COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PAREM O CARROSSEL
 
Peço licença a Alvaro Oliveira Filho, colega de Camisa 12 aqui no Lance!, para pegar uma carona na coluna que ele publicou na edição de ontem (se você não leu, deveria). O texto convidava a um debate sobre a necessidade de controlar a dança dos técnicos no futebol brasileiro. É certeiro.
 
Na quarta-feira, almocei com dois amigos. Falávamos sobre a rodada do Campeonato Brasileiro que aconteceria naquela noite, quando um deles fez um comentário que exemplifica “a cultura” do nosso futebol: “E o Corinthians, hein… se os caras tiverem a inteligência de mandar o Tite embora e contratarem o Celso Roth, o time arranca para o título”.
 
Perceba a crueldade do raciocínio. Na cabeça de alguém que acompanha futebol por dever e paixão, está na hora de substituir o treinador que lidera o campeonato desde 29 de junho. Mas não por qualquer um. Tem de ser o técnico que adquiriu, ou construiu, o perfil de quem aplica um choque de gestão. É aquele que chega, põe todo mundo para trabalhar e produz resultados instantâneos. Mas por pouco tempo.
 
A opinião de uma pessoa pode ser produto do ambiente. Nesse aspecto, é possível que meu amigo esteja absolutamente correto. A tal cultura é reflexo do modus operandi dos dirigentes que contratam, demitem, contratam, demitem, enxáguam e repetem a operação. O processo também criou as diferentes categorias que dividem os técnicos em subespécies: o estrategista, a figura paterna, o motivador, o que se dá bem com jovens, o que se dá mal com estrelas… tem também o especialista em evitar rebaixamentos e, como citamos, o que dá três gritos e deixa todo mundo em prontidão. Os dois últimos são exemplos do técnico freelancer, provas da vitória da burrice sobre o bom senso. Treinadores de curto prazo, inimigos do planejamento.
 
Nenhum é capaz de vencer “o sistema”. É só lembrar da entrevista de Abel Braga, após a vitória do Fluminense no Morumbi. Abel se disse convicto de que só não foi demitido porque “não tinha outro” para colocarem em seu lugar. Veja, é o mesmo Abel que estava nos Emirados Árabes quando Muricy Ramalho deixou as Laranjeiras, e por quem o Fluminense esperou um tempão. Bastou um turno do Campeonato Brasileiro (Abel estreou na quarta rodada) para que insatisfações aparecessem e o técnico se sentisse indesejado. Quando foi que Abel deixou de ser solução e se transformou em problema?
 
Conversar – em off – com jogadores de futebol sobre seus chefes é sempre uma experiência reveladora. Percebe-se que não há diferenças significativas entre a maioria, que o opcional de luxo mais importante é a capacidade de manter grupos motivados por um longo período, que poucos merecem uma referência do tipo “esse é f…”. A homogeneidade ajuda a explicar por que eles entram e saem do mercado em rodízio. E por que aquele que não serve aqui, cai como uma luva ali, duas semanas depois. Afinal, “futebol é resultado”…
 
Está errado. Futebol só pode ser resultado depois que houver um tempo mínimo de trabalho. Entre outras coisas, é assim que se desenvolve algo chamado filosofia de jogo. O que não temos nem em clubes, e nem na Seleção.



  • Willian Ifanger

    Realmente um grande tema para debates.

    Outra bela coluna. Parabéns.

  • josceley

    Excelente observações. Só acho que faltou falar que os técnicos também se alimentam dessa situação: seja recendo gordas recissões de contratou ou trocando de clube numa proposta melhor.

  • Roberto Carlos

    André
    Desculpe se a pergunta for idiota, mas li diversas vezes que o SPFC jogou ontem desfalcado de 12 jogadores, é correto dizer esta quantidade se o time pode ter no maximo 11 titulares?
    Abraços

  • Marcos Vinícius

    Cara,hoje de manhã vi uma entrevista de Vanderlei Luxemburgo,onde ele diz que”os dirigentes montam um time mais ou menos,e contratam você com a obrigação de fazer aquele time ser campeão.Você sabe que aquele time não tem condições,e quando os resultados não aparecem é você que vai pro pau”(as palavras não foram exatamente essas,mas foi isso o que ele quis dizer).

    Isso é reflexo do que acontece hoje.É muito mais fácil demitir um do que demitir onze,doze,quinze,peças que não corresponderam ou que foram contratações equivocadas.Os dirigentes,se fizerem isso,estarão admitindo que erraram.E dirigente não erra,nunca.

    Mas uma coisa tem que ser dita:Os treinadores que produzem resultados imediatos são necessários ao campeonato,a estrutura dele.Por exemplo,Hélio dos Anjos no Atlético-GO.Infelizmente ou felizmente,esses treinadores sempre trabalharam e trabalharão em times sem grandes pretensões.

    Hoje,alguns dos que merecem a expressão “esse é f…” são poucos.Muricy e Felipão,por exemplo.

    Interessante o termo “filosofia de jogo”.Acho que o último (e talvez único) time brasileiro que teve isso foi o São Paulo de Telê.

