COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VERDADE INCONVENIENTE

Tem sido um enorme privilégio ver, de perto, Neymar jogar futebol. Sempre haverá quem discorde (muito mais por antipatia do que por outra razão), mas ele se tornou um jogador do Brasil. Qualquer sentimento produzido pela camisa que Neymar veste é incapaz de diminuir o prazer de acompanhá-lo. Não é algo que aconteça com muitos futebolistas.

Só isso já é um prêmio. A ele e a quem desenhou a operação que impediu sua saída do país. A inclusão de Neymar na lista dos 23 jogadores que concorrem à Bola de Ouro da Fifa é outro. Único jogador que não atua na Europa a ser considerado. Mais um motivo para darmos a cada jogo, a cada drible, a cada gol, a importância merecida. Para acompanharmos a escolha dos três finalistas com mais atenção. Mas há uma verdade inconveniente que não pode ser ignorada: um jogador em ação no Brasil não terá a Bola de Ouro em seus braços. Por estranho que possa parecer, isso não depende dele.

O colégio eleitoral que decide o destino do troféu é essencialmente eurocentrista. Técnicos e capitães das seleções nacionais juntam-se a um grupo de jornalistas composto por gigantesca maioria de europeus. Entre todos os que votam, mesmo aqueles que não vivem na Europa consomem o futebol que lá se pratica, por uma razão óbvia: é onde estão os melhores.

Devemos acreditar, principalmente no caso dos jornalistas, que o futebol brasileiro e a Copa Libertadores fazem parte do cardápio dos eleitores . Mas não devemos duvidar que quem não habita essa parte do mundo e gosta de ver a bola rolando por aqui, o faz com a mesmas sensações que temos quando, por exemplo, assistimos a um jogo da Série B. Interessante, mas secundário. Você escolheria um jogador da Série B como o melhor da temporada no Brasil?

Aí é que está. Quando um europeu vê o gol magnífico que Neymar fez contra o Flamengo, na Vila Belmiro, uma das coisas que lhe surgem na mente é “esse rapaz tem que jogar aqui!”. E não se pode culpá-lo. O desejo de ver craques a olho nu se mistura à curiosidade sobre sua real qualidade. Atletas precisam competir no nível mais alto para descobrir e mostrar o que podem fazer.

Não que Neymar jogue contra ninguém no Brasil. Em suas próprias palavras, o vascaíno Dedé é o melhor zagueiro que ele já enfrentou. Encarar a defesa do Corinthians (a que menos gols sofreu no BR-11) provavelmente é mais difícil do que lidar com as zagas da maioria dos times espanhóis. Mas a questão não é essa. A questão é que a comparação é impossível. O mundo do futebol só abraçará Neymar quando ele se apresentar na elite. O estrelato para atores só acontece em Hollywood.

No dia em que um clube brasileiro tiver – se tiver – um de seus jogadores consagrado pela Bola de Ouro da Fifa, deveremos comemorar algo ainda mais importante. A inversão do eixo. Será um sinal de que o centro do futebol mudou de continente, e que o mundo olha para nossos campeonatos como hoje olhamos para a Liga dos Campeões. O fantástico Neymar (e os que vierem depois dele) tem menos a ver com essa revolução do que os dirigentes que atuam por aqui.

Vai demorar.



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