COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NEURÔNIOS TURBINADOS

O filme “Sem Limites” (título original: “Limitless”. Se não viu, e pretende, não leia) conta a história de um escritor submerso numa piscina de falta de criatividade. Não consegue escrever uma linha de um livro que já deveria estar nas mãos de sua editora. Passa os dias bebendo, emporcalhando seu apartamento e cultivando a aparência de quem se divorciou da toalha. Até que a namorada o abandona e ele se convence de que seu futuro não existe.

Vagando pelas ruas de Nova York, o cara encontra um conhecido que lhe apresenta um comprimido chamado NZT. A pílula permite que uma pessoa utilize 100% de sua capacidade cerebral. E o fracasso ambulante dá lugar a um gênio. Ele se lembra de tudo que viu e ouviu na vida, aprende idiomas na primeira conversa com estrangeiros, transforma-se num fenômeno do mercado de capitais. Em resumo, é o ser humano perfeito, que faz tudo melhor do que os outros.

Se é verdade que a arte imita a vida, Novak Djokovic descobriu o NZT. Hoje, o tênis é um mundo que pertence ao sérvio. Os outros tenistas apenas vivem nele. O que Djokovic tem feito na temporada (10 títulos, 3 do Grand Slam, 64 vitórias em 66 jogos) reduz os melhores tenistas da atualidade a jogadores de fim de semana. O que é mais interessante é que o nível de jogo apresentado por Djoko não é necessariamente superior. Mas sua cabeça está num outro planeta. Tanto que Roger Federer e Rafael Nadal parecem ter desenvolvido uma trava mental para vencê-lo. Em algum lugar do inconsciente do suíço e do espanhol, há uma mensagem em letras luminosas dizendo “não, não é possível”. No cérebro do sérvio, a rota para a vitória é clara como num aparelho de GPS. Viu o US Open? Inacreditável.

Mas, no esporte, há mais gente usando “a pílula”. Lionel Messi, por exemplo. Mesmo jogando no time que pratica um tipo especial de futebol, o argentino se diferencia. Digamos que está numa “plataforma” diferente. O Barcelona e o resto do mundo jogam futebol, Messi joga videogame. O lance do primeiro gol dos catalães no empate com o Milan foi mais uma evidência. Messi entrou na área pela esquerda e driblou três marcadores com um toque só. Há um replay que mostra a jogada por um ângulo lateral. A impressão que dá é que os defensores estão congelados, só Messi em movimento. O milanista mais recuado, Abate, foi traído pela memória. Achou que enfrentava um jogador que se move como os outros. Só percebeu que era Messi quando já era tarde.

E quem viu o sonífero “Superclássico das Américas” deve ter suspeitado que Leandro Damião também adicionou o NZT à sua rotina. Eis um atacante que não teve a formação habitual em categorias de base, chegou em “estado bruto” ao time júnior do Internacional. O polimento tardio o levou a revelar suas qualidades depois que se profissionalizou, em jogos pelo Inter e, agora, pela Seleção Brasileira. Damião Fez um gol de bicicleta outro dia. Na quarta-feira, contra a Argentina, aplicou uma “lambreta” espetacular no lateral Papa, que disse que “primeiro quis matá-lo, depois aplaudi-lo”.

No filme, os problemas começam quando o estoque de NZT acaba. Tomara que não aconteça na vida real.



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