    Esse era F…,maiúsculo

  • Anna

    Tb gostei da coluna! Tema bem apropriado com essa dança das cadeiras que está rolando. Bom domingo a todos, Anna

  • Juliana

    Agora eu fiquei com uma dúvida: Em que ano teve mais danças de técnicos no campeonato

    brasileiro???? Existe essa estatística???

  • Ricardo Riso

    André, belo tema!
    Penso que um dos maiores problemas do nosso futebol é a falta de instrução dos dirigentes, técnicos e jogadores. O imediatismo dos resultados parece-me que é gerado por falta de uma percepção aprofundada do que acontece ao redor do jogo dentro e fora das quatro linhas. Técnicos sargentões, paizões, ou motivadores com filosofias baratas de autoajuda só sobrevivem, no meu entendimento, por causa da ignorância e ausência de comprometimento profissional da maioria dos nossos jogadores, que precisam de motivação jogo a jogo, pois não conseguem visualizar a importância de um planejamento a longo prazo necessário para um campeonato longo como o brasileiro e de avaliar prioridades quando se disputa competições simultâneas. Basta perceber as declarações dos jogadores, poucos são conscientes do seu papel tático, da sua importância para o time e avaliam com clareza a posição do seu time no campeonato, e nisso você é a pessoal melhor indicada para me corrigir. Infelizmente, só posso citar poucos jogadores que são realmente profissionais atuando no país, tais como Rogério Ceni, Renato Abreu e Juninho Pernambucano. Portanto, enquanto a maioria esmagadora (aqui o pleonasmo acaba sendo válido) dos jogadores não obtiver o mínimo de instrução, vivenciaremos o paraíso dos técnicos motivadores ou durões para deleite dos dirigentes cada vez mais incapazes e medíocres.
    Boa semana!

  • Hugues

    André, minha opinião, temos que usar o tratamento de choque para resolver o problema. Sempre uso o exemplo do cinto de segurança, quando eu era criança (tenho 34) era apenas um enfeite no carro, veio uma fiscalização pesada, multas e campanha e hoje a grande maioria usa automaticamente (meus filhos colocam sem qu seja necessário solicitar). Pra resolver a “dança das cadeiras” a minha sugestão é aplicar a regra que nenhum clube pode ter mais de dois técnicos em uma temporada e nenhum técnico pode dirigir mais de dois clubes da mesma divisão na mesma temporada. Isto obrigaria uma decisão mais cautelosa na contratação e demissão. O que você pensa? Abraços

    AK: É uma boa ideia. Precisamos de ideias. Um abraço.

  • Sergio

    Bem que mais dirigentes e jornalistas esportivos no Brasil poderiam concordar com esse pensamento. Ler esta coluna, por exemplo, já seria um bom começo. No ritmo atual, só teremos Fergusons e Arsènes aqui no Brasil lá pelo século 22.

  • Alexandre

    Oi André, gostaria que você comentasse por favor a respeito da vinda bilionária do evento norte americano ufc, sua alavanca nos clubes de futebol, seu fanatismo e efeitos no inconsciente coletivo brasileiro.
    Obrigado
    Abraço

  • Joao CWB

    E os técnicos que por covardia e/ou falta de caráter abandonam o barco? Ex. Renato Gaúcho.

    Abraço

  • Nilton

    Hugues, a ideia é boa, o chato seria que no final do brasileirão boa parte dos técnicos de primeiro escalão estariam trabalhando no oriente medio, e teriamos varios técnico da B trabalhando na A ou técnicos estrangeiros.
    João CWB, com relação ao Renato acredito que ele já estava pensando que seria mandado embora logo logo, e para que ficar atrapalhando o “planejamento do Presidente”.
    Vale lembra que o ultimo técnico da Seria A a ficar muito tempo em um time foi o Muricy e isto somente aconteceu porque venceu 3 brasileirão, mas como ia mau na Libertadores foi dispensado.

  • Joelmir Pedro Diniz

    A torcida a midia deve cobrar a diretoria,deixar o tecnico finalizar o seu planejamento,mudar ocomando tecnico no meio da competição, não leva a lugar nenhum

  • BASILIO77

    Antes de pensar em manutenção de treinador, os clubes precisam encontrar “sua filosofia”, independente do treinador que estiver no cargo.
    Nos últimos anos, os únicos clubes que conseguiram ter essa característica própria bem definida, são o SPFC e Cruzeiro. O tricolor com uma ideia tática SEMPRE partindo de uma defesa sólida, preparo físico a 110% e um time competitivo, cascudo como chegou a definir Emerson Leão. Por isso, brinco que eles são a “Alemanha” do futebol nacional.
    E os mineiros, que tem se caracterizado por um futebol mais “solto”, com boa técnica e um jogo mais vistoso.
    O resto, ainda tem que encontrar seu “DNA” e a partir daí tentar manter os treinadores no cargo, nem sempre é possível.
    Acho a questão dos clubes encontrarem suas identidades de jogo MUITO mais importante do que a discussão da danças das cadeiras entre os tecnicos. Quando cada clube encontrar seu modelo, a importância dos treinadores vai cair…e muito.
    Abraço.

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