à mercê dos merengues. Sem deslizes nos confrontos com os times mundanos da Espanha, o Madrid poderia até perder no Camp Nou no segundo turno.

A história entre Mourinho e o Barcelona é bem documentada. Baseia-se na dificuldade de conviver com o sentimento de rejeição. É uma história apimentada pelo fato de o time catalão ser o adversário para quem Mourinho perdeu mais vezes (7) em sua carreira. Ser contemporâneo e trabalhar no principal rival deste Barça de Messi e Guardiola são desafios que deixam o português inquieto.

Ele é o técnico mais poderoso que o Real Madrid já teve. Sua palavra é ordem em todos os departamentos do clube, saciando sua sede de controle. Mas o Barcelona – independentemente do resultado de hoje – é algo que Mourinho não consegue dominar. Até os próprios nervos se negam a obedecê-lo.



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