A VERDADE O LIBERTARÁ



Ontem foi um dia importante para mim.

Dois anos atrás, revelei a existência de uma organização (até então) secreta, da qual faço parte: a IUPST.

A sensação de liberdade trazida por uma relação sincera com o leitor é indescritível.

Fiz questão de manter o texto na lista de links, que se encontra do lado direito da página.

Mas acho que vale republicá-lo. Creio que será sempre atual.

______

(publicada em 30/8/2009, no Lance!)

EU CONFESSO

Não é na hora de dormir que a consciência enquadra quem tem algo a esconder. Comprimidos e doses variadas resolvem o problema. Para os homens, a hora da verdade chega de manhã, diante do espelho, ao fazer a barba.

Não dá para fugir do momento “olhos nos olhos”. Eles têm de estar bem abertos, para evitar acidentes. É quando começa o acerto de contas.

Eu faço a barba diariamente, e não suporto mais. Minhas mãos tremem, o estômago se revira. Penso em cortar minha própria jugular. Não quero mais viver assim.

Esta coluna é uma confissão. Lamento pelos problemas que causarei, mas nunca é tarde demais para fazer o que é certo.

Sou membro de uma organização secreta. O nome é “Imprensa Unida para Prejudicar o Seu Time”. Auto-explicativo. Nosso único objetivo é criticar, desrespeitar, humilhar e, finalmente, acabar com o seu time de futebol. Não todos, ou a maioria, mas só o seu.

Somos tão antigos quanto o próprio jogo. Temos conexões em todos os países, mas nossa célula mais numerosa é a brasileira. Quase todos os jornalistas que trabalham com futebol no país fazem parte dessa verdadeira seita, uma rede sem fim que domina o conteúdo dos jornais, revistas, TVs, rádios, sites, blogs, twitters…

Chegamos às nossas redações, sete dias por semana, com o solitário propósito de prejudicar o seu time. Não nos afastamos dessa “linha editorial” por nada. E não toleramos a concorrência. Quando surge um jornalistazinho metido a neutro, imparcial, o coitado não dura um mês. Vai procurar outro ramo para exercer sua independência.

Graças à internet, hoje as redações estão interligadas, em constante comunicação. Combinam manchetes, distorcem declarações, ignoram a pluralidade, rasgam os manuais. Tramam, dia e noite, sórdidos esquemas de perseguição ao seu time. Há até um prêmio para o comentarista mais venenoso, o autor do texto mais deletério. O troféu “O Exterminador do Futuro dos Times” é entregue anualmente, na semana da última rodada do Campeonato Brasileiro.

Nosso grupo clandestino é poderoso, ninguém escapa. Se não vamos com a cara de um jogador, ele será sempre criticado (mas só quando jogar no seu time). Se não gostamos de um cartola, ele será implacavelmente perseguido (mas só se for do seu time). E se descobrimos algo errado no seu clube (mas só no seu, nunca nos outros), sai de baixo, é campanha de difamação.

Quando criticamos um time (o seu), é porque queremos aniquilá-lo. Quando elogiamos um time (nunca o seu), é porque queremos destruir os outros. E quando simplesmente não tocamos no nome de um time (às vezes, o seu), é porque queremos castigá-lo com a obscuridade.

Se você acha que seu clube é visado demais, ou sempre esquecido, se não consegue evitar a sensação de que “a imprensa torcedora” tem um plano maquiavélico contra ele, e já está se convencendo de que sofre de complexo de inferioridade, não se flagele. A culpa é nossa.

Nós, da “IUPST”, temos até um cumprimento secreto. Quando você for ao estádio, preste atenção. Após o aperto de mãos, há sempre um sorrisinho sarcástico. Significa “hoje vamos acabar com esse timinho”.

E é sempre o seu.



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