COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

UM GESTO VAZIO

Claro que seria legal ver jogadores brasileiros entregando as faixas para rivais, ou os aplaudindo na entrada em campo, como acontece na Europa. Seria uma imagem de gentileza, de respeito, uma exibição de valores que estão acima dos sentimentos entre dois adversários tradicionais. Uma cena bonita e falsa, infelizmente falsa.

Um gesto como esse representa e se alimenta de significados. Revela o correto entendimento do que é uma rivalidade e a noção de que a grandeza de um clube depende da grandeza de seus oponentes. Também revela um relacionamento civilizado entre as instituições e as pessoas que – momentaneamente – estão à frente delas. Não temos nada disso no futebol brasileiro, ao contrário.

“Há um nível de troca de farpas que não ajuda”, disse Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, em entrevista recente à Folha de S. Paulo. O presidente do Santos, cada vez mais uma exceção em nosso cartolismo, referia-se ao ambiente entre seus pares. Usou como exemplo o último processo de negociação dos direitos de televisão do Campeonato Brasileiro, em que os clubes se mostraram incapazes de construir a unidade que valorizaria o produto do qual são proprietários (para ficar claro: a questão não é com quem negociaram, e sim como).

Se fosse apenas troca de farpas, deveríamos bater palmas. O que caracteriza a relação entre dirigentes de futebol no Brasil são o cinismo e um inconfessável temor de ver a própria incompetência exposta publicamente. O jeito é estimular o caos, tratar da própria sobrevivência e rir da desgraça alheia. Lógico, é preciso reconhecer que não são poucos os que navegam com eficiência por essas águas. De cima para baixo, como esperar jogadores de rivais exercendo o cavalheirismo em campo? Sem dizer que a maioria da arquibancada deve achar que esse negócio de aplaudir adversário é um espetáculo humilhante (mas pressionar o próprio time para entregar um jogo é prova de honra…).

Paradoxal é perceber o vazio por trás da atitude, até onde a tradição existe. Em abril, o Valencia fez o “pasillo” para o Real Madrid, no primeiro jogo após os merengues conquistarem a Copa do Rei. No momento em que o Madrid entrou em campo, o estádio Mestalla se consumiu em vaias. Nem todos os jogadores do time da casa bateram palmas, a maioria estava constrangida, num clima de “passa logo aí e não valoriza”. Pareciam obrigados a encenar. Tomara tenha sido apenas um exemplo que mancha a prática, e deve-se registrar que a possibilidade de não honrar o adversário campeão nunca foi cogitada por ninguém no Valencia.

Por aqui não temos “pasillos” ou “corredores de honra”, expressão usada pelos ingleses, que tratam o futebol com liturgia. E apenas a sugestão de algo parecido, talvez feita com o propósito de espezinhar, foi suficiente para deixar claro que melhor seria jamais ter tocado no assunto.



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