COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FAMA E INFÂMIA

Algo está terrivelmente errado quando um jogador de futebol convoca uma entrevista coletiva para pedir perdão à sua mulher, por ter sido infiel. Ninguém deveria estar interessado nisso. Nem ela. É o tipo de cena que não deveria acontecer.

Mas aconteceu. O palmeirense Valdivia sentou-se diante das câmeras e microfones, anteontem, e tentou explicar por que foi fotografado numa madrugada de fevereiro, aos beijos com uma mulher que não é a dele. Passava por um momento difícil, sua família estava no Chile, o casamento não ia bem… detalhes de sua vida particular, expostos publicamente como se fossem notícias.

Aí está o ponto. Há muita discussão em relação ao que é e o que não é notícia, por causa da confusão entre o que é jornalismo e o que é fofoca. Como a chamada “mídia do entretenimento” também não tem seu território definido, excessos são cometidos, dependendo da tolerância do estômago de cada um.

Valdivia foi “flagrado” numa boate paulistana, no meio da noite, nos braços de outra mulher. As fotos foram publicadas, provocando uma sequência de acontecimentos que não têm absolutamente nenhuma relação com sua carreira profissional. Mas, encaremos os fatos, há quem viva de situações como essa.

Desculpe. Alguém que se presta a fotografar um jogador de futebol traindo sua mulher, nas altas horas, não está praticando jornalismo. Está fazendo dinheiro. Dinheiro que virá de quem quiser divulgar o material, puramente pelo escândalo, ou de quem quiser evitar a divulgação, pelo mesmo motivo. Que o argumento do “exercício da profissão” não seja usado, portanto. E que não reste dúvida sobre o tamanho do mercado que se alimenta dessas imagens. É nesse momento que as fronteiras entre o público e o privado ficam menos claras, gerando uma zona cinza em que todos têm responsabilidades. Quem clica e quem é clicado.

A transformação de atletas em celebridades tem um aspecto que certamente agrada aqueles que “têm mídia”. O potencial de repercussão do que se diz e do que se faz pode ser utilizado em benefício próprio. A fama propicia lucrativas campanhas publicitárias, fermenta contratos de cessão de uso de imagem. Ainda que viva do que produz em campo, um jogador que opta por explorar o valor de seu nome não faz nada de errado.

Também não há problema algum – e ajuda a manter o status – em ampliar o apelo midiático e se aventurar por cenários frequentados por outra qualidade de artistas, como as revistas que se dedicam a mostrar como vivem os famosos. É simplesmente uma questão de escolha. Apresenta-se o filho recém-nascido, exibe-se a nova casa de praia, abre-se a festa de aniversário… e se cria uma personalidade fora dos gramados que massageia o ego, mas cobra seu preço.

Pois na ótica de quem vende a celebridade (sim, para um público fidelíssimo), aqueles que abdicam da própria privacidade quando lhes convém, não podem querer recuperá-la quando não interessa. A porta está aberta, e não importa se o “flagrado” da vez gosta de ser popstar ou não. É jogador famoso? Vale o clique. E o fuxico passa a ser jornalismo.

Valdivia vacilou? Evidente. Mas isso deveria ser problema dele.



  • André, uma das missões do jornalismo esportivo é saber o que se passa dentro do ambiente do esporte. Não é isso?
    Mas, e se isso atrapalha o desempenho dentro de campo ou quadra? Mesmo assim não seria necessário expor a vida particular de cada atleta. Na minha visão ou pelo menos o que eu faço e comento é sobre o desempenho nos jogos e treinos. Se vai bem ou mal. O que se passa fora do horário de trabalho depende exclusivamente do atleta, mesmo ele sendo uma pessoa pública e que lida com emoções.
    Abraços aqui de Floripa!

    AK: Depende. Há o que é de interesse público e o que pode ser apenas de interesse do público. O jornalismo se ocupa do primeiro. A fofoca, do segundo. Um abraço.

  • Com Certeza! O jornalista esportivo trabalha com o torcedor, que geralmente não tem discernimento de uma reportagem, quando lida com o seu próprio time. Quando é boa não faz mais que obrigação. Quando é ruim, larga uma série de xingamentos ao autor. Alías, a dificuldade de receber e entender uma crítica vale não só para os atletas, mas vários setores. São poucos que entendem a crítica para o seu crescimento particular e profissional.
    Os jogadores, geralmente. são mimados desde as categorias de base, hoje em dia pelos empresários que às veze n.ão valorizam o time formador e qu o atleta é maior do que um clube de tradição, mas isso é um outro debate.
    Abraço!

  • Roberto Junior

    Perfeito! Abraço!

  • Willian Ifanger

    O mais engraçado desse tipo de “jornalismo” é como a “notícia” é realmente importante…..a foto foi tirada em Fevereiro. Se fosse algo realmente relevante sob algum aspecto, a foto deveria ser revelada de imediato, já que essa gente se acha jornalista.

    O fato é que essa gente não passa de investidores. Ficam à caça de “flagras” e, muitas vezes, deixam lá, guardadinhas. Quando o mercado estiver propício, ele começa a negociar suas “ações”. E, como você mesmo citou, o consumidor desse tipo de coisa é fiel.

