COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NÓS

O vestiário do mandante no Pacaembu tem um amplo espaço para aquecimento, numa área retangular que fica entre o local de entrevistas e os chuveiros. Um tapete verde imita o gramado, há um gol pintado na parede e até as marcações da pequena área e do pênalti. Quando o Corinthians está em casa, é ali que os jogadores começam a se mexer antes do jogo. Depois, o espaço é de Tite.

Ao contrário dos atletas, o técnico corintiano utiliza o “campo” do vestiário para se desaquecer. A ideia não é entrar no jogo, e sim deixá-lo. Por vinte minutos, às vezes mais, Tite anda em círculos, olhando para o chão, em silêncio. A cena faz lembrar os prisioneiros catatônicos de “O Expresso da Meia-Noite”, excepcional filme de Alan Parker.

Somente depois de reviver o que se passou do outro lado do túnel, Tite se sente em condições de atravessar uma porta lateral e enfrentar as perguntas dos repórteres. A descompressão é uma medida de segurança contra a eventual incapacidade de manter a calma. Nas últimas semanas, o treinador tem precisado de mais e mais tempo sozinho, respirando, antes de ser entrevistado. E de mais e mais paciência para tratar de questões que considera inoportunas e insistentes, sejam sobre as fraquezas do líder do Campeonato Brasileiro, sejam sobre a relação umbilical entre o título e seu emprego no ano que vem. Tite já cogitou não falar depois dos jogos, acabou sempre convencido a fazê-lo.

Os jogadores perceberam. No último domingo, após a vitória sobre o Atlético Paranaense, a coletiva de Tite foi dominada pela visível queda de desempenho do Corinthians no segundo tempo. Como sempre fez, o técnico externou seu ponto de vista recusando-se a transferir responsabilidades. Explicou o que lhe convinha, reconheceu problemas pontuais, mas em momento algum soou como um diretor de cinema que comenta os defeitos do próprio filme como se nada tivesse a ver com eles. Os jogadores também perceberam.

De fato, o que chamou a atenção do grupo foi a postura do técnico logo após a derrota para o América-MG, no dia 6/11. A presença da torcida do Corinthians no Parque do Sabiá, em Uberlândia, fez do time o mandante de um jogo fora de casa. O que transformou a derrota para o então lanterna numa frustração ainda mais dolorosa. No vestiário, Tite disse aos jogadores que iria “lá fora, dar a cara”. A entrevista protegeu a equipe dos estilhaços de uma atuação constrangedora.

A retribuição veio na noite da última quarta-feira, em Fortaleza. Os jogadores celebravam o triunfo crucial sobre o Ceará, quando Paulo André e Alessandro procuraram o assessor de imprensa Guilherme Prado, com uma proposta. Queriam falar aos jornalistas no lugar de Tite. O gesto foi discutido com o treinador, que não se opôs. Evidentemente, sentiu-se abraçado.

O vestiário de um time de futebol profissional tem mandamentos quase sagrados, que não se encontram escritos em lugar nenhum. Adeptos do “eu ganho, nós empatamos, vocês perdem” são identificados e eliminados. A primeira pessoa do plural deve reinar, seja qual for o idioma. Por saborosa ironia, o vestiário do Corinthians fala “titês”.



MaisRecentes

Vencedores



Continue Lendo

Etiquetas



Continue Lendo

Chefia



Continue Lendo