    O mundo, na verdade, virou um gigantesco balcão de negócios.

  • BASILIO77

    Entre o caso do Valdívia, intitulado “fofoca”, e uma série de reportagens da intitulada “imprensa investigativa”, a distância, na minha opinião, é pequena.
    Quando vejo uma manchete “bombástica” na mídia “séria” e acabo por ler a matéria e verificar um monte de suposições, fontes secretas, opiniões de partes interessadas(sem deixar isso claro ao leitor), enfim, tudo na condicional…Isso em nada me agrada. Acho covarde. Tendencioso.
    Nada mais é do que uma opinião e não fato. Mas esse é o grande mal da imprensa atual, vende opiniões como se fossem fatos.

    Não é pra ser levada a sério. É pra ler o “estadão” com o mesmo espírito com que se lê “caras”. Apenas se lê e poucas conclusões concretas e verdadeiramente importantes se leva para o travesseiro.

    O caso Valdívia, para ele, pouco importa em qual veiculo será noticiado, o que importa é que sua pulada de muro virou manchete, seja lá em qual publicação…está nas bancas e na TV…no noticiário “sério” ou no das celebridades.
    Abraço.

  • Juliano

    Excelente texto, fantástico. Toda a imprensa séria e “imprensa” (com aspas mesmo) de fofoca deveriam ler isso. Com relação a tudo, não só o esporte. Vida pessoal de atores, por exemplo, também deveria ser respeitada. Taí a TMZ que prova o contrário. Mas tem ibope. Por que? “A vida alheia, mais interessante que a sua”. Simplesmente deprimente.

    Grande abraço!

  • A fofoca de celebridades, como toda droga, só se sustenta em enquanto houver usuário… É sem dúvida um dos efeitos colaterais da internet e alta tecnologia. Antigamente, bastava mudar de canal. Hoje está tudo mixado e até nos mais sérios sites de notícias. A curiosidade humana por futilidades é algo que um dia hemos de entender. Ou não. Duvida? Clique e veja as fotos (imagens chocantes)! ;p
    Um abraço!

  • André, agora fiquei pensativo: de alguma maneria, o tal do UFC não é um viés desse raciocínio? Não consigo acreditar na acensão que esse masoquismo público, chamado de ¨esporte¨, tem tido no Brasil. Você acredita que essa porcaria chegou para ficar ou podemos ter a esperança que seja algo midiático e momentâneo e que em 2 anos esteja, no máximo, segmentado novamente?
    P.S.: Nada contra artes marciais, mas sou da turma que não enxerga nem mesmo o boxe como esporte (ou seja, vitória pelo ¨estraçalhamento físico¨ do adversário).
    Um abraço!

  • Anna

    Tb acho que foi um exagero o que fizeram com o Valdivia. Elepode ter errado, mas isso diz respeito a ele e à mulher dele.

  • O episódio foi triste. Além disso, o fotógrafo poderia muito bem ser acusado de extorsão e danos morais. Se até o Denatran proíbe que fotos de radares eletrônicos revelem o interior do veículo para preservar a intimidade do motorista, porque deveria ser diferente para os fotógrafos de celebridades?

    Abraços e parabéns pela coluna.

  • bruno capu

    André, meus parabéns pelo brilhante texto. Muito bem escrito. E estou totalmente de acordo.

  • Robert Silva

    Flu corre por fora e pela 1ª vez no certame aparece no G4
    no inicio do 2º turno o time era o 8º na classificação e nas ultimas 9 ou 10 rodadas ultrapassou varios times e ganhou posições
    primeiro ultrapassou o palmeiras
    depois o inter
    com muito esforço o sao paulo
    e ontem o fla

    ou seja é a campanha mais consistente do 2º turno (os numeros confirmam a liderança disparada do flu no 2º turno).

    o que impede o torcedor do fluminense, (inclusive baseado nas arrancadas das rodadas finais em 2009 e 2010) de sonhar que nas proximas 6 rodadas consiga ultrapassar mais 3 times, sendo q 2 deles com confrontos diretos e terminar o ano com mais uma taça?

    R: NADA. Flu tem time vencedor, experiente e que cresce nas adversidades.

    ST

  • Nilton

    Klaus,
    O UFC não acaba tão cedo, pois é sucesso de publico e Renda, e chegou no Brasil apenas porque os maiores lutadores campeões são Brasileiros e pela bons trabalho da família Grace (é o tal patriotismo quando um brasileiro se destaca em nível mundial, como foi no caso do Guga no tênis).
    Mais um detalhe, a maioria dos esportes tem por finalidade de “vitória pelo ¨estraçalhamento físico (e/ou emocional)¨ do adversário” ou você acha que os “REFIS” dos times de futebol somente existe de enfeite? É complicado mais o Futebol é considerado um esporte violento que vai das caneladas que os “Neymar/Messi” da vida recebem passando pelas obras primas dos “Felipes Melos” até a famosa voadeira do Marcelinho Carioca.